Existe um ditado que diz que Deus nos deu duas orelhas e uma boca para nos advertir que devemos ouvir mais do que falar; mas não é o que a maioria das pessoas pratica.

Infelizmente, essa habilidade tão valiosa não é levada a sério.

Rubem Alves brinca que existe tanto curso de falatória e nenhum de “escutatória”. Realmente poderíamos aprender a escutar melhor.

Na psicologia nós distinguimos o ouvir do escutar. O primeiro é mais superficial, diz respeito aos sentidos da audição e o segundo quer dizer que você, necessariamente, precisa prestar atenção, sentir, perceber e entender, ou seja, fazer uma interpretação do que ouviu.

Dois exemplos podem nos ajudar a entender essa diferença: imagina que você esteja passando em frente a uma oficia mecânica e ouve um barulho de motor de carro. Você simplesmente ouviu o ruído e seguiu sua caminhada. Já o mecânico escutou o barulho. Por estar empenhado em consertar o carro, por entender os diferentes tipos de ruídos no motor e por estar focado nesta escuta, ele conseguirá interpretar o que ouviu.

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Outro exemplo, quando estamos numa palestra ou ouvindo um rádio ou televisão e não estamos concentrados, conseguimos ouvir o palestrante ou a música ou o noticiário na TV, mas não temos a mínima ideia do que se trata.

O problema maior é quando isto acontece nas conversas. Às vezes nos preocupamos tanto com o que vamos falar, que desconsideramos o que a outra pessoa disse.

Para escutar precisamos treinar nossos ouvidos e nossa mente. Acredite, é mais difícil do que parece.

Exige observação, paciência, persistência, foco, interesse pela pessoa que fala, pelo assunto, disponibilidade emocional, tempo, empatia. Exige escutar as pausas e os silêncios. Interpretar o tom, as brincadeiras, as analogias, as expressões faciais e os movimentos corporais. Exige pensar sobre a intenção da conversa. Entender que cada palavra dita é uma escolha. Exige ter uma postura de receptividade. Requer mais sensibilidade do que imaginamos.

Exige ter abertura para absorver ideias novas sem julgamentos e críticas morais. Nestes tempos em que todos têm opiniões rígidas para tudo, somado à crença de que se fulano pensa diferente de mim é um idiota / ignorante / analfabeto político/ ingênuo / maluco ou seja lá o adjetivo que for, é cada vez mas difícil encontrar alguém disposto a escutar, sobretudo se o conteúdo da fala vai contra suas ideias.

Daí é que existem pais e mães que nunca escutaram seus filhos e vice versa. Casais que não fazem a mínima ideia do que cada um pensa sobre a vida ou sobre a própria relação. Amizades que só funcionam na base da utilidade, do pertencimento a um grupo X. E por aí vai…

Este contexto em que cada um fala o que quer e o interlocutor também ouve o que quer, é perfeito para as conversas de áudio do WhatsApp, por exemplo. Você pode estar ouvindo seu amigo falar de uma coisa horrível sem envolvimento afetivo. Você pode estar cozinhando um jantar maravilhoso enquanto ele está se abrindo pelo aplicativo com você, sem ao menos ter uma garantia de quando você poderá responder para ele.

É triste, mas as pessoas estão se acostumando a não serem escutadas. Como defesa, querem falar mais, falar em excesso. Nem que seja nas redes sociais para desconhecidos, nem que seja para brigar com amigos, nem que seja para fazer inimigos.

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A frase mais linda que já li sobre a escuta é de Rubem Alves: “O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: ‘Se eu fosse você’. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina.”

Escutar é mesmo uma arte, a arte do amor. Portanto, se na sua vida você tem uma pessoa que realmente te escuta, seja imensamente grato(a)! Sinta-se especial! Não é todo mundo que tem esse privilégio.

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Rosa Abaliac
Psicóloga e mestre em Psicologia Social. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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