Primeiro de tudo, sei que o assunto referente aos filhos que dormem na cama dos pais é muito delicado e provoca muita resistência em algumas famílias.

Entretanto, gostaria de apresentar algumas considerações iniciais sobre este comportamento e explicar ao longo do texto um ponto de vista que é corroborado pela grande parte dos estudos sobre desenvolvimento infantil.

Essa visão de modo algum deve ser encarada com um posicionamento rígido, mas sim como um auxílio aos pais que estejam passando por este delicado momento.

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Dessa maneira, convido o leitor a se envolver com este texto tentando compreendê-lo de forma desarmada, e caso venha ao encontro com as necessidades vividas, espero oferecer algumas ferramentas para ajuda-los.

A cama dos pais

A cama dos pais é muitas vezes confundida como um ninho em que o recém-chegado filhote tem aconchego, proteção, afeto, e todas suas necessidades físicas e psicológicas supridas.

Entretanto, algumas vezes, os pais se esquecem de continuar observando os animais e negam a segunda parte dessa história, que é quando o filhote sai do ninho ainda muito jovem e começa a descobrir por si suas dificuldades e possibilidades para resolvê-las.

Assim como os pássaros, por exemplo, os filhos chegam ao mundo terrestre com uma infinita necessidade de acolhimento, mas existe um limite para o acolher, é necessário, aos poucos, transformar essa necessidade em autossuficiência.

O que se observa na contemporaneidade, entretanto, é o prolongamento da permanência do filho no quarto dos pais, local destinado a uma relação conjugal entre os enamorados, uma relação que o filho entra enquanto fruto desse amor, mas não pode permanecer, pois ele precisa descobrir seu próprio mundo, criar seu próprio mundo, a partir do mundo dos mais, mas que não é o dos pais.

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Este é uma das primeiras regras que deveria existir, uma regra básica, que se ignorada pode desencadear na criança uma dificuldade em aceitar outras regras e uma dificuldade para lidar com a frustração, assim como outros problemas relacionais e comportamentais.

Esse processo nem sempre é fácil

Neste sentido, a criança deve possuir seu espaço, seu quarto, sua cama, e o quarto dos pais deve ser o espaço dos pais e para vivenciar o papel erótico entre o casal no ninho de amor próprio dos pais, para a intimidade do casal, momento em que os filhos não entram.

Ninguém deve ser pai ou mãe em tempo integral. Entretanto, esse processo de separação é extremamente doloroso para algumas crianças e para alguns pais também.

Colocar uma regra rígida nesses casos é caminhar para o boicote da regra e desistência frente à dificuldade da mudança.

Então, precisamos de um equilíbrio. Precisamos pensar melhor sobre esse aspecto, pois deixar que a criança passe por tempo indeterminado nessa situação também não é aconselhável.

Então, o que deve ser feito?

A primeira questão é que isso se trata de algo muito particular, e provavelmente cada caso haverá uma análise própria, que deve ser mais bem compreendido com a ajuda de um profissional da Psicologia ou da Psicanálise, entretanto é possível colocar aqui algumas considerações:

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Observar as resistências da criança

Compreender o porquê da necessidade da criança de continuar no quarto dos pais. Aqui é comum que questões de angústia de separação, insegurança, e medo estejam relacionadas.

Talvez um acompanhamento profissional seja o mais indicado para uma intervenção efetiva, mas ficar atento ao que os pequenos dizem podem trazer sinais das causas, e mostrar quais caminhos devem seguir para resolução do conflito.

Observar a resistência dos pais

O filho no quarto pode estar cumprindo uma função encoberta em nível de fantasia dos pais.

Por exemplo, o desejo de querer suprir durante a noite o tempo não disponível durante o dia; ou então traumas que os próprios pais passaram quando eram crianças, quando foram expulsos do quarto dos pais, que são revividos agora neste momento, impossibilitando que consigam fazer o mesmo.

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As possibilidades são muitas, mas é preciso compreender que essa regra, na maioria das vezes, só trará benefícios, tanto para a criança que continuará seu desenvolvimento e seu processo de crescimento, quanto para os pais, que também precisam desempenhar outros papéis e precisam suportar algumas regras e frustrar os pequenos para que eles possam suportar o mundo lá fora quando crescerem.

Encarar essa mudança de forma lúdica

O brincar é o modo como as crianças conseguem assimilar os papeis sociais mais facilmente. Se for possível trazer o lúdico para a missão do dormir sozinho no próprio quarto, será algo que facilitará o processo.

Objetos transicionais como peças de vestuários ou um paninho também podem ajudar neste processo, eles serão associado à natureza tátil e ao calor do corpo da mãe, criando uma ilusão da presença materna e paterna.

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Para crianças um pouco maiores, os super-heróis ou as fadas podem cumprir tal função e criando a ilusão, necessária neste momento, de proteção. Estrelas que brilham no teto podem fazer o temido escuro desaparecer. Enfim, o brincar pode ser uma muleta de apoio, ajudando a criança a enfrentar seus medos e resistências frente o diferente, frente o crescimento.

Nunca deixar de ser afetuoso, mas não ceder às seduções infantis

Algumas crianças “jogam pesado” quando querem permanecer no conforto de uma relação simbiótica, mas como nos assegura McDougall (1), a nostalgia de retornar a fusão com a mãe (ou o cuidador principal), em que não há nenhum tipo de frustração, nenhuma responsabilidade, é um desejo que está em cada um de nós, e forte nas crianças que vivenciam, em certa medida, esta relação.

Entretanto, para constituir-se enquanto uma identidade individual, a criança precisa dessa frustração, precisa começar a caminhar conforme o próprio desejo, assim como todos nós fizemos em algum momento de nossa infância.

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É uma questão de desenvolvimento da identidade pessoal. E sim, é um processo doloroso, pois tudo aquilo que ameaça essa unicidade com o cuidador principal lança a criança numa busca desesperada para reconquistar esse espaço perdido.

Entretanto, sendo uma dor necessária para o desabrochar, cabe aos pais com afeto, diálogo, carinho e escuta, ajudar a criança neste processo de crescimento, e caso necessário buscar apoio profissional.

Referência

(1) McDougall, Joyce. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. 3ªed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo Clínico de Orientação Psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP e Ribeirão Preto-SP. Graduado pela PUC-Campinas (2014). Mestrando pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara (2017). Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.




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