Há vida após a morte?

O que você acha que Carl Jung responderia? Será que Jung, que foi um dos pioneiros no estudo psicológico e das profundidades do inconsciente no Ocidente, um pesquisador ímpar dos estados psicológicos desconhecidos, tem uma visão conclusiva a respeito? Ou tem informações que podem mudar a maneira como vemos a morte (e a vida)?

Ao contrário de muitos autores recentes que tratam desse tema, alguns usando apenas retórica ou jargões da nova era, o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) respondeu essa pergunta de maneira bem analítica e frontal numa entrevista que concedeu em 1958, no Basel Psychology Club, na Suíça.

Uma das coisas interessantes da entrevista, e da própria trajetória do Jung, é que ele adotou termos orientais, como “karma“, para falar da consciência, e também cita Buda e suas histórias, mostrando conhecimento, curiosidade e respeito pelo cânone budista e oriental de maneira geral.

A resposta está registrada no livro “C.G. Jung Speaking: Interviews and Encounters” (1977, Princeton University Press), transcrito de um registro em fita cassete. Eis o trecho:

PERGUNTA: Uma vez que nossa consciência é um dos conteúdos do self, podemos assumir que a consciência individual continua depois da morte? Você conhece algum material moderno de sonhos que corroboraria tal suposição?

O conceito de vida eterna significa a preservação da consciência individual, ou a alma humana entra em outras formas e configurações, assim perdendo sua individualidade?

CARL JUNG: Você percebe que isso é muito difícil de responder. Para colocar brevemente, é uma questão de imortalidade consciente. Essa é uma pergunta que nosso Senhor Buda foi questionado duas vezes.

Para seus discípulos era naturalmente um assunto de grande preocupação se o karma que passa de uma geração para outra por metempsicose é pessoal, e representa uma continuidade pessoa, ou se é impessoal.

Nesse último caso é como se houvesse um karma inconsciente suspenso em algum lugar, que é dimensionado no ato do nascimento e é reencarnado com nenhuma consciência de qualquer continuidade pessoal.

Esse é um aspecto.

O outro aspecto é que esse karma é, por natureza, consciente, tendo uma consciência subjetiva, e quando isso é reencarnado se torna potencialmente possível se lembrar dos nascimentos prévios, porque da auto-consciência transcendente desse karma.

Em ambas as vezes Buda se evadiu da questão, ele não entrou, embora ele mesmo tenha dito que era consciente de seus nascimentos anteriores, cerca de 560 encarnação em todas as formas concebíveis, vegetal, animal e humana.

Então você vê que naquele tempo, quando as pessoas não estavam exatamente poupando questões metafísicas, ainda não havendo nenhuma teoria de conhecimento, o Buda rejeitou essa questão como inútil.

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Ele achou que era bem mais útil meditar na Cadeia de Causação, a cadeia de causa e efeito, que consiste na velhice, doença e morte, do que especular sobre a imortalidade.

E em um sentido tal especulação é estéril, porque nunca estamos na posição de apresentar nenhuma prova válida a esse respeito.

Se pudéssemos eventualmente apresentar tal prova, seria de um homem, digamos, aparecendo como um fantasma por um ou dois ou dez anos ou talvez até vinte anos depois de sua morte.

Mas ainda não podemos provar que esse fantasma é idêntico ao do homem morte.

Não há assim possibilidade de criar provas, porque mesmo se o fantasma do homem morte fosse revelar algo que só aquele homem e ninguém soubesse nessa vida – e há esses casos, casos bem autenticados – a questão ainda permaneceria de como aquilo se relaciona com o conhecimento absoluto do inconsciente.

O inconsciente tem um tipo de conhecimento absoluto, mas não podemos provar que é um conhecimento absoluto, porque o Absoluto, o Eterno, é transcendental.

É algo que não podemos segurar de nenhuma maneira, pois ainda não somos eternos e consequentemente não podemos dizer nada sobre a eternidade, nossa consciência sendo o que é.

Essas são especulações transcendentais, que pode ser e podem não ser.

Por isso, por razões epistemológicas, é absolutamente impossível dizer qualquer coisa com certeza a esse respeito.

Por outro lado, a questão da imortalidade é tão urgente, e de tal imediatismo, que temos que dar algum tipo de resposta.

Por isso eu digo a mim mesmo, Bem, se eu me deparo com uma pergunta que não posso responder e ainda assim devo responder para a paz da minha alma, para meu próprio bem-estar, posso ser tão perturbado por essa questão que uma resposta é absolutamente imperativa.

A qualquer custo devo tentar formar uma opinião sobre isso com a ajuda do inconsciente, e o inconsciente então obrigado, produz sonhos que apontam para a continuidade da vida após a morte.

Não há dúvida disso, tenho visto muitos exemplos desse tipo.

Agora, claro, você pode dizer que são apenas fantasias, fantasias compensatórias que não podemos impedir, que estão enraizadas em nossa natureza — toda vida deseja eternidade — mas estão longe de serem uma prova.

Por outro lado, devemos dizer a nós mesmos que embora esteja tudo certo sobre esse argumento como ele é, temos evidências irrefutáveis que indicam que ao menos partes da nossa psique não estão sujeitas às leis do tempo e espaço, senão percepções fora do tempo e espaço seriam completamente impossíveis – ainda assim elas existem, elas acontecem.

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Todos os casos de clarividência telepática, previsões do futuro — eles existem.

Fui capaz de verificar isso a partir de inúmeras experiências, para não mencionar os experimentos de Rhine, que não podem ser refutados a não ser que você vire toda a teoria da probabilidade de cabeça pra baixo.

Isso de fato foi proposta, uma teoria de probabilidade totalmente nova deveria ser inventada, apesar de como isso seria feito sem violar a lógica escapa completamente à minha compreensão.

De qualquer forma, não temos nesse momento nenhum meio de contestar os resultados de Rhine, à parte das numerosas instâncias de previsão, percepção não-espacial e coisas parecidas.

Isso nos dá a prova mais clara e mais incontroversa de que nossas concepções de tempo e espaço, vistas do ponto-de-vista causal e racionalista, são incompletas.

Para ter uma ideia completa do mundo temos que adicionar uma outra dimensão, ou jamais poderemos explicar a totalidade dos fenômenos de uma forma unificada.

É por isso que os racionalistas mantém, enfrentando muitos obstáculos, que tais experiências como clarividência e coisas do tipo não existem, porque a visão racionalista do mundo se mantém ou se destrói com a realidade desses fenômenos.

Mas se eles existem, nossas visão racionalista do mundo é insustentável.

Você sabe que na física moderna a possibilidade do universo ter diversas dimensões não é mais negada.

Devemos considerar o fato de que este mundo empírico é, em certo sentido, aparência, ou seja, está relacionado a uma outra ordem de coisas abaixo de si ou além de si mesmo, onde “aqui” e “lá” não existem; onde não há extensão em espaço, o que significa que o espaço não existe, e nenhuma extensão no tempo, o que significa que o tempo não existe.

Há experiências em que o espaço é reduzido em 20 por cento, ou o tempo em 90 por cento, de modo que o conceito de tempo é apenas 10 por cento válido.

Se é assim — e não vejo maneira de discordar — devemos encarar o fato de que algo em nossa existência psíquica está fora do tempo e espaço, isso é, além da mudança, ou poderíamos também dizer, que é mutável apenas dentro dos espaços infinitos de tempo.

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Essas são idéias que para nós são deduções lógicas, mas são visões comuns na Índia. Por exemplo, se você ler as histórias do Buda no cânon em Pali (original), você verá muitos exemplos.

Aqui está um: quando o Buda estava morando no bosque, ele ouviu de repente que um dos mais altos deuses, Brahma, tinha tido um pensamento errado.

Ele se elevou ao mais alto mundo de Brahma e encontrou o deus Brahma em um forte – na verdade o palácio do Rajah ou do Maharajah – e nos espaçosos jardins paradisíacos deste forte, situado em um alto pico do Himalaia, o Deus Brahma estava se divertindo com as senhoritas da corte.

Eles escalaram uma árvore e começaram a jogar flores e frutos para baixo, e ele achou isso maravilhoso e disse ao Buda: Este espetáculo que você vê, essa alegria e este prazer, durará para sempre porque eu sou imortal.

Então disse o Buda, “é aí que você comete o seu erro”.

Sua vida vai durar por kalpas, por eras cósmicas, mas em algum momento irá terminar. O Deus Brahma não acreditou.

Nesse momento houve um absoluto e repentino silêncio.

Nenhuma flor nem fruta caiu, o riso das senhoritas de corte congelou, e o Deus Brahma estava muito atônito, e disse, “o que aconteceu?”.

Então o Buda disse, “nesse exato momento o karma das suas senhoritas da corte foi extinto e elas não existem mais — e por isso vai ficar com você.

Então o deus Brahma se converteu ao Buda e prometeu-lhe ser seu genuíno discípulo. Essa é a história. A vida pode durar para uma infinidade de Kalpas mas não é eterna.

Claro que isso não incomoda muito.

Mas mostra que na Índia houve uma percepção da relatividade do tempo.

É uma intuição, evoluiu naturalmente e se tornou uma segunda natureza, do que é provavelmente o estado real de nosso mundo.

Vemos um mundo de consciência do qual não podemos realmente tirar conclusões, mas então sabemos pela experiência que há um conhecimento mais profundo que é absolutamente necessário, senão não podemos explicar os fenômenos deste mundo.

Consequentemente, não podemos explicar uma previsão do futuro ou uma percepção espacial extra-sensorial em termos de aparato especial de radar, porque mesmo o mais preciso radar não pode prever um evento que vai acontecer daqui a quinze dias.

Nós sempre usamos essa comparação de radar para explicar a visão a uma certa distância no espaço, mas não conseguimos chegar a lugar nenhum com ela se quisermos explicar a visão a uma distância no tempo.

— Carl Jung, em “C.G. Jung Speaking: Interviews and Encounters”, pags 375-391.

(Autor: Nando Pereira)

(Fonte: dharmalog)

*Texto publicado com a autorização da administração do site.

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