Atypical

“Atypical” é uma daquelas séries de televisão que fazem você pensar sobre como o cérebro humano funciona e como isso influencia tão diretamente em nossas vidas. A série narra a vida de um menino de 18 anos diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) com altas funcionalidades e o que isso significa para sua família e meio ambiente. Suas altas habilidades o levam a querer realizar um sonho que, ao mesmo tempo, se torna um desafio importante e até obsessivo para uma pessoa com seu transtorno: obter uma namorada.

A série descreve o transtorno de maneira bastante confiável, mas devemos lembrar que as pessoas com TEA estão situadas em uma certa dimensão do espectro e suas funcionalidades podem variar consideravelmente de uma extremidade para outra.

O Transtorno do Espectro Autista, TEA, é uma alteração do desenvolvimento de um caráter neuroevolutivo, isto é, que modifica os processos de neuroconstrução de conhecimento e competências. Especialmente afeta as capacidades para se comunicar socialmente e os modos de comportamento da pessoa consigo mesmo e com os outros. Afeta de forma dimensional, no espectro, de acordo com o grau de penetração que apresenta, portanto, diferentes graus de gravidade.

Aviso: O artigo pode conter possíveis spoilers

O protagonista da série é Sam (interpretado pelo ator Keir Gilchrist), um menino de 18 anos diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) com altas funcionalidades. De acordo com os critérios do DSM-5, existem três níveis de gravidade e, portanto, podemos observar na série que Sam está no nível 1, o mais baixo, que afeta principalmente sua comunicação social e seus interesses, restrito e repetitivo.

No entanto, com a ajuda da sua psicoterapeuta, ele iniciará uma aventura de grande carga emocional que o levará a tentar superar diferentes barreiras sociais e pessoais: ter uma namorada. Por que não? Pessoas com TEA podem ter relações, na verdade, 9% deles são casados, de acordo com os dados mostrados na série. Não é que eles não querem se comunicar, é que eles são incapazes de fazê-lo.

Alguns exemplos de comportamentos típicos do TEA vividos por Sam em Atypical.

Ele apresenta respostas atípicas às aberturas sociais com outras pessoas. Dificuldade em ter conversas triviais e meramente objetivas, pois são incapazes de entender o sentido figurado porque sua forma de entender o mundo é literal, ou seja, não conseguem compreender uso de sarcasmo nem duplo sentido. Além disso uma pergunta simples pode ser transformada por ele em um monólogo longo sobre o assunto de forma estritamente objetiva e fora de contexto.

Incapacidade de entender e expressar emoções corretamente. Na série, você vê sua psicoterapeuta ensinando Sam a rir em diferentes situações e contextos. No início da série também mostra como Sam estava aprendendo as emoções com a ajuda de sua família através de cartões de emoções.

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Comportamentos repetitivos. Como uma técnica para aliviar a ansiedade que gera a frustração de não poder entender e, portanto, enfrentar situações inesperadas, pessoas com TEA realizam comportamentos repetitivos. No caso de Sam, você pode ver como ele recita de memória os tipos de pinguins e anda ao redor da cama.

Grande interesse em um tópico específico. Uma das características das pessoas com TEA é que eles se concentram em um tópico muito específico e mantem um interesse nele de forma obsessiva. No caso de Sam, sua obsessão é pinguins e tudo o que tem a ver com a Antártica. Ele é um especialista em pinguins, ele sabe de tudo. Quando digo tudo, é tudo.

Comportamentos estereotipados. É outra constante na série. Faz tudo de forma milimétrica e qualquer variação do ambiente pode afetá-lo. Por exemplo, colocar os talheres na mesa de forma alinhada.

Dificuldade em realizar situações cotidianas, como comprar roupas.

Precisa de evidências empíricas e objetivas. Tanto é assim, que tenta se conectar com outras garotas simplesmente como um experimento, se encontra com colegas de escola e meninas apenas para aprender decifrar os gostos deles. Anota tudo para depois estudar. Ele é um pesquisador nato.

Isolamento. A incapacidade de entender o que está acontecendo em torno dele o levam a usar fones de ouvido para se isolar do som e do exterior, além de ficar nervoso com certos ruídos que parecem insignificantes, como o ruído dos botões em uma jaqueta.

Outro aspecto da série é a reflexão que mostra sobre o alto nível de bullying que este tipo de pessoa sofre. A enorme dificuldade em simpatizar com essas pessoas e perceber sua desordem junto com o período adolescente pode levar a situações estressantes e agressões verbais ou mesmo mais violentas.

A melhor parte da série é como você vê a evolução desse adolescente que simplesmente quer ser como os outros. Ficar perto das meninas e melhorar suas relações pessoais, mesmo que seja forçado e acima de tudo, descobrir o significado do amor mesmo que seja errado. Como ele se apaixona pela pessoa errada e não entende a situação, o que o leva a executar ações erradas. Descobrir o significado do ciúme.

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A família de Sam.

Sam vive com sua mãe, pai e irmã que estão envolvidos em várias parcelas, mas na maioria dos casos são influenciados pela desordem de Sam que indiretamente afetou toda a família.

A família é um grande apoio para pessoas com TEA. É essencial que você conheça o significado da desordem e suas repercussões, uma vez que não é fácil viver com uma pessoa que raramente, ou nunca, mostrará carinho por você. Lembre-se de que a série conta a vida de uma pessoa com TEA de altas funcionalidades, em situações de maior gravidade a situação familiar é ainda mais complicada.

Elsa, a mãe.

A mãe de Sam dedicou toda sua vida a cuidar de seu filho, participando de todos os tipos de sessões familiares e protegendo Sam de qualquer tipo de evento que possa afetá-lo por causa de sua desordem. Ela vive com um medo permanente de que algo esteja acontecendo com seu filho. Uma vez que Sam cresce e começa a ser mais independente, ela sofre o que podemos chamar síndrome do cuidador e começa a se sentir mais dispensável, o que a leva a tentar refazer parte de sua vida.

Por enquanto, poderíamos pensar que ela é a verdadeira protagonista da série, uma vez que uma das ideias que tenta refletir a série é o grande impacto na família que supõe ter um filho com TEA. A mãe de Sam deixou de lado sua vida para se dedicar a seu filho.

Doug, o pai.

Neste caso, podemos ver, por um lado, a realidade de um pai incapaz de suportar e encarar a realidade de seu filho, que não compreende os laços emocionais fazendo com que o mesmo se distancie da sua família por um tempo. Anos depois, consegue estreitar os laços com Sam, uma vez que suas preocupações de adolescente começam gerar perguntas que Sam compartilha com seu pai. Doug sente-se amado pela primeira vez. A partir daí, seu relacionamento muda para se tornar seu principal suporte, ainda mais do que a mãe. A série também reflete os problemas de casamento que surgem da desordem de Sam.

Casey, a irmã.

A irmã mais nova de Sam lhe fornece proteção sendo uma parte importante da vida do jovem. Ela é seu escudeiro, que sente que precisa protegê-lo, por isso até repensou seu futuro longe da cidade, longe de seu irmão por medo de não poder cuidar dele. A vida dessa adolescente também é marcada por seu irmão afetando suas próprias relações interpessoais.

Outros personagens.

Durante a série aparecem outros personagens de grande importância, como sua psicóloga, seu melhor amigo e sua amiga especial. Todos eles desempenham um papel de primordial importância para o desenvolvimento das habilidades comunicativas de Sam.

Em resumo, Atypical é uma série que todos os amantes do comportamento humano vão gostar de assistir.

(Autor: Leandro Zanon)

(Fonte: pensamentoliquido)

*Texto publicado com a autorização da administração do site.

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