Atendendo às demandas da qualidade de vida somos submetidos a um plano de organização cujos agenciamentos com o poder produzem enunciados que capturam nossos modos de se vestir, de se alimentar, de se comportar, em suma, de viver. De maneira muito sutil vamos sendo organizados por enunciados de poder externos à vida, e tal como as incessantes ondas que vão modelando as rochas da praia, vamos sendo também, por assim dizer, modelados; nosso rosto, nosso corpo, nosso pensamento – há uma incessante produção social de subjetividade que vai nos organizando de fora.  Os critérios que giram em torno da qualidade de vida são postos através de relações de poderes e saberes, legitimados com o aval dos especialistas e da própria sociedade. Apelam para parâmetros muito subjetivos como satisfação e realização pessoal, bem-estar físico e psicológico, segurança, felicidade, inserção social e familiar, etc. Nunca a carência afetiva foi tão bem explorada como nas sociedades de controle, consequentemente o comércio de kits existenciais é um mercado cada vez mais em alta. Por ser extremamente amplo e subjetivo, o conceito serve para legitimar muitos interesses. Mas não nos enganemos, é uma armadilha. Buscar pela qualidade de vida é também desqualificar a nossa própria vida diante de critérios vindos de fora com o aval da sociedade e dos especialistas.

Podes voltar
contra tuas próprias miragens?
todo mundo louva a identidade
todo mundo busca a origem.
e eu, eu ensino o saber órfão
Abdelkebir Khatib

Qualidade de vida é muito requisitada em organizações que são meios onde geralmente um novo vocábulo surge como tentativa de dar uma nova aparência a práticas de exploração já consagradas. Uma organização que se preze investe muito em áreas de relações humanas e relações públicas, pois são áreas fundamentais para maquiar uma imagem positiva perante a sociedade. Nesse sentido, há um investimento em discursos estratégicos que visam legitimar certas práticas exploratórias enquanto práticas saudáveis de competitividade em um mercado global. Muitas dessas práticas passam despercebidas pelo trabalhador, pois são estrategicamente pensadas. Uma empresa pode mudar o seu organograma tentando dispô-lo o mais próximo possível de um formato horizontal ou passar a chamar os funcionários de colaboradores em detrimento deempregados sem com isso modificar de fato as relações de poder já estabelecidas. Gurus, especialistas ou profissionais com oratória motivacional de todos os tipos são chamados para palestrar sobre diversos temas que desembocam na qualidade de vida como argumento central. Esse é só um dos lugares em que o conceito é religiosamente invocada. Mas a questão vai muito mais além.

Come-se determinados alimentos, elege-se determinados comportamentos e até mesmo tipos de pensamento (pense positivo!), frequenta-se determinados lugares,assume-se determinadas posturas e práticas. No trânsito, no trabalho, no lar e nos diversos espaços públicos, com ou sem acompanhamento, tudo é possível de ser justificado em nome da qualidade de vida. E claro, até o sexo passou a ser questão de qualidade de vida – dizem!

Nesse momento há em minha mesa um folder de um curso de capacitação na área de psicologia que foi um dos estímulos que me levou a escrever esse texto, o local oferece também serviços de psicoterapia, e entre os vários benefícios que esta oferece inclui-se uma chamada bem destacada para a “melhora da qualidade de vida”, e a imagem que acompanha o texto é bem fácil de adivinhar: uma família de um jovem casal de feições eurocêntricas, o pai segura o filho no pescoço e a mãe segura a mão da filha, de mãos dadas ambos caminham sobre um campo florido assistidos por um pôr do sol . Pode-se argumentar que são só algumas palavras de fácil circulação e digestão social visando uma divulgação para um público leigo, no entanto, percebe-se, também, a divulgação de uma prática psicológica muito mais de alinhamento e adaptação do que de resistência e criação.

Toda vez que se invoca o termo qualidade de vida há uma cumplicidade muito grande com o poder.

Em outras palavras, toda vez que se invoca o termo qualidade de vida há uma cumplicidade muito grande com o poder, o poder de gerir e administrar a vida, poder sobre a vida, ou se preferir um termo foucaultiano, com algumas ressalvas (estamos muito mais no plano de uma sociedade de controle do que uma sociedade disciplinar), biopoder. O que está em jogo é o alinhamento do sujeito a determinadas práticas e gostos considerados saudáveis e/ou corretos diante de um ponto de vista social que vai além do senso comum, isso porque as motivações são postas através de discursos de saberes legitimados. No contexto brasileiro atual não irão nos recomendar fumar maconha para ter qualidade de vida, mas quando esta deixar de ser proibida é bem certo que teremos não só lugares como práticas onde o uso da maconha estará associado à qualidade de vida, daí que os discursos de saber também precisam ser legitimados através dos poderes para funcionar.

Dito de outra maneira, o que vincula um gosto, uma prática, um modo de viver à qualidade de vida não é um saber puramente inocente que se descobre, pelo contrário, é preciso congregar relações de saber, poder e consumo às relações subjetivas, esses elementos são fundamentais para legitimar o “selo” da qualidade de vida. A apelação à qualidade de vida como justificativa de consumo – e estilos de vida – que vai do biscoito à prática de yoga atravessa nossas vidas com a maior naturalidade, contudo, sua face mais perversa é ocultada à maioria dos indivíduos.

O psicólogo, o médico, o nutricionista, o educador físico, um guia espiritual, o advogado etc., todos podem agir como porta-vozes de saberes utilizados como critérios para definições de qualidade de vida, seja diretamente ou indiretamente, como, por exemplo, a celebridade falando sobre o suco de couve com beterraba que toma todos os dias pela manhã como condição para estar com o corpo atualizado aos ideais de beleza (ver A panicat é gostosa, ser bela é outra coisa)

Atendendo às demandas da qualidade de vida somos submetidos a um plano de organização cujos agenciamentos com o poder produzem enunciados que capturam nossos modos de se vestir, de se alimentar, de se comportar, em suma, de viver. De maneira muito sutil vamos sendo organizados por enunciados de poder externos à vida, e tal como as incessantes ondas que vão modelando as rochas da praia, vamos sendo também, por assim dizer, modelados; nosso rosto, nosso corpo, nosso pensamento – há uma incessante produção social de subjetividade que vai nos organizando de fora.

Em síntese, a qualidade de vida está associada a critérios que definem modos ou estilos de vida e de consumo. Esses critérios são postos através de relações de poderes e saberes, são critérios de comportamentos e pensamentos dominantes legitimados como corretos através dos especialistas e da própria sociedade. Os critérios usados apelam para parâmetros muito subjetivos como satisfação e realização pessoal, bem-estar físico e psicológico, segurança, felicidade, praticidade, positividade, inserção social e familiar, etc. Da arquitetura das cidades aos hábitos mais superficiais da vida cotidiana, a qualidade de vida, de imediato, já serve como um poderoso discurso para mudar o foco do dispêndio econômico para um foco mais afetivo e individual. Além dos efeitos imediatos da mudança de foco, o critério, por ser extremamente amplo e subjetivo, serve para legitimar muitos interesses.

Não há ninguém entre nós em vias de definir o que é uma vida considerada boa senão para si mesmo.

MAS NÃO NOS ENGANEMOS. É uma armadilha. Buscar pela qualidade de vida é também desqualificar a nossa própria vida diante de critérios vindos de fora com o aval da sociedade e dos especialistas. É submeter-se a critérios dominantes de valoração da vida, consequentemente, uma desvalorização da nossa própria vida, pois não há ninguém entre nós em vias de definir o que é uma vida considerada boa senão para si mesmo. São modos e estilos de vida considerados bons que vão sendo impregnados no campo social, amarrando as pessoas a relações já consagradas e legitimadas, consequentemente constrangendo-as a assumirem esses modos como condições para serem reconhecidas e valorizadas. Qualidade de vida é um desses termos tacanhos e astutos amplamente utilizados no contexto de um capitalismo contemporâneo que nos devora através de mecanismos muito sofisticados de exploração da falta.

Aquilo que compõe com o nosso corpo e aumenta ou diminui a nossa potência de agir, aquilo que nos alegra ou nos entristece é sempre singular. Não se pode definir uma vida a partir de critérios externos senão apelando para ideais transcendentes.

O professor Clóvis de Barros Filho, em uma de suas diversas aulas disponíveis na internet, chama atenção para uma relação que se opera na própria linguagem, trata-se da inversão do substantivo pelo adjetivo. A qualidade passa a ser o substantivo e a vida passa a ser um adjetivo, inversão catastrófica! Isso por si só já demonstra a captura da vida em um critério externo, no caso, a qualidade. Sutilezas, sutilezas com que o poder vai nos constrangendo diariamente, ditando as qualidades que uma vida deveria adotar, e ao mesmo tempo, desqualificando outras vidas possíveis. Manufatura diária da falta!

É fácil dizer que a busca por um corpo perfeito é uma necessidade para ter qualidade de vida. Com apenas duas palavrinhas formando um termo muito bem cotado no mercado da comunicação já se evita os desvios de olhares para as relações de dominação que estão pedindo passagem.

A “higienização social” nunca deixou de existir, ela se transformou, dissolveu-se em outras maneiras mais legítimas e sutis. Apesar de já ser evidente, violentar de maneira explícita para servir de exemplo não é uma tática no mundo contemporâneo,  há outros meios de violentar e ao mesmo tempo dizer que tudo vai bem, é como comprar carne no supermercado, só se vê a suculência, mas o fundo é de horror. Qualidade de vida é também uma dessas inúmeras maneiras de se legitimar práticas de exclusão e hierarquização, não é por acaso que gurus e empresários investem tanto nesses discursos.

Com a autonomia de viver tão em baixa, ninguém sabe muito bem qual entre os inúmeros caminhos oferecidos seguir, quanto mais cavar um próprio caminho no vazio criador da incerteza, e não adianta escolher entre os quais possuem o selo da qualidade de vida, todos terão. Essa busca desenfreada por alguma tribo, por algum sentido em meio a grande falta de sentido, esse consumo delirante de novelas edipianas envoltas em idealizações de vingança e ressentimento, onde a vida é posta enquanto um jogo dos quais há regras e as dissimulações são habilidades de grande potencial, essa grande impaciência com a paciência, a tagarelice com que se espanta as delícias do silêncio criador… A falta foi preponderante na subjetivação ocidental, em tempos onde nunca houve tanta oferta de produtos e itens para se compor um estilo de vida, nunca a carência afetiva foi tão bem explorada – e ao mesmo tempo negada nas vias dos clichês e estereótipos do individualismo – e o comércio de kits existenciais que prometem qualidade de vida esteve tão em alta.

Talvez, alguma coisa podemos roubar dos discursos de qualidade de vida e fazer bom uso em nossas vidas, desde que saibamos como pegar aquilo que nos interessa sem se deixar ser capturado. Mas não nos enganemos, mais do que dinheiro quer se a fidelidade, o desejo, o afeto, o corpo, o pensamento, enfim, quando nos submetemos aos critérios da qualidade de vida nós estamos submetendo a nossa própria capacidade de gerir e criar a vida a critérios externos, estamos abrindo mão da potência criadora em nós.

(Autor: Adriel Dutra, psicólogo)

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Adriel Dutra
Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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