No emaranhado do nosso tempo, adquirimos o hábito de viver sem pensar muito sobre o começo e o fim das coisas, e muitas são as crenças sobre a origem, o fim, e as suas razões. Nascemos e morremos ao bel prazer do destino como se fôssemos reféns dos segredos da nossa existência. E assim, vivemos alienados da nossa sabedoria, esquecidos do que realmente importa na vida. Mas, afinal, o que é que importa?

Desde sempre nossas indagações sobre o significado das coisas estão suspensas no ar, sem resposta, porque esta é uma condição essencialmente humana – viver com muitas perguntas não respondidas. Sem respostas começamos a pensar na eternidade. Por força da imaginação nossa mente é capaz de acreditar que viveremos para sempre, e infinito é o nosso sonho que nos leva à eternidade. Mas, a despeito dos nossos desejos, nosso mundo é finito. Nessa vida seguimos a lei do Universo, a lei da finitude, tudo o que principia tem um fim. Tudo o que conhecemos e tudo o que está por vir em algum dia chegará ao fim. Imagine qualquer coisa – um pássaro, um vulcão, um mar, uma cidade, uma árvore, uma esperança, uma certeza, um beijo, um olhar — tudo o que você imaginar tem a sua própria duração de vida.

Quando nós aqui da Terra olhamos para o céu, com seus tons amarelados, alaranjados ou róseos e azuis, estamos vendo à distância uma avalanche de meteoros e meteoritos voando por todos os lados, sem rumo, à velocidade da luz com inúmeros buracos negros pela frente. Mas como é bonito um céu colorido! E que deslumbre é o céu estrelado! Para enxergarmos a beleza dos desígnios da vida temos de nos afastar um pouco de nós mesmos para encontrarmos um novo prisma, um novo olhar ou até mesmo uma nova explicação que nos conforte a alma. Isso eu aprendi com o meu filho caçula.

Eu tenho dois filhos. Há doze anos eles se separaram por uma escolha do destino. Meu filho mais velho, hoje com 28 anos, vive aqui na Terra e o meu filho caçula vive num outro mundo que desconheço. Lá no desconhecido não se contam os dias e então ele tem 14 anos, para sempre. Com o tempo parado na vida do meu caçula entendi a morte como um grande silêncio. Como o fim, sem nenhuma retórica. Imagine conhecer a morte através do seu filho caçula! Frente à morte somos minúsculos e impotentes. Uma sequência sem fim de perguntas (sem reposta) pipocam em nossa mente e o desânimo, o desespero e a tristeza passam a ser os nossos guias.

Nunca houve religião ou filosofia que tenha nos libertado da morte e mesmo assim somos tímidos em pensar a morte como parte da nossa vida. Acreditamos que se não tocarmos nesse assunto teremos paz e conforto, e é essa ilusão que nos impede de compreender a vida em sua plenitude. Em nada nos ajuda vivermos como se a morte fosse um engano ou um azar ou uma injustiça que atinge apenas alguns desafortunados.

Convivi com a morte ao meu lado durante os vinte meses em que o meu caçula esteve internado no hospital com o diagnóstico de neurablastoma (um tipo raro de câncer que acomete crianças). Foi quando aprendi que às vezes a gente consegue hipnotizar a morte com a nossa disposição de lutar pela vida. Então ela fica quieta e calma por mais algum tempo, e esse tempo em que a morte está calma é a nossa vida.

Meu caçula me ensinou muitas coisas. Uma delas é que o sofrimento pela perda de quem amamos é inevitável. Mas ele também me ensinou que a gente pode escolher de que jeito queremos viver – sendo pessoas felizes ou tristes. Um pouco antes de morrer meu filho falou bem baixinho — ele ficou surdo e praticamente sem voz por consequência do “tratamento” —: “Mãe, desculpe. Eu não vou conseguir.” Disse isso olhando de frente pra mim e depois apoiou o rostinho lindo que ele tinha no meu peito. Estávamos os dois sentados na cama dele, no hospital. Em seguida ele me disse: “Mãe, eu sei que vai ser duro mas não vai ficar triste, tá bom? Fala isso para o meu irmão porque eu acho que não vai dar tempo de eu falar com ele”. Meu caçula morreu no dia seguinte, sem ter tempo de falar isso para o irmão mais velho.

A generosidade do meu caçula em se despedir de mim com suavidade e a delicadeza dele em me dizer que ele tinha chegado ao fim me deixaram sem palavras. No meu coração despedaçado ficou a certeza de que eu faria tudo para voltar a ser feliz algum dia. Depois dessa última conversa com meu caçula, deixei o caminho livre para ele morrer. Ninguém tem nenhuma ingerência sobre a vontade da morte, mas quando digo que deixei o caminho livre é no sentido de não me opor ao fim e, sim, aceitar que a partir daquele momento minha caminhada seria sem o meu querido caçula.

Eu tinha de ser forte para cuidar do meu filho mais velho que perdera o irmão e me lembrei da sabedoria egípcia onde a mãe é a senhora do céu, soberana de todos os deuses e representa a força, o equilíbrio e a esperança, em qualquer situação da vida. Com o meu caçula em outro mundo, percebi o quanto somos frágeis e fortes ao mesmo tempo. Frágeis porque não escolhemos nosso destino e fortes porque o aceitamos, apesar de tudo. Aceitar o próprio destino não é uma atitude passiva, é uma escolha, a chance de escolher como viver o que o destino nos oferece. Por que abrir mão dessa liberdade?

Diante de tantos milagres que fazem nossa vida possível como não agradecer o que temos? A gratidão pela vida não deveria ser um pequeno detalhe no meio dos afazeres do dia a dia e sim a coisa mais importante de tudo. Ainda compreendemos muito pouco desse mundo e muitas vezes nos atrapalhamos com os assuntos da alma, sempre à procura de alegria e esperança de que todas as vidas precisam. Aprender a viver com serenidade para aceitar com naturalidade as coisas que facilitam ou dificultam nossa vida pode ser um bom começo para descobrirmos o que importa na vida.

(Autora: Graziela Gilioli é escritora, autora do livro O Pequeno Médico,

e fotógrafa premiada na 10ª Bienal Internacional de Arte de Roma,

além de palestrante do TEDxJardins. www.grazielagilioli.com)

(Fonte: http://projetodraft.com/)

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Fãs da Psicanálise
A busca da homeostase através da psicanálise e suas respostas através do amor ao próximo.



7 COMENTÁRIOS

  1. lindo! sem palavras…existem pessoas linda que vivem suas experiencias e passam pra nos

    ensinarmos a vivermos e compreendermos um pouco mais da vida. e principalmente da

    morte…perda.

  2. Mesmo com as mais belas palavras, não conseguiria expressar a minha satisfação ao ler este texto. Ao ler e imaginar tudo que ela passou, ao sentir o que ela sentiu, é avassalador.
    Obrigada!

  3. Perdi há 6 meses meu sobrinho com 21 anos vítima de um câncer ósseo que roubou lhe além de todos os movimentos, a visão mad últimas semanas. Era tanta dor e pra piorar no escuro, 2 anos de esperança e assistir ele partir bem Duarte dos nossos olhos foi avassalador. Me pergunto se um dia essa dor vai passar. Faço como vc disse. Vivo tudo com a maior entrega possível, tudo intensamente pq como num sopro amanhã eu posso não estar mais aqui. Embora não fosse meu filho como foi com vc, sinto que algo mudou pra sempre em minha vida e na forma de ver a vida e vive la. Fui obrigada a tirar um pouco de encanto de tudo, hoje as coisas são mais práticas e diretas, conviver tão de perto com a dor a saudade e a morte deixa a vida muito simples é como reconhecer nossa insignificância.

  4. Faz um mês nove dias que meu filho mais novo , com apenas 33 anos, faleceu vitíma de um enfarte fulminante, enquanto participava de um café da manhã para advogados. Confesso que não sei falar sobre a minha dor,é como se não tivesse palavras,só sei que sinto um vazio enorme e o meu coração parece que dói. Sei que nada será como antes,a sua lembrança me acompanhará sempre e nesses momentos sei que não controlarei as lágrimas. Tenho buscado refúgio na palavra de Deus e na Fé.

  5. Gostaria de compartilhar a minha dor de ter perdido meu filho com leucemia a 20 dias . Ele lutou 7 anos mas Deus precisava de mais um anjo e levou. É difícil falar da dor de perder um filho mas um dia vamos nos reencontrar eu creio. O que conforta é saber que não está sofrendo mais. Obrigado

  6. fara 04 meses agora em março perdi uma irma maravilhosa meu bebezão com câncer meu deus quanta dor quanto sofrimento só me resta agora uma grande dor um grande vazio as coisas mudaram muito eu me sinto perdida difícil muito difícil principalmente sem poder conversar sobre o assunto pois percebo que as pessoas fogem do assunto como ouvir os drama dos outros se todos vivemos com uma serie de outros assuntos

  7. Fazem 2 meses que meu marido se foi. A tristeza, o desespero e o desanimo, parece não ter fim. A imagem do seu sofrimento (cancer) me tortura todos os dias. A unica coisa que me conforta, é saber que o sofrimento dele acabou. A saudade, a falta de sua presença fisica dói, doi muito. Definitivamente, nós não somos preparados para morte….

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