Nenhum astro atraiu tanto o olhar humano como a Lua. Ela é o símbolo do romantismo, dos enamorados e dos poetas.

Assim como o Sol, a Lua é um luminar.

Mas, ao contrário do Sol, ela não tem luz própria. A Lua recebe a sua luz e a reflete, portanto ela é um principio receptivo e passivo, em contraste ao Sol que é um princípio ativo (fonte de luz e energia).

Está ligada ao movimento das águas (marés, liquido amniótico etc), a vegetação, e aos animais.

Sendo um principio receptivo e doador, a Lua pode ser associada ao feminino, principalmente ao principio materno. Sendo então um símbolo da fecundidade, fragilidade e de ciclos.

Como ela possui várias fases e assume formas variadas, é, também, um símbolo da inconstância e da mutabilidade.

Na Astrologia ela esta associada à alma, em contraste com o Sol, que é associado ao espírito. Simbolizando o mergulho do espírito (principio divino) na experiência humana.

Na lua astrológica podemos observar as nossas emoções, nossas experiências passadas, nossas raízes, ancestralidade, nossa intuição, as fantasias, os humores, os assuntos domésticos, nossa relação com a família, a casa de origem e o nosso cotidiano, e também a memória.

Ela guarda as nossas reações espontâneas, nossos instintos mais básicos e primitivos como nossas necessidades de nutrição, segurança e acalento, em contraste com o Sol que simboliza o desenvolvimento da consciência e o esforço para compreender a avaliar a vida.

É o caminho do menor esforço, pois mostra a manifestação do nosso “eu” profundo e inconsciente. É o automatismo, aquilo que fazemos “sem pensar”. Sendo também o símbolo daquilo que nos faz sentir confortáveis.

Uma lua astrológica bem aspectada traz a sensação de paz e estabilidade emocional, sensação de se sentir pertencente a algo, segurança interna, bons relacionamentos sociais e íntimos, boa auto-imagem, boa autonutrição e adaptação ao mundo exterior.

Se a lua em um mapa astral receber aspectos ruins, esse indivíduo poderá ter dificuldades com suas emoções, tentando racionalizá-las, a sua infância pode ter sido muito difícil e, provavelmente, o individuo não vai se sentir querido, sabotando seus relacionamentos mais íntimos.

A Lua, em seu aspecto coletivo, pode ser associada ao arquétipo materno, sendo simbolizada pela Grande Mãe.

Nas civilizações mais primitivas, que remontam ao período paleolítico, o culto a Lua tinha uma importância simbólica maior do que o Sol. Essa era a época matriarcal da humanidade.

Naquela época os deuses conhecidos eram a Grande Deusa e o seu consorte, o Deus Conífero e se utilizava o calendário lunar para a contagem do tempo.

No antigo Egito, a Lua tinha uma importância fundamental. Deuses muito cultuados, como Thot e Isis eram associados à Lua.

Quase todas as deusas na Grécia possuíam um aspecto lunar. Porém, como a Lua passa por fases, cada uma dessas deusas representava uma parte de sua simbologia, e nenhuma delas era um símbolo completo da Lua.

Selene, uma deusa que quase não aparece na mitologia grega era considerada a fase cheia, (ela teve cinqüenta filhos) símbolo da jovem mãe, Hécate, a anciã, por sua vez era a associada à fase minguante e Ártemis, a deusa jovem e sem filhos era considerada a fase crescente da Lua.

Outras deusas lunares seriam Ishtar na Babilônia, Cibele uma deusa frigia. Parvati na Índia. Outras deusas gregas como Réia, Géia, Hera, Deméter e Perséfone, também encarnavam princípios lunares.

É digno de nota, também, que o simbolismo da Lua estava diretamente ligado aos animais. A divindade lunar Hécate era associada ao cão tricéfalo Cérbero, Artemis era representada por uma ursa, Cibele por uma leoa.

Em nossa civilização cristã a deusa lunar mais evidente seria a Virgem Maria. Porém, devido ao patriarcado, nela o aspecto mãe terrível está ausente.

O aspecto mãe terrível, porém, está presente em todas as culturas.

Esse aspecto na astrologia pode ser representado pela fase minguante da Lua e também pela conhecida lua negra. A lua negra é considerada uma lua ausente, que não pode, ser vista pelos olhos humanos.

Kali, na Índia, é a manifestação mais grandiosa desse aspecto.

Outras deusas como essa seriam, Lilith, as Górgonas gregas, Hécate, que aparecia com a chave do inferno, Perséfone, enquanto deusa consorte do Hades.

Portanto, o arquétipo materno é ora bom ora mal. Ora é fonte de vida, ora é a própria destruição.

No mapa astral de uma mulher a Lua nos dá indícios de como pode ser expressa a sua feminilidade de a maternidade.

No mapa de um homem ela exprime o arquétipo da anima, com a esposa, a amada, a irmã, a filha. Ou seja, o lado feminino inconsciente no homem que é projetado em suas relações com as mulheres.

Para finalizar, é costume entre os junguianos, associar a Lua ao inconsciente. Mas na verdade, é importante colocar outra forma de pensar: a Lua também é uma espécie de consciência. Mas uma consciência que ainda está ligada ao inconsciente.

A consciência Lunar, ou Matriarcal tem uma ligação direta com o inconsciente, por essa razão se liga aos ciclos das estações, das marés e do nosso corpo.

Diferente da consciência Solar ela não luta contra o dragão do inconsciente. Ela na verdade, o abarca também. Isso significa, que ela aceita seu destino, que não luta contra ele e principalmente: ela consegue compreender e aceitar a sombra e o mal.

Enquanto o Sol é especificamente voltado para o mundo externo, para o ego, a Lua é voltada para o mundo interior.

Jung diz que existem pessoas que possuem um ego com um alto grau de permeabilidade, ou seja, pessoas com uma consciência mais matriarcal. Estas pessoas são mais suscetíveis a neuroses. Astrologicamente seriam tipos fortemente marcados pela Lua.

Elas possuem um caráter mutável e instável, mas também possuem um alto grau de criatividade.

Vemos nos contos de fadas e na Mitologia esse funcionamento lunar nas figuras das heroínas; elas são geralmente mais passivas que os heróis masculinos. Esse desdém com as princesas (termo esse que se tornou pejorativo) é devido a nossa cultura voltada ao herói solar, mas na verdade, a força da heroína e da então consciência lunar-matriarcal, está no suportar o sofrimento e saber esperar o momento certo para agir.

Portanto, temos muito a aprender com a grandiosidade da consciência lunar e com pessoas que possuem um pendor maior para ela. Nossa sociedade não sabe esperar e não agüenta frustrações e sofrimento. Somos voltados para o fazer e para a eficiência.

Essa consciência por não está separada do inconsciente, está em harmonia e consonância com ele. Ela sabe esperar sem luta e impaciência e não é absoluta, aceitando a relatividade. Ela também não aceita a separação e a oposição.

No contexto atual temos a divisão masculino – ativo e feminino – passivo, mas, a consciência matriarcal não aceita essa divisão. Ela procura englobar ambos os lados englobando inclusive a consciência masculina.

Como a consciência feminina não deve aderir demais ao inconsciente, pois é consciência, no entanto, por estar mais próxima do inconsciente, ela pode trazer a tona elementos sombrios e esquecidos pela consciência. E isso é de grande valia para que possamos conhecer aspectos de nossa personalidade mais profundos e renegados.

Não podemos mais ficar restritos a uma única forma de consciência. A multiplicidade hoje se faz necessária e acredito que a sociedade caminhe para uma maior diversidade.

 

Referências Bibliográficas:

KAWAI, H. A Psique Japonesa – Grandes temas dos contos de fadas japoneses. São Paulo: Paulus, 2007.

NEWMANN, E. História da Origem da Consciência. 10 ed. Cultrix. São Paulo: 1995.

GUTTMAN, A. & JOHNSON, K. Astrologia & Mitologia – Seus Arquétipos e a Linguagem dos Símbolos, São Paulo: Madras, 2005

JUNG, C. G. Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

JUNG, E. Animus e Anima, São Paulo: Cultrix, 2006

PAUL, H. A Rainha da Noite – Explorando a lua astrológica, São Paulo: Ágora, 1990

SICUTERI, R. Astrologia e Mito, 9. ed. São Paulo: Pensamento, 1998

 

 

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Hellen Reis Mourao
Hellen Reis Mourão é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



2 COMENTÁRIOS

  1. Querida Hellen Reis Mourão, continue enviando/postando seus textos, bem redigidos, claros e objetivos. Eles ja se incorporaram ao meu dia a dia. Creio que pelo motivo de ser canceriano, com a lua regente, sei lá, nada é definitivo e plenamente definido. Beijos.

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