Para a maioria dos casais, o nascimento de seus filhos é motivo de alegria, felicidade, comemoração e registro dos mais significativos da experiência humana. Sabe-se, contudo, que um percentual não desprezível das mães (em torno de 13%) pode apresentar um quadro clínico, bem estudado e conhecido como Depressão Pós-Parto. Sua incidência é maior quando da primeira experiência em dar à luz.

As causas podem variar ou se somarem, como as mudanças hormonais, a tomada de consciência da responsabilidade de cuidar de um ser totalmente dependente e imaturo, o receio de fracasso quanto à função (até então inusitada) de mãe e à autorrecriminação pela hipótese de estar rejeitando o recém-nascido. Em casos mais graves, a menos valia e culpabilidade são tamanhas que podem alimentar ideias de autoextermínio, antecedidas ou não por atitudes de autoagressividade.

Mas o que nem todos sabem é que um percentual (em torno de 3,5%) de homens que se tornaram pais recentemente – após oito semanas do nascimento do filho – podem também apresentar um quadro depressivo ligado à concepção de sua mulher. Primeiras observações a respeito foram publicadas pelo Dr. Paul G. Ramchandai (Oxford, Inglaterra, na revista Lancelot) e em seguida pelo Dr. Richard Friedman, no N.Y. Times.  Na minha casuística atendi apenas quatro recém-pais nesta situação. O que é mais comum é deparamos com uma dificuldade de adaptação masculina à nova situação: um novo “reizinho” passa a fazer parte da família e as atenções voltam-se para para ele, recém-nascido e alguns homens  sentem-se deslocados do poder. Leva-se algum tempo a voltarem ao seu estado normal, inclusive retomando a relação com a esposa. Esta relação fica “morna” durante algum tempo, coisa de um mês. É situação transitória e muito mais leve do que um quadro depressivo em si.

Para o homem, a paternidade no sentido estrito, se concretiza com o nascimento do filho, pois o pai foi pego meio de surpresa, uma vez que contempla a gravidez da companheira num contexto afetivo, sem carregar a criança, biologicamente, dentro de si. Entre o não ser e o tornar-se pai, o tempo foi curto, e ele poderá se ver diante de algumas preocupações existenciais, quase todas apontando para uma baixa da auto-estima, visto seu sentimento de fracasso quanto ao seu desempenho das funções paternas. Sente-se como incapaz de se conduzir como tal, como pai. E o sentimento de vergonha por isso contribui para que se isole, para evitar que o vejam deprimido, choroso, hipodinâmico, ansioso e com diminuição de sua força normal de trabalho. Costuma haver também uma transitória retração da libido.

As diferenças qualitativas e quantitativas da depressão masculina pós parto em relação àquele desencadeado nas mulheres encontra explicações razoáveis. A mulher vai se preparando e introjetando sua função materna no mínimo ao longo dos nove meses de gravidez, sendo comum já fantasiá-la até antes, o que demonstra a importância exponencial daPulsão Materna. Por exemplo, sabemos que a própria menina, já a partir de sua primeira infância, “brinca de mamãe”, isto porque já está filogeneticamente “preparada” para ser mãe ao longo de gerações . Pontuo que a Pulsão Materna (ou Instinto Materno) merece capítulo especial a ser apresentado em outra oportunidade. Já no caso do homem, a Pulsão Paterna (ou Instinto Paterno) tem significância correlata à respectiva pulsão materna da companheira, e uma pulsão estimula a outra. Sendo assim, é mais comum que o desejo de ser mãe desperte no companheiro o de ser pai. As Pulsões Materna e Paterna são mais conhecidas como Instintos Materno e Paterno, no domínio linguístico mais geral.

Além das dúvidas existenciais masculinas já apontadas nessa questão da recém-paternidade, existem outras também relevantes: os homens tendem a fugir do foco do problema e passam cada vez mais tempo fora de casa, entregando-se mais à profissão e/ou permanecendo por tempo desnecessário no seu local de trabalho; as mulheres com depressão pós-parto tendem a ficar apáticas e a negar a maternidade. Tal atitude masculina, como já apontada, deve ser entendida como uma dificuldade do homem em mostrar-se fragilizado, triste, choroso, optando pelo anonimato do sofrimento solitário (duplamente pior e mais arriscado), tendo como base a defesa da negação da dificuldade de assumir-se como pai.

Mas há soluções para tais quadros e, de um ponto de vista preventivo, é fundamental que os futuros pai e mãe conversem bem sobre o evento que envolve a nova perspectiva da família: a gravidez e o parto em si. De um ponto de vista terapêutico, indica-se um acompanhamento psicoterápico e, se o sintoma depressivo for mais intenso, o que não é incomum, uma ajuda psicofarmacológica. Um dos focos da terapia será trabalhar para resgatar a auto-estima, pois, via de regra estará presente um sentimento de culpabilidade, devido a uma grande auto-censura (de todo injusta, pois a síndrome ocorre alheia ao desejo dos pais em questão). É também importante que a mulher divida com seu companheiro o carinho e as responsabilidades com o recém-nascido e releve o estado de recém-pais que se tornaram. A boa mãe não pode confundir dedicação profunda, amorosa e pulsional com onipotência, e deve abrir espaço para que o pai também atue.

É certo que homens que apresentam tal quadro tenham certa imaturidade para a  função paterna e, uma vez vencidos os sintomas mais intensos da síndrome da depressão pós-parto, seria bom que pensassem num processo terapêutico como instrumental para um maior amadurecimento. Um dado cultural interessante é que, até mesmo após o séc. XVIII, o pai tinha hábitos muito próximos aos do homo sapiens primevo: colocar os filhotes para dormir em outro espaço, o que dificultava a detecção de sua presença física, protegendo-os dos predadores.

.Até o final do século citado havia o hábito de os pais mandarem os recém-nascidos para as famosas amas-de-leite no interior de seus países. A assunção dos papeis dos pais, tais como os conhecemos, é, pois, mais recente, e trata-se de um salto evolutivo. Ademais, as mães têm, atualmente, maior necessidade de ajuda, o que faz com que os pais se dediquem aos cuidados com os bebês e até mesmo com a casa. Essa ajuda tem se mostrado  efetiva, possibilitando às mães uma maior repouso e um menor estresse.  

Com o pequeno relato acima, já se vê a caminhada do macho a partir de um puro instinto sexual de procriar, chegando a um instinto paterno mais refinado: esta é a pulsão paterna.

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Cláudio Persio
Médico Psiquiatra e Psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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