Ana* sempre foi tímida. Uma criança mais retraída “como o pai”, diziam todos. Aos oito anos de idade a mãe ficou preocupada quando a criança não quis ir ao parque aquático junto com os coleguinhas da escola e resolveu olhar o diário da filha. Lá descobriu que a criança não só estava quieta demais, como estava sofrendo demais. Com excesso de peso ela recebia xingamentos na escola e manifestava do desejo de “sumir”, pois acreditava que além dos pais, ninguém mais gostava dela. Para não contar que tinha visto o diário sem permissão, a mãe agora procura uma maneira de abordar e procurar ajuda e uma bulimia nervosa foi o ponto de partida para um tratamento intenso e doloroso para pais e filha

“Me sentia péssima em ver minha filha daquele jeito e ficava me perguntando onde havia errado. Ela chorava muito, sem motivo e sentia culpa por estar triste”, recorda a mãe Caroline* que prefere proteger a identidade da família. Ela chegou a suspeitar de abuso, mas a pequena que hoje é adolescente, sempre negou. Crianças assim, acima dos oito anos de idade foram alvo de uma grande pesquisa no Reino Unido, divulgada no início do ano. Lá descobriram que a cada onze crianças, entre 8 e 16 anos, uma está infeliz. O levantamento feito pela Children’s Society, organização de proteção à infância não é uma exclusividade britânica.

Embora não haja pesquisas recentes no Brasil, a pediatra Ana Maria Escobar, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo, advoga a tese de que em solo brasileiro a realidade é parecida. Em 2005 ela fez um levantamento sobre o bem-estar dos pequenos que frequentavam o hospital, querendo saber das 959 crianças entrevistadas se elas viviam bem e se havia diferença entre a qualidade de vida dos alunos de escola privada e pública. “Para minha surpresa 22% responderam sofrer de ansiedade e quase 2% manifestaram sinais de depressão e eles tinham entre 5 e 9 anos de idade”, enfatiza a especialista. Para quem esperar saber de asma e outros problemas de saúde mais palpáveis foi uma tremenda surpresa descobrir que o estresse moderno não passa desapercebido pelos pequenos e também não faz distinção entre nível social.

Crianças desconfortáveis na infância

Brincar de bola na rua, andar de carrinho de rolimã ou soltar pipa são atividades ilusórias e almejadas por Ricardo*, de 9 anos. Filho de uma advogada e um empresário o pequeno vê da janela do quarto a vida passar lá embaixo, fora do seu prédio. “Nós nos preocupamos muito com a segurança dele e ele entende que é para o bem. Somos pais e temos que protegê-lo, mas não sabia que proteção poderia atrapalhar”, culpa-se Beatriz*, a mãe que mora em Curitiba e há um ano acompanha o filho na terapia.

A proteção não é exatamente o problema, mas o medo que se transfere para o filho desde que o marido sofreu um sequestro relâmpago, quando o garoto nem sabia falar ainda. O prédio cheio de câmeras de segurança, as portas com proteção, o carro blindado e o alerta constante para prestar atenção. “Minha mãe nunca deixa andar com o carro de janela aberta. Pede para fechar, pois é perigoso”, explica o menino quieto, que segundo o pai, já foi mais falante.

De fato a infância de ontem era mesmo mais leve que a de hoje. Para Ana Escobar o mundo atual é mais estressante e angustiante para as crianças, sobretudo as dos centros urbanos. Já não existe espaço para correr, brincar e descobrir o seu redor. “O espaço para brincar e explorar as possibilidades é muito importante para a formação infantil e como temos vividos em pequenos apartamentos, com pequenos quintais, sem árvores para subir, desenvolveu-se o lazer de inatividade recreacional que é justamente videogames, internet e televisão”. Ela chama a atenção para o nível de competitividade e violência destes recursos utilizados largamente para entreter os pequenos que, além de espaço, também sentem falta dos pais.

Pais que trabalham fora acabam delegando a educação das crianças para outras pessoas, menos comprometidas com o bem-estar e a formação emocional. O resultado disto é menos tempo em família, menos conversa, menos conhecimento e mais sofrimento. No primeiro caso que você leu, a mãe reconhece que descobrir logo o problema foi essencial para um tratamento eficaz, entretanto existia também um grande tabu em levar a criança ao psicólogo, pois junto vinha o estigma de uma família que não sabia lidar com o seu problema.

“Minha filha não queria cantar no coral da escola, não foi à própria formatura e tinha uma autoestima péssima. O tratamento me fez prestar mais atenção à ela e suas necessidades”, lembra. Para a mãe de Ricardo, a culpa ainda é grande, pois foram vários meses de reclusão do garoto até notarem algo de errado. “Achava que era apenas mau comportamento e que ele precisava do espaço dele para ficar sozinho”, desculpa-se.

O garoto que fazia inglês, espanhol, equitação e natação é como muitos que são sobrecarregados de atividades e têm pouco tempo para o descanso. Como miniexecutivos, precisam organizar suas agendas para dar conta de tantos compromissos. Para o Dr. Ricardo Halpern, presidente do Departamento Científico de Pediatria do Comportamento e Desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Pediatria, “as crianças dão sinais físicos de que as coisas não estão bem e podem ir desde mal desempenho na escola até dores repentinas como cefaleia e abdominais”.

Ele também lembra que a configuração moderna de relacionamento, priorizando o virtual ao invés do real, tem lá sua parcela de contribuição para este estado de tristeza e ansiedade. Embora tenham sua importância, as redes sociais geram frustração, pois nelas só se coloca o melhor, a melhor foto, a melhor frase, como se estivessem criando um personagem. Na hora do convívio real pode haver rejeição e frustração pela figura que existe. “Os adolescentes são pautados pelo que se mostra nas redes sociais, principalmente na fase de transição da infância para a vida adulta, por isto os pais devem saber o que acontece lá para orientá-los”, convoca a pediatra.

É bom ressaltar que muitas das atividades às quais os pequenos são submetidos são mesmo para preencher o tempo que os pais estão ausentes e, de certa forma, um mecanismo que os responsáveis encontram para capacitar o filho, tendo em vista seu futuro profissional, porém o tiro pode sair pela culatra.

Em alguns casos, até por causa da convivência, é o professor quem primeiro percebe que algo está errado. Desenhos, falas soltas e omissão em atividades em grupo são sinais e, pelo sim e pelo não, é hora de verificar. Em muitos casos de abuso sexual, por exemplo, que é considerado um estresse tóxico, a demora em descobrir o problema e o medo de tocar num assunto tão delicado podem trazer consequências ainda piores e se arrastarem por toda a vida.

Disciplina

Por culpa ou mesmo preguiça, muitos pais deixam os filhos fazerem todas as próprias vontades, mas os especialistas em educação são unânimes em afirmar que a disciplina, regras claras e um toque de autoridade dão segurança aos pequenos. A melhor precaução para ansiedade e tristeza das crianças ainda é o mais antigo dos métodos: pais presentes. Mãe que conversa, que sabe o que acontece na vida do filho, pai que estabelece limites e os cumpre, passam uma imagem de solidez na família e o menor absorve isto como uma base segura sobre a qual andar e um porto para onde voltar e pedir ajuda.

Muitas vezes é na proibição do pai que ele encontra alívio para romper com a pressão do grupo que demanda algumas atitudes que de fato ele não quer fazer. Até o grupo da criança reconhece quando o “tio” é chato e não deixa passar a madrugada jogando games, por exemplo. Tudo bem que pais ausentes por causa do emprego contribui para a sensação de desamparo dos pequenos, mas não é uma desculpa tão eficaz. Desde a Segunda Guerra a mulher foi para o Mercado de trabalho e nem por isto àquelas são referência de má criação.

O fenômeno de agora é outro e diz respeito à ditadura da juventude que aponta para o consumo exacerbado para frear o tempo – como se isto fosse possível. “Este estilo de eternamente jovem atinge a sociedade de uma forma sem precedentes. O novo adulto tem uma mentalidade de garotão e está voltado ao seu próprio umbigo, buscando seus interesses pessoais, de carreira e não sobra espaço ou interesse de cuidar do outro. Ainda que este outro seja o próprio filho”, explica a psicóloga Rosely Sayão que fala ainda de crianças órfãs de pais vivos.

É preciso tomar tempo e repensar estes valores que são absorvidos sem muita contestação. A juventude é valorizada acima de tudo, numa onda crescente que desemboca no consumismo desenfreado. Para a especialista que também é colunista da Bandnews e da Folha de São Paulo criança tem sempre as mesmas necessidades, há séculos: “Criança é criança e precisa de adulto como parâmetro, do contrário ficará abandonada à própria sorte sem amparo para seus anseios e dúvidas.”

Isto pode ser visto nos índices de doenças antes restritas aos adultos que agora assolam a base infantil. Além da depressão, temos hipertensão, colesterol alto, gastrite e até alterações cardíacas. Aí se vê pouca interferência dos pais na orientação nutricional e uma permissividade em busca de ser “amigão”. Esta onda de ser camada e deixar o lado pai, que dita o caminho, também é um reflexo da ditadura da juventude, mas não dá de fato bons resultados. Segundo a especialista, em matéria de educação ser careta ainda rende os melhores frutos e não se trata de apenas ditar regras. “A regra por si só não ensina, a criança precisa aprender o princípio por trás dos padrões e entender que ela está no mundo, no ambiente e deve colaborar”, advoga Rosely, para quem arrumar a cama não deve ser um ato remunerado, mas uma lição de que ela faz parte daquele núcleo e sua ajuda faz parte do todo.

Cada família escolhe seus princípios e os ensina vivendo, por isto mesmo é que consumir tem se tornado o grande mote social hoje, porque é isto que as crianças veem nos pais e consumismo também é um princípio. Observe os sinais, gaste tempo em família, nas refeições, nos finais de semana no parque, exercite o diálogo. Todo indivíduo tem sua fase de reclusão e introspecção, mas se a do seu filho está passando de um dia, talvez tenha algo de errado, pois o normal de criança é ser feliz.

É preciso ficar atento se a criança:
Para de brincar com os amigos
Dorme demais, de uma hora para outra
Faz desenhos que mostrem algo anormal
Não tem amigos na escola
Não tem convites para visitar amiguinhos
Tem notas baixas na escola
Mude de apetite repentinamente
Começa a sofrer de infecções sem causa aparente

Resultados da pesquisa de Ana Escobar
959 crianças de 5 a 9 anos foram entrevistadas com seus pais
22,7% das crianças apresentavam ansiedade;
25,9% tinham problemas de atenção
21,7% problemas de comportamento.

(Fonte: Vida e Saúde)

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