A geração da minha mãe e anteriores foram gerações de mulheres que casavam. Algumas estudavam, algumas trabalhavam (e trabalham), mas invariavelmente casavam. Muitas vezes com o primeiro e único namorado (“moça de família” não podia passar muito disso). Era a principal perspectiva na vida da mulher.

Minha geração cresceu em meio a mundos cor de rosa, brincando de casinha e acreditando que esse também seria nosso destino, afinal, esse era o “final feliz” de toda princesa

Eu cresci acreditando nisso. Fui moleca, joguei muita bola, brinquei de pique, subi em árvore, assisti desenhos de luta… Mas mesmo assim acreditava em “príncipe encantado”.

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Brincava de namoro e casamento com Barbie e Ken (tinham cama de casal e tudo). Sonhava em ter um namorado desde o
pré-escolar. Aliás, sempre tive paixões platônicas, desde que me entendo por gente.

Aprendi a escrever e vieram os diários. Altas declarações de amor… Fui daquelas que escrevia carta anônima e tudo. Veio a adolescência e as coisas começaram a deixar de existir apenas no plano das ideias. Paixões, emoções, ilusões, desilusões, descobertas, alegrias, decepções… De carne, osso e sentimentos.

Enfim adulta, mas apesar da idade, aquele sonho do “felizes para sempre” me perseguia. Eu via todo mundo namorando e
eu só “ficava”, não tinha nada sério. Acreditava piamente que era “impossível ser feliz sozinha” e me achava a mais miserável das criaturas por não ter um namorado. Meu sonho era postar foto de casal no orkut, receber declarações românticas no aniversário de namoro, essa palhaçada toda kkkkk…

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Fui ter meu primeiro namorado depois dos 20. Foi uma relação bem complexa. Mas foi através dela que me libertei daquele paradigma limitado. Em 2015 completei 24 anos e terminei dois relacionamentos. A questão é: percebi que casar e ter filhos é uma opção, um estilo de vida, mas que existem muitos outros. E que nem todos se encaixam nesse modelo padrão.

Apesar de a sociedade nos vender esse “pacotão” como receita pra felicidade, basta olhar em volta e ver que é propaganda enganosa. Tem gente casada e feliz? Tem. Mas também tem solteira, tem quem case e more em casas diferentes, tem
quem só namora, tem quem troca de namorado (a) com frequência, tem gente que pega o amigo… E eu, que pensava me encaixar no primeiro grupo, fui perceber que esse equívoco era por falta de autoconhecimento.

Tive relacionamento longo, médio e curto, e também tive oportunidade de ficar sozinha (depois dos 24 anos, pela primeira vez realmente sozinha, sem nenhum amor platônico inclusive). Pela primeira vez na vida não desejo estar num relacionamento.

Não estou solteira por falta de opção, não estou sofrendo, não penso em casar. Realmente estou bem assim. Sei que para quem só é feliz estando em um relacionamento (ou ainda não se libertou do “pacotão”) é difícil assimilar a ideia, mas é verdade.

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Essa introdução toda foi para falar de amores líquidos. Já li alguns textos a respeito e em todos eles o tema era tratado como um problema. Um tipo de decadência nos relacionamentos entre as pessoas. Quase uma doença dos tempos modernos. Mas para mim eles são a solução.

Não quero me tornar uma ermitã. Gosto de me relacionar com as pessoas, o que não gosto é do peso do compromisso. Não quero ser cobrada, podada, ter que me preocupar em agradar alguém, em ser a “moça pra casar” e principalmente, não gosto de ser tratada como posse de alguém.

Aí vem as pessoas “do bem” (mães, vós, amigas caretas, etc…) e falam: “mas existem caras legais, você ainda vai encontrar um dia e blá blá blá”. Existem mas mesmo que eu os encontre um dia, não é só disso que se trata. Tem outras coisas que pesam também:

  • Em um relacionamento ambos tem que ceder. Geralmente a mulher cede mais, mas vamos supor que o cara seja “O” cara (e não um machista) e ceda tanto quanto a mulher. Ainda assim terei que ceder meus 50%;
  • A opinião do outro conta. Por mais liberal que seja, alguma satisfação sempre será de praxe;
  • Em algum momento a relação cai na rotina, esfria. Por mais que tenha amor, depois de um tempo nunca será igual à primeira semana, onde tudo era “perfeito” sem esforço algum para “manter a chama”;
  • Muitas vezes o seu desejo diminui muito (por “N” motivos) e o do cara não. Aí começam as cobranças. Falando em cobranças… são muitas!
  • O outro pode não entender sua vontade/necessidade de ficar sozinha;
  • Etc…
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Todas as pessoas que vejo defendendo o casamento e criticando amores líquidos falam que é preciso ter muita paciência para se manter em uma relação. Que conviver a dois não é fácil. Que é preciso abrir mão de muita coisa. Será que eles já se perguntaram se todo mundo está disposto a isso?

Se é algo assim tão difícil, será que realmente é para todos? Será que não posso querer algo mais prático? Por que a felicidade tem que seguir o mesmo modelo para todo mundo?

No momento eu não quero ceder nada, quero continuar sendo quem sou 100% do tempo e fazendo o que realmente tenho vontade. Gosto das coisas do meu jeito, no meu tempo. Não gosto de cobranças, amo minha liberdade. Adoro ficar sozinha, falar sozinha, sair sozinha

Não sou uma boa companhia o tempo todo. Às vezes enjoo das pessoas. Gosto de variar. Gosto de poder ficar com alguém hoje e amanhã talvez não mais. Gosto de ficar com alguém quando e se tiver vontade. Gosto de poder escolher. Às vezes tenho muita vontade, às vezes não tenho nenhuma. Gosto de respeitar isso. Gosto de dormir sozinha e espalhada na cama (essa história de conchinha pra mim nunca funcionou).

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Mas, por outro lado, as paixões não me deixaram por completo. Sim, ainda tenho sentimentos, desejos, etc. Então, quer coisa melhor que amores líquidos? Não importa se dura um dia, uma semana, um mês ou mais… O importante é que dure o tempo que for bom para os dois. É uma forma de se ter praticamente só a parte boa das relações, sem apegos, sofrimentos

Qual o problema das relações não durarem a vida toda? Acho que se acaba é porque hoje as pessoas (principalmente as mulheres) tem opção. Não tá bom? Termina. Tá sendo agredida? Pula fora (e denuncia). Não ama mais? Separa. Quer ficar com outro? Fica. Quer experimentar? Experimenta. Descobriu-se homossexual? Se assume. Quer pegar geral? Pega. Quer namorar? Namora.

As coisas não tem que durar. Elas duram se for para durar, se essa for a vontade de ambas as partes. Ultimamente tenho preferido as que não duram. Tem se encaixado melhor ao meu jeito de ser.

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Ellen Dutra de Oliveira
Graduada em Engenharia Civil, atua como militante em movimento social. É apaixonada por animais, livros, música, filmes, séries e pelos mistérios da mente humana. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


4 COMENTÁRIOS

  1. Boa apologia do estar só por opção, no entanto o conceito de amor líquido do Baumann (criador do termo) não diz em nenhum momento que o certo é casar e passar toda uma vida com alguém. Ele se refere sim (não só no q diz respeito à amor, mas tb a vários outros aspectos da sociedade moderna a superficialidade das relações humanas. Se ser superficial em tudo o que se faz e sente for uma opção corajosa diante da vida e de seu potencial, não sei o que dizer….

  2. Respeito à publicação acima; entretanto, há uma grande diferença entre “ser” ou “estar”. Pensei que o tema abordado é muito bom pra refletir e desenrolar; porém, necessita de vida vivida… é tanta coisa que hoje não significa nada e amanhã trás tanto significado!
    Sem contar que os males de um pensamento centralizador em si mesmo, sendo sempre si mesmo, não mudar, tratar os relacionamentos como cerca de arame farpado apenas em nome da liberdade…hummm…. sei não! Por fim: um relacionamento pode trazer liberdade…. depende de qual é a sua “prisão”..

  3. O texto se refere à relacionamentos “amorosos” que não duram, nem tem a intenção de durar. Pode-se chamar como quiser: paquera, ficante, crush, sexo casual… Enfim, a questão é optar por uma vida de solteiro sem a necessidade de estar em um relacionamento romântico sério e duradouro. Apenas isso. Isso não quer dizer ser uma pessoa superficial ou viver uma vida superficial. Ser solteiro também não indica que a pessoa seja totalmente centrada só em si, existem outras maneiras de se relacionar. Não citei nada a respeito de amizades, por exemplo.
    Enfim, o texto não tem a pretensão de convencer ninguém a ser como a autora, nem de dizer que isso é certo ou errado. Só mostra uma outra opção de vida que não é muito bem vista pela sociedade em geral, principalmente para as mulheres. A pressão para que tenhamos namorado, casemos e tenhamos filhos é real, e quanto maior a idade piora.
    Não faço uma crítica ao Baumann e à sua teoria, mas às pessoas que em geral associam amor líquido à algo negativo. Porque tem que ser ruim? É uma opção também.

  4. A mensagem da Ellen me pareceu bastante clara e interessante. Apenas questiona um padrão de vida imposto pela sociedade como fórmula de felicidade (casar, ter filhos…). E as pessoas sequer se perguntam o q realmente querem, quem realmente são. Às vezes sentem-se até culpadas por não quererem viver esse padrão.
    Existem, realmente, mtas formas de se viver, de buscar a felicidade. Cabe a cada um encontrar a sua.

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