Mentir. Todos nós, mentirosos. Grandes ou pequenos. Não, leitor, não se trata de nenhum insulto, mas tão-somente de uma constatação. Mentirosos, sim. Quotidianamente. Intencionalmente.

Sem qualquer dúvida, pelo menos uma vez na vida, todos já mentimos. Não diga que não. O mais provável é mesmo mentir-se várias vezes ao dia. Se calhar até muitas vezes.

A mentira, falsidade, distorção da realidade ou, apenas e simplesmente, a versão mais utilizada da mentira, que dá pelo nome de omissão, são atitudes que fazem parte da relação do ser humano com os seus semelhantes.

A partir do momento em que o homem começou a comunicar, a mentira passou a fazer parte do seu discurso. Nem que seja sob a forma discreta do silêncio.

A história está carregada de mentirosos. Desde episódios célebres como o de Orson Welles – que em 1938 recriou na rádio a invasão do mundo por extraterrestres, conforme relatado em “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells – a casos de foro criminal, como os de Mário Conde, em Espanha, Vale e Azevedo, Dona Branca ou Pedro Caldeira, em Portugal.

Todos os cantos do planeta têm o seu mentiroso de estimação. E estes são apenas os falhados. O verdadeiro problema são os mentirosos ainda não identificados.

A sociedade repugna-se perante os mentirosos. Ostraciza-os. É o filho que mente ao pai. O marido que mente à mulher. O ladrão que mente ao polícia. Mas todos nós mentimos.

A pior falsidade talvez seja aquela em que o sujeito mente a si próprio, uma realidade que pode atingir foros patológicos. Contudo, estas são exceções, o normal é irmos mentindo. “A mentira é um processo com uma função social.

Existe, faz parte do nosso comportamento e da nossa relação com os outros”, afirma a psicóloga da Polícia Judiciária Cristina Soeiro. Na política, a mentira compulsiva desacreditou toda uma classe. No jornalismo, é a morte do artista. Na arte, pode fazer parte do negócio e atender pelo nome de ficção.

Literária ou revelada nos ecrãs do cinema ou nos palcos do teatro. Há quem diga que a mentira é piedosa. Quem defenda a mentira branca, dita inofensiva. A sabedoria popular garante que a mentira tem perna curta e que mais fácil se apanha um mentiroso do que um coxo. Mas, se todos mentimos e mentimos tanto, ou andamos distraídos ou preferimos fingir que não vemos o que realmente se passa nas nossas relações interpessoais.

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Nos Estados Unidos, a série televisiva “Lie to Me” tem como personagem principal Dr. Lightman, um estudioso da expressão corporal a serviço do FBI. Ele procura na fisionomia e nos movimentos corporais pistas para identificar os mentirosos.

Mas, para além de ser mais uma série policial, a graça de “Lie to Me” está na partilha com a opinião pública de truques para decifrar situações de fingimento e dissimulação. E os sinais da mentira são mostrados não só através de personagens ficcionadas como também de pessoas reais, como Marilyn Monroe ou George W. Bush.

A perseguição de indícios traídos no gestual do mentiroso é um desafio antigo. Tão antigo quanto a tentativa de encontrar uma forma científica de atestar se alguém está a mentir. Até hoje não foi possível encontrar uma técnica 100% confiável. Os polígrafos sempre causaram grande excitação, mas revelaram-se incapazes de garantir a veracidade dos seus resultados. Tecnicamente, terão uma margem de 80% de acerto.

Os psicopatas, grandes mentirosos por excelência, apresentarão alterações do sistema límbico, que rege as reações emocionais, e para revelarem medo precisam de mais estímulo que as pessoas ditas normais.

Têm ausência de remorsos, usam a mentira de forma sistemática e, sobretudo, apresentam uma imagem deles próprios completamente distorcida. Têm níveis de autoestima muito elevados, explica Cristina Soeiro, psicóloga da Polícia Judiciária, que trabalha num departamento cuja função é justamente estudar os perfis de criminosos.

Apesar de recente, o estudo da área estabeleceu alguns parâmetros incontornáveis. Para ser considerado mentira, o ato tem de ser intencional. A falsificação de uma realidade não pode acontecer por engano, tem de ter um objetivo, mesmo que seja proteger o outro envolvido. Além disso, tem de visar alterar o comportamento do interlocutor. Orientar a sua reação de acordo com a intenção do mentiroso.

Mentiras há muitas, mas… Estão identificados três grandes tipos de mentira. A omissão, considerada a mais simples. A sobrevalorização ou subvalorização de um determinado contexto em que os interlocutores se encontram envolvidos e ainda a falsificação completa de uma situação.

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A mentira visa sempre salvaguardar o mentiroso e fazer com que este alcance determinados ganhos. Não há esse argumento de uma mentirinha inocente. Não há inocentes nesta história. Só talvez os enganados, mas mesmo estes podem ser considerados culpados por permitirem que o mentiroso ganhe espaço.

O jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues parece ter encontrado uma fórmula de resumir os interesses envolvidos numa relação com fugas à realidade. “Perdoa-me por Me Traíres” é o título de uma peça de teatro deste autor, capaz de expressar a forma como o mentiroso se aproveita da licença que lhe é dada para expandir a sua capacidade de falsificação.

Há que sublinhar, no entanto, que mentir nem sempre é crime e mesmo a questão de ser pecado cabe apenas aos crentes discutir. Pode não ser crime nem pecado, mas é sempre socialmente uma atitude condenada. De forma transversal e em praticamente todas as culturas.

Começa cedo. A primeira mentira surge a partir dos quatro anos, explica Cristina Soeiro. Esta idade é considerada a charneira porque representa um patamar do desenvolvimento cognitivo associado à compreensão da intencionalidade.

Até porque este é um comportamento complexo, que exige a ativação das vertentes emocional e comportamental e ainda das capacidades de autocontrole e argumentação rápida. Ou seja, todos mentimos, mas há uns que mentem mais e melhor do que os outros. É por isso que a psicóloga da PJ afirma que “os estudos indicam que o homem é bom a mentir e mau a detetar a mentira”.

Um momento especialmente crítico é a adolescência, sobretudo à volta dos 12 e 13 anos, considerada uma idade de risco para a adoção de comportamentos desviantes. É quando a estrutura da personalidade pode estar mais exposta ao aliciamento de grupos antissociais.

Os melhores mentirosos são aqueles com traços de personalidade mais manipuladores. Em último grau, estes mentirosos são os psicopatas. A psicopatia, explica Cristina Soeiro, “é uma malformação da personalidade, cujas características mais evidentes são a grande capacidade de manipulação”.

Estas pessoas são consideradas, tecnicamente, predadores sociais: usam os outros para atingir os seus objetivos. É possível ainda refinar a análise e identificar diferentes tipos de mentirosos, tendo presentes as suas características individuais. Os introvertidos mexem-se muito enquanto mentem, já os extrovertidos ficam mais à vontade.

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Há ainda os ditos manipulativos. São os mais bem sucedidos, que revelam estratégias intuitivas, sorriem mais, são capazes de olhar o seu interlocutor fixamente nos olhos, deitando por terra o mito de que os mentirosos olham por baixo…

Mas a psicóloga da Polícia Judiciária sublinha um aspecto determinante na investigação do tema: “A dificuldade da deteção da mentira está associada ao facto de não existirem critérios específicos que permitam a sua identificação.”

Além do mais, os traços da linguagem não verbal não são completamente racionais. “Cerca de 60 a 70% da informação enviada ao interlocutor resulta de linguagem não verbal”, afirma Cristina Soeiro. E é justamente este aspeto do comportamento humano que contextualiza o emocional.

Movimentos corporais, utilização da voz, maneira de se sentar são apenas alguns dos aspetos que devem ser analisados por quem tentar encontrar um mentiroso. Há protocolos que associam determinada ação com um potencial significado.

Destes, aquele que é considerado mais fácil de manipular é a movimentação do corpo. O mais difícil de trabalhar é o uso da voz. A gravação, por exemplo, de uma voz emocionada, mesmo que em língua estranha, é capaz de transmitir o essencial dos seus sentimentos.

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Também a utilização dos músculos da parte superior do rosto pode ser reveladora. Os músculos à volta dos olhos, por exemplo, são considerados de movimentação involuntária.

Mas os mentirosos pestanejarão mais do que o habitual. E usam com grande eficácia as pausas no discurso. Ao contrário do que se poderia prever, o mentiroso tende a fazer mais e mais prolongadas interrupções no discurso. Uma estratégia que lhe permite ganhar mais tempo para refletir e reagir de forma a não ser apanhado.

Interessante é pensar que, como explica Cristina Soeiro, “as técnicas de interrogatório procuram mostrar que existe uma vantagem maior em contar a verdade do que em insistir na mentira”. Uma verdadeira arte da negociação, que passa pela compreensão da história de vida, da personalidade do potencial mentiroso e da perceção da possibilidade de este ser um comportamento reincidente.

“A comunicação é uma ferramenta natural que garante a sobrevivência da espécie”, afirma a psicóloga da PJ. É por isso mesmo que a mentira surge: para utilizar a comunicação de forma a gerir situações difíceis.

Fonte: Expresso

Autor: Christiana Martins

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