Mércia fez de tudo para tentar mudar o Gabriel, até perceber que quem precisava mudar era ela. Graças aos encontros com outros pais de jovens gays, hoje ela ama seu filho do jeito que ele é!

Homem tem que ser homem e não boiola! Essa coisa de gay é falta de limite!” Era assim que meu ex- -marido falava sobre homossexuais nos nossos encontros de família. Eu não gostava desse comportamento e chamava a atenção dele. Mesmo sabendo que falava de brincadeira, era agressivo e preconceituoso. Também presenciei casos de homofobia nas escolas em que trabalhei como consultora educacional e sempre repreendia os alunos que tinham esse tipo de atitude. Me considerava bem-resolvida em relação à homossexualidade, até que ela entrou na minha casa…

Pegamos conversas dele com homens na internet

O Gabriel teve uma infância tranquila ao lado da irmã mais nova, a Camila. Eles sempre foram bem unidos e brincavam livremente dentro do nosso condomínio: bicicleta, pega- -pega, esconde-esconde e até de boneca. Eu achava natural.

Quando o Gabriel estava com 15 anos, meu marido na época foi dar uma olhada nos históricos do computador da família e flagrou conversas íntimas do nosso menino com outros homens no Orkut e chats de paquera. Ele entrou no nosso quarto com um monte de papéis impressos na mão e disse: “Sabe o que é isso? São conversas do seu filho dizendo que é gay!”. Meu mundo caiu.

Fomos direto para o quarto do Gabriel pra tirar aquela história a limpo. Mas meu filho foi taxativo: “Sinto atração por homens e não por mulheres!”. Fiquei totalmente desnorteada. Bateu um sentimento de culpa, impotência e vergonha. Tentei dizer que ele estava confuso porque era muito novo, mas meu filho afirmava com todas as letras que era gay. Eu e o Gabriel choramos muito e meu ex-marido disse que não queria mais ouvir nada sobre aquele assunto. Foi aí que começamos a nos afastar do nosso filho.

Na época, 2008, o assunto era terminantemente proibido dentro de casa. Eu achava que a situação do Gabriel era passageira e tentei de tudo para mudá-lo. Obriguei meu menino a namorar uma garota e cheguei a falar que as meninas não olhavam pra ele porque era gordinho. Na minha cabeça, era por isso que o Gabriel se achava gay. Levei o coitado ao endocrinologista e fiz com que ele perdesse 20 kg!

Quando percebi que nada adiantava, me fechei. Tinha vergonha de conversar com as “Quando eu descobri a verdade, senti culpa, vergonha e impotência” pessoas e elas perguntarem do Gabriel. O fato é que, quando um filho sai do armário, a mãe entra e se tranca lá dentro!

Ficamos um ano sem tocar no assunto em casa, até descobrirmos que o Gabriel estava saindo com um menino. Começamos a vigiá-lo de perto. Com isso, as brigas em casa aumentavam e o clima ficava cada vez pior.

A aceitação nos tornou grandes amigos!

Em 2010, mandamos o Gabriel estudar em São Paulo e ficar na casa dos tios. Ele só vinha para casa nos fins de semana. Foi um distanciamento importante porque consegui ficar longe do problema e pude refletir. Assim, percebi que meu amor pelo meu filho era muito maior do que qualquer preconceito. Decidi que ia procurar ajuda pra aceitar a situação do Gabriel.

Pesquisando na internet, achei um grupo chamado GPH (Grupo para Pais de Homossexuais). Vi que se tratava de uma reunião de pais em processo de aceitação de filhos gays.

Entrei em contato e comecei a frequentar as reuniões. Foi a melhor coisa que fiz! Lá, eu me abria e ouvia outros pais e mães que estavam na mesma situação. Falava das minhas angústias, medos, vergonhas… Era um alívio conversar com pessoas que não me julgavam. Chamei meu marido pra ir, mas ele não quis.

Depois de quatro encontros com o grupo, comecei a entender melhor a situação do meu filho. Nas reuniões, aprendi que orientação sexual não era uma escolha. Que ninguém podia fazer nada para mudar isso. Após seis meses frequentando os encontros, percebi que, enfim, estava livre do meu preconceito. Eu amava e aceitava meu filho do jeito que ele era!

A partir de então, me senti livre para falar sobre a orientação do Gabriel pra qualquer pessoa. Foi libertador!

Quando contei para o Gabriel que eu o entendia e apoiava, seus olhos brilharam. Ele me abraçou com muita força e choramos muito. Dessa vez, de emoção e alegria!

Desde então, minha relação com o Gabriel foi ficando cada vez mais íntima. No início, ele não tocava muito no assunto, mas comecei a perguntar sobre seus relacionamentos e ele me contava. Eu escutava numa boa e ainda dava conselhos. Hoje somos mais do que mãe e filho. Nos tornamos melhores amigos! – MÉRCIA FALCINI, 48 anos, consultora educacional, Salto, SP

“A homossexualidade me aproximou dos meus pais” 

“Me descobri gay aos 13 anos e isso não me envergonhava. Só me preocupava com a aceitação dos outros. Até pensei em contar pra minha família na época, mas tinha medo porque cresci ouvindo comentários preconceituosos do meu pai e do meu tio sobre homossexuais. Foi bem difícil quando meus pais descobriram. Mas fiquei muito feliz quando minha mãe me contou que estava frequentando um grupo de ajuda. Quando ela finalmente me entendeu, me senti filho dela de novo. Não estava mais desamparado. Hoje somos confidentes! Até meu pai, que não tocava no assunto comigo, acabou me surpreendendo. Em maio, ele veio me visitar na Escócia, onde estou fazendo intercâmbio e conheci meu atual namorado. Papai fez questão de conhecê-lo. Almoçamos os três juntos e ele nos tratou superbem. Fiquei tão feliz… No fim das contas, me assumir gay acabou me aproximando ainda mais dos meus pais!”. – GABRIEL FALCINI, 21 anos, estudante, o filho da Mércia

Meu filho é gay. E agora?

Os pais esperam que seus filhos sejam heterossexuais porque é um padrão imposto pela sociedade e pela religião. Por isso, a maioria sofre ao descobrir que um deles é gay. A psicanalista do GPH (Grupo para Pais de Homossexuais), Edith Modesto, ensina como agir nessa situação:

• Não parta para a violência: isso não vai mudar a criança e os pais que têm essa atitude se arrependem depois.

• Não tente mudar seu filho: a orientação sexual não é uma escolha, a pessoa já nasce com ela.

• Dê um tempo: para evitar discussões, converse com seu filho só quando a raiva passar.

• Procure ajuda: recorra a psicólogos e grupos de apoio e converse com quem já passou por essa situação. A aceitação é um processo longo e requer apoio.

• Seja franca: depois que a poeira baixar, chame seu filho e, com jeitinho, diga a verdade, mesmo que você não o aceite. Diga que está se esforçando para entender.

Fonte: http://soumaiseu.uol.com.br/noticias/acredito-no-amor/perdi-cabelo-orelhas-e-sobrancelhas-mas-lutei-e-renasci-como-mulher.phtml#.VbFrDvlViqY

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