Cresci em família católica e fiz primeira comunhão. Não gostava de frequentar igreja quando era pequeno, mas meus pais insistiam. Cresci com aquela ideia de que “Deus castiga” em diversos aspectos. Sentia-me numa “prisão interna” de não fazer coisas e conhecer pessoas porque Deus podia me castigar. Até eu ficar doente.

Quando comecei a ter meus primeiros sintomas de esquizofrenia, até a minha professora de Geografia do colégio disse: “leva esse menino no centro espírita”. Minha família descobriu o espiritismo e comecei a frequentar casas espíritas e me levando sempre. Tinha crises em quase todas as idas nesses lugares. Tremia muito de nervoso e tinha medo.

Fiquei seis anos frequentando e numa guerra com os meus pais achando que não tinha um problema físico e que meu problema era espiritual. Quando estava quase beirando a morte, fui levado a uma Psiquiatra. A médica receitou um “combo” de remédios e eu fiquei, mais ou menos, um mês tomando a medicação até conseguir sair de casa e me sentir melhor. Quando comecei a me sentir melhor, uma dúvida me veio em mente: aonde Deus entra nisso tudo?

Hoje tenho mais de 20 anos de doença e tinha tudo para me tornar ateu, pois às vezes me vinha em mente que Deus podia ter me prejudicado e por ter ficado seis anos com essa ideia de que Deus ia me salvar, acabei criando uma ideia muito ruim até escrever esse texto. Bom, cheguei a muitas conclusões e tenho muitas ressalvas antes de concluir esse texto e já posso começar dizendo que Deus não salva ninguém se você não quiser. Porque tudo depende de você.

O Deus que eu acredito me faz tomar meus remédios disciplinadamente, fazer terapia toda a semana e hoje dedico a minha vida a espiritualidade. Estranho, não? Hoje uso a prática da meditação e estou respirando melhor, mesmo tomando uma dose muito alta de ansiolíticos, não tenho mais crises de ansiedade e os sintomas da esquizofrenia praticamente desapareceram porque tenho disciplina com meus remédios.

Deus é importante? Sim. Mas ele capacitou os homens – no caso, os médicos a nos auxiliarem a ficarmos mais imponentes perante as nossas patologias. Se você não intercalar vários processos na sua vida para chegar a se sentir pleno e feliz, não adianta. Porque a ideia central é você estar de bem consigo mesmo. E essa busca passar por Deus, terapia, médicos e o mais importante, você mesmo.

Confesso que não acredito em milagres e que o maior milagre que Deus me deu foi a vida. E nela estou aprendendo cada vez mais. Você quer coisa melhor que abrir os olhos todas as manhãs? Não importa qual o seu Deus e sua religião. O que importa é a busca! Busca pela sua paz interior que só você pode encontrar. Eu encontrei a minha mesmo tendo esquizofrenia, depressão e transtorno de ansiedade.

Hoje o que eu posso dizer sobre Deus é: obrigado por me proporcionar momentos ótimos quando converso não só com Ele, mas com a minha terapeuta, meu psiquiatra e ter a oportunidade de ver a vida como uma viagem maravilhosa que me ensina a cada dia.

O ponderamento é possível, porque eu sou prova viva disso. Deus me salvou? Deus é meu grande camarada. Mas eu tenho muita gente para agradecer. Principalmente pela capacidade Dele de formar pessoas que me tornam uma pessoa melhor.

*Artigo autoral, não remete à opinião, necessariamente, do Fãs da Psicanálise.

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Daniel Velloso

É escritor, estudante de Psicologia e é colunista exclusivo do site Fãs da Psicanálise.



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