Ela por bem engoliu a seco as palavras que fariam a diferença. E por bem guardou tanto e tudo porque não queria perder.

Ela se sente longe de casa dentro do próprio peito. E não sabe o que fazer com o que sente, e como é não se sentir sempre incômoda, apressada, atrasada e na dúvida se o que viveu até então não poderia dar-lhe algum descanso.

Ela quer o que a alivie desta sensação de não se encaixar; no amor que não encaixa, na solidão que não encaixa, na vida que não encaixa.

Ela busca o que a salve do caminho sempre tão difícil, do que crê ser improvável, do que já aceitou ser impossível.

Sofre das distrações que não alimentam; sofre da falta de sentido; da falta de amor próprio; sofre de boicote; de insônia; de um silencioso e crônico desajuste dentro de si.

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Cabe onde não lhe cabe mais e insiste. E se prende. E mastiga. E procura: nos romances que não vingam, entre os erros que se vingam, nos livros que devora.

Distraindo-se na poesia, nas ansiedades, no sexo, no sono, na sedução, nos elogios dos outros que coleciona no espelho que não se enxerga.

Luta contra os medos, contra o tempo, contra a velhice, contra o estresse, contra a tristeza. Conta histórias para acreditar. Conta lembranças para convencer. Conta vantagens para ocultar o tédio, o emprego, o amor e a rotina sem altitude.

Não sabe o que é renascer, apenas se remendar. Assim não se perdoa, não esquece, não se aceita, se envenena: de carências, mágoas, frustrações, passados.

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Ela que agrada a todos queria ser rebelde. Ela tão rebelde não sabe sentir-se amada. Ela não sabe. Ela suspeita, ela planeja, ela deseja. Ela sonha, mas não desperta.

Ela quer ser quem ainda não foi.

E ver se dá certo.




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