Farei aqui uma abordagem de tema bem relevante e atual, envolvendo pais e filhos, em que se enfoca uma possibilidade preventiva em relação às transgressões em geral e ao uso de drogas em particular.

Acontece que o homem já dispõe, há dezenas de milhares de anos, de um instrumental bastante efetivo para a questão da prevenção ao uso das drogas e de outras transgressões. Este instrumental tem o potencial de quase um antídoto, uma vacina anti-drogas e é peculiar à espécie humana. Mas, na prática, infelizmente os pais ainda a têm utilizado menos do que se desejaria, embora estando à nossa disposição desde o nascimento de nossos filhos. Tomemos como exemplo uma fórmula medicamentosa, em que haverá um núcleo químico ativando sua ação terapêutica; haverá também interesse em se conhecer seu mecanismo de ação, administração, dosagem, potenciais efeitos colaterais e algumas recomendações em geral.

Agora vou falar sobre um instrumental de medicina preventiva disponível para o homem há milhares de anos e nem sempre muito utilizado pelos pais. E que funcionaria como um remédio preventivo, como uma vacina. Este recurso tem um núcleo central ativo, que vai funcionar na prevenção das transgressões.

E este núcleo atua como função terapêutica e tem características muito próprias, como sua composição, administração, mecanismo de ação, dosagem e outras recomendações.

1 – Princípio Ativo – Descrevendo nossa quase vacina, começarei pelo seu Princípio Ativo, que verão não ser absolutamente estranho; trata-se de um núcleo de composição dupla, sendo que sua base ou sal, componente desta quase vacina, é bem conhecido: é o afeto, ao qual é indispensável adicionar o ingrediente palavra. O sal composto resultante agora ganha imponente nome: palavra afetiva.

2 – Via de administração: o modo de administração é através da conversa, pois quem com… versa, versa com alguém e consequentemente escuta. A conversação é um privilégio da espécie humana e está na base de várias possibilidades que visem não só a saúde e o bem estar individuais, como também aqueles coletivos. Está na base, por exemplo, de todas as políticas de paz.

3 – Limites de Idade: esta medida preventiva, como algumas vacinas, pode ser aplicada desde o nascimento, ainda que o recém-nascido, claro, não ofereça sua resposta com palavras em si. Mas as presenças afetivas do pai e mãe, através de suas vozes a ele dirigidas, já começam instintivamente a serem acolhidas.

4 – Duração do Tratamento: não há limite para isto, podendo ser usada mais especificamente a partir do nascimento e ao longo das primeira e segunda infância. Deve prosseguir também ao longo da adolescência e se manter pela vida afora. Se a palavra afetiva tiver sido assim utilizada, o jovem adulto já estará acostumado ao bom hábito de conversar e com boa dose de prazer. Portanto, é instrumental para toda a vida.

5 – Dosagem: não há risco de super-dosagem uma vez que a situação da conversa afetiva implica, como já dito, na escuta do outro; e, ao sinal de algum excesso, aquele que ouve apontará o fato. Não há o que se temer quanto a este aspecto.

6 – Horário: pode ser administrada de manhã, à tarde e à noite, em qualquer dia da semana, nas férias e nos períodos letivos e também nos bons e maus momentos, pois a prática da conversação implica em que ela não será eventual, mas sim, hábito.

7 – Contra-indicações e efeitos adversos: não há registros ou menções de tais ocorrências em seu uso prático.

8 – Mecanismo de ação: o afeto transmitido através da palavra dos pais vai chegar ao filho que se sentirá amado, acolhido, o que lhe transmite uma noção de bom trânsito em relação a eles. Com isto, não haverá o temor de dirigir a estes quaisquer perguntas, curiosidades, dúvidas, discordâncias e primeiras experiências de tudo, em todas as áreas. Talvez algum constrangimento, mas não medo. No lugar do temor aos pais os filhos terão, assim, respeito e admiração. E, mesmo se algum temor ou medo dos pais ocorrer – na situação que estou enfocando – este sentimento, eventual, certamente surgirá à mesa da conversação.

9 – Resultados: a consequência terapêutica será a certeza de ser aceito e a possibilidade de conversar com os pais sobre vários assuntos, pertinentes às respectivas faixas etárias. Assim, pontos que a princípio sejam um tanto constrangedores para os filhos em geral – como as primeiras transgressões, a iniciação na vida erótica e amorosa, a proximidade com as hipotéticas ou concretas experiências iniciais quanto aos temas bebidas, cigarro e outras drogas – para os filhos que tiveram ou vierem a ter a conversa afetiva com os pais, tal sentimento de constrangimento será bem menor ou mesmo nulo. Tal fato poderá impedir a iniciação, de modo efetivo, de uma eventual incursão ao mundo das drogas, entre a quais o tabagismo.

10 – Recomendação Final: por favor, deixem a conversa afetiva ao alcance das crianças e divulguem-na aos parentes e amigos.

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Cláudio Persio
Médico Psiquiatra e Psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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