Esse texto trata de um ponto sensível na vida de cada um de nós. Pedir desculpas, para muitos, significa sinal de fraqueza, sintoma de falta de convicção ou até mesmo a sensação de rebaixamento diante de pessoa com a qual se desculpa. Entretanto é algo muito diferente disso.

Todas as pessoas buscam sucesso em suas empreitadas. Seja no campo afetivo, profissional, religioso ou social, queremos sair vitoriosos. Evidentemente que isso é algo essencial. Somente esse objetivo possibilita que nós façamos o nosso melhor. Entretanto, é muito fácil confundir e entender que ser bem sucedido é estar sempre com a razão.

No campo afetivo, por exemplo, imagino que muitos pensem que ser bem sucedido é ter um relacionamento em que não existam desentendimentos e que tudo seja a mais absoluta harmonia. Algo próximo disso até pode ocorrer, mas somente na medida em que um conheça o outro muito bem. E para isso acontecer é necessário que surjam as discordâncias e até mesmo desentendimentos e brigas, e que estas disparidades sejam ressignificadas pelos dois. Da mesma forma, no campo social, seja com colegas de trabalho, com a família e amigos, um relacionamento respeitoso só será posto em prova na medida em que as divergências ocorram e sejam aceitas pelas partes envolvidas. O respeito surge quando a diferença é acolhida.

As pessoas são diferentes, tem visões e atitudes distintas das nossas, e relacionar-se é sempre um desafio. Tão desafiador que em momentos de embate é fácil se tomar uma atitude desrespeitosa diante do outro e de sua posição. E quando eu me dou conta de que minha atitude foi indevida frente alguém, surge um incômodo em mim.

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Poucas coisas incomodam mais do que a sensação de que cometi um engano com alguém. Ainda mais se é uma pessoa pela qual tenho afeição. É quando surge a vontade de me retratar. Pedir perdão ou desculpas, e até mesmo compensar meu equívoco de alguma forma. Mas… Eu? Pedir desculpas? Estou bastante incomodado com a atitude que tomei, mas ele que está errado! Não posso pedir desculpas. Tudo bem, eu exagerei, mas ele foi pior. Não pedirei desculpas…

Acabo muitas vezes deixando de buscar um alívio muito significativo em minha mente e em minhas emoções para permanecer em minha posição “honrosa” de quem jamais se equivoca. Quando, na verdade, em primeiro lugar, todas as pessoas se equivocam. Em segundo lugar, deixar de pedir perdão quando se sabe que fez mal a alguém não é nada honroso. Pelo contrário, é uma enorme fuga de si mesmo.

Pedir desculpas ou perdão é um ato de honestidade para consigo mesmo e com o outro. Significa ter a força e a coragem de enfrentar de frente o seu próprio engano. Perceber-se falho e mostrar para o outro isso. É humanizar-se. É se perceber igual ao outro na possibilidade de se equivocar e refazer caminhos. Paradoxalmente, esse aparente fracasso torna qualquer pessoa mais forte diante dos desafios da existência. O bambu é uma das plantas mais resistentes na mata justamente pela sua capacidade de se dobrar diante das intempéries.

Não é fácil falar assim sobre pedir desculpas. Cada caso será sempre único. Mas aqui fica o convite a reflexão acerca do assunto. Afinal, nem todo fardo que carregamos na vida precisa, de fato, ser carregado. Pode ser que baste uma frase para que um peso de anos se desfaça definitivamente e a existência esteja completamente renovada

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Vitor de Moraes Silva
Psicólogo, reside no Rio de Janeiro e é colunista do site Fãs da Psicanálise.


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