A alquimia é uma arte antiqüíssima que deu origem a conhecida Química clássica.

Não se tem uma data precisa de quando começaram os estudos alquímicos, contudo os alquimistas já eram conhecidos na Antigüidade, sendo o mais famoso, o egípcio Hermes Trismegisto (três vezes grande) e seus ensinamentos da Tábua de Esmeralda. Mas também existe uma alquimia árabe, grega e uma chinesa, que apesar de apresentar diferenças sutis possuem a mesma essência, que é a de transformar chumbo em ouro para a obtenção do Elixir da Vida ou A Pedra Filosofal; um remédio que curaria todas as coisas e daria vida longa àqueles que o ingerissem.

Carl Jung consagrou muitos anos de estudo a este tema. E em seu livro Psicologia e Alquimia introduziu, a alquimia na psicologia, demonstrando a importância que possui esse tema, e quanto o que tem para dizer ao homem moderno. Ele começou a estudar alquimia devido a semelhança entre o material produzidos pelos sonhos de seus pacientes e a alquimia.

A alquimia é, em si mesmo, tremendamente obscura e complexa, e os textos muito difíceis de ler, mas seu conteúdo é de extremo valor para o autoconhecimento. Ela é uma palavra árabe alkhimiya, derivada do substantivo khemi que significa terra preta e assim a arte da alquimia consiste na transmutação da matéria original negra em ouro, depois de passar pelo branco e vermelho.

Ao estudar a Alquimia, Jung percebeu que havia algo mais e que o alquimista projetava o seu inconsciente durante o processo alquímico. Além disso, a alquimia traz um material mais depurado de qualquer traição religiosa ou cultural e que por isso está muito mais próxima do inconsciente coletivo do que os mitos e as religiões.

A alquimia oferece uma base bastante objetiva para a análise de sonhos e de outros materiais do inconsciente que aparecem na terapia e na vida cotidiana.

Mas no que consiste a alquimia?

A ideia central da alquimia é a ideia da Opus. Basicamente um trabalho sagrado que visa a busca do valor supremo e essencial. Essa busca do essencial e do que é mais sagrado e valoroso simboliza a nossa busca pelo autoconhecimento.

Essa Opus era uma arte laboriosa e exigia muita paciência e coragem. Mostrando que nossa busca por melhoria interna e pelo autoconhecimento exigem de nós muito empenho e perseverença.

A Opus também nos leva a ter consciência de um nível transpessoal, além do nosso ego. Isso significa que temos que nos apoiar no Self (centro da totalidade transpessoal) e ser orientados por ele e não pelos desígnios do ego.

Os alquimistas desenvolviam esse trabalho de forma muito solitária, e o processo de autoconhecimento é bastante solitário. Ninguém pode fazer isso por nós e quem se encontra fora desse processo não entende pelo que se está passando. O processo de autoconhecimento gera uma alienação temporária em relação ao mundo exterior. É um nadar contra a maré do coletivo!

Resumindo: a ideia da Opus é criar uma substancia miraculosa e transcendente, conhecida como Pedra Filosofal ou Elixir da Vida e para isso deve-se, em primeiro lugar, descobrir o material adequado, chamado de prima mater (matéria prima). Esse material será submetido a uma série de operações a fim de alcançar a Pedra Filosofla.

Nenhum alquimista realmente conseguiu alcançar a Pedra Filosofal. Todavia, o que importava para eles era o processo em sim e não a meta.

Mas o que seria essa matéria prima?

A matéria prima remonta desde os filósofos pré – socráticos. Esses antigos filósofos diziam que o mundo é gerado de uma matéria única original, a qual chamaram de a primeira matéria. Eles divergiam no tocante a forma dessa primeira matéria: uns diziam que era a água (Tales); ou o ilimitado (Anaximandro); o ar (Anaxímenes) e também o fogo (Heráclito). No entanto, ambos concordavam que ela existia.

Simbolicamente essa matéria prima somos nós mesmos e todo o trabalho é feito em algo desconhecido, que é a personalidade humana e precisamos ser reduzidos a essa primeira matéria para encontrar o essencial.

Descoberta então essa prima mater, deve-se submetê-la a uma série de procedimentos químicos. E as principais operações alquímicas são: calcinatio, solutio, sublimatio, coagulatio, mortificatio, separatio e coniuctio.

E basicamente a matéria prima consistia na interação de dois metais: o enxofre e o mercúrio, unidos por um sal. O enxofre era considerado “macho”, fixo, ativo e que representa a combustão e corrosão dos metais; o mercúrio “fêmea”, passivo, volátil, inerte; e o sal é o solvente universal.

Os dois metais combinados constituíam o que os alquimistas chamavam de “coito do Rei e da Rainha”. Simbolizando que em nossa alma existem esses dois princípios: masculino e feminino.

Os dois metais também simbolizam o corpo e a alma e o sal seria o meio de ligação entre eles, ou seja, nossa energia vital. Portanto, corpo e alma caminham juntos  e participam do processo de autoconhecimento em concomitância. Não podemos separar corpo e alma e não podemos cuidar apenas de um e deixar o outro no esquecimento.

Há muito que se falar ainda sobre alquimia, pois se trata de um assunto muito amplo e profundo. Mas a essência de todo esse conhecimento é que estamos em busca daquilo que transcende nossa vida egóica e que traz sentido para o sofrimento humano. Essa Pedra Filosofal é aquilo que nos traz energia, renovação e paz interior.

(Autora: Hellen Reis Mourão,é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas.

Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ)

 

 

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Hellen Reis Mourao
Hellen Reis Mourão é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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