Os principais autores que se ocuparam deste conceito de Autonomia foram: Immanuel Kant (1724 – 1804) e Jean Piaget (1896-1980).

Em ambos, aparece uma sintonia de pensamentos. Para Kant, o ser autônomo obedece à regra pela compreensão e concordância da mesma com sua validade universal e não pelo receio a punição. Este filósofo ressalta que ao obedecemos às prescrições ou regras ditas morais apenas por conformidade, interesse ou prudência, os imperativos que nos orientam são  hipotéticos e a moral é heterônoma. Heteronomia é a submissão a valores e tradições, dentro de uma obediência passiva aos costumes por conformismo.

Jean Piaget, fundador da epistemologia genética, teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano, observa minuciosamente seus filhos e pauta sua teoria em estágios e etapas de desenvolvimento. Relacionado à compreensão das leis, esse autor estabelece quatro etapas:
1ª ETAPA – ANOMIA (do grego a, “negação, ausência”, + nomos, “lei” = sem lei) É a etapa do comportamento puramente instintivo.
2ª ETAPA – HETERONOMIA (do grego héteros = “outros”, + nomos = “lei”. Lei estabelecida ou imposta por outro).
3ª ETAPA – SOCIONOMIA (do latim socius = “companheiro, colega”, e do grego nomos = “lei”. Lei interiorizada do convívio).
4ª ETAPA – AUTONOMIA (do grego, autos = “próprio”, nomos =  “lei”. Lei própria).

A parceria da família-escola é de suma importância para o desenvolvimento da criança, bem como a relação da criança com a lei. Na escola, são os professores que possuem o conhecimento acadêmico para a estimulação das estruturas mentais que subsidiam o aprendizado, assim cabe ao professor a reflexão sobre importância de seu trabalho no desenvolvimento da autonomia das crianças.

Ao compreender que o desenvolvimento humano ocorre de forma contínua e progressiva, o professor necessita estimular seus alunos a passar da anomia, para heteronomia, socionomia até a autonomia.

Como fazer? Percebo que em todas as atividades, o professor progressivamente instiga essa passagem, mesmo que esse conceito não esteja evidenciado em seu planejamento de maneira explícita, ou em seu pensamento cotidiano.

No berçário, ao permitir que o bebê esforce-se para alcançar um objeto um pouco mais distante, o professor auxilia o bebê a sair da posição de conforto, de prazer, para a busca, saída da anomia.

Nos maternais, quando a professora afasta o aluno do grupo por ele se negar a fazer a atividade, ressaltando que se ele cumprisse o momento da atividade, está propiciando que a criança sai da heteronomia.

Nas séries seguintes, antigamente chamadas de pré alfabetizatoria, ao instigar o respeito ao tempo do colega fazer a atividade, ao questionar como resolver uma situação conflituosa com o amigo, o professor instiga a saída da socionomia.

Ao elogiar os alunos por cumprirem os combinados, às regras e não serem coniventes com a estimulante arte que o colega instigou a fazer, o trabalho exercido é em direção a autonomia.

Esse trabalho, tão importante na formação do sujeito, precisa ser pensado e valorizado para que ocorra de forma progressiva, constante e harmoniosa para que não ocorram as fixações também relatadas no texto já citado.

Mas para esse trabalho tão importante na formação do sujeito ocorra de forma efetiva, mais que as palavras, professores precisam de atitudes. Não basta solicitar aos alunos que no horário de lanche não é para ficar conversando e sim para os alunos se alimentarem e, neste momento, os professores ficarem conversando entre si, deixando os alunos cumprirem a regra a se aprendida, sozinhos. Neste momento, é preciso o silencio do professor e também é um precioso momento de observação dos professores. O mesmo se da no ensino fundamental durante a apresentação de trabalhos de vários grupos ou palestra, se os professores conversam, estando ensinando os alunos a ouvirem? O modelo é tão importante quanto as palavras, pois é através deste modelo que a criança, identificada ao seu professor como autoridade que cumpre a regra ou lei por entender o beneficio da mesma, caminha para a autonomia.

Essa reflexão é de suma importância na pratica profissional com as crianças e também em uma auto avaliação para que o professor que não chegou a autonomia, também trabalhe consigo próprio.

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Rachel Cantelli
Psicóloga. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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