“Todo mundo diz que sua mãe é louca. E eu lembro de dizer ‘Não. Minha mãe é louca’.” E Melissa Spitz sabe disso melhor que a maioria.

A fotógrafa do Missouri, que hoje vive no Brooklyn, em Nova York, é a artista por trás de You Have Nothing to Worry About, uma conta no Instagram e um projeto complexo e longo documentando sua mãe doente e viciada em remédios.

Fotografia é uma segunda natureza para Melissa. “Fotografei minha vida inteira. Meu avô me apresentou a fotografia quando eu era criança. ” Quando seus pais se divorciaram, a fotografia se tornou um mecanismo para lidar com a perda. “Aquela coisa de ‘está tudo perfeito e calmo’ desmoronou. Era mais fácil levar uma câmera para casa e fotografar do que lidar com o que estava acontecendo. Fiquei muito revoltada na época.”

A mãe de Melissa, cujo nome não é divulgado na série, é uma loira magra e pequena, mas as fotos dela fumando, sentada e se coçando são mais que puramente um documento.

“Fiz uma foto da minha mãe gritando num banco de praça… Ela tinha uma dor na voz e… Pensei ‘é assim que me sinto’. Do nada, era como se houvesse um eco. Isso não é apenas eu documentando minha mãe, mas a usando como uma metáfora do que acontece na minha vida e vice-versa.”

“Grito, 2013.”
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Melissa pensa nas fotografias que se seguiram — poderosas, inesperadas, às vezes bizarras, como uma conversa entre as duas. A relação fotográfica das duas é fragmentada. Geralmente sombria; ela é um reflexo da quebra que acontece quando a doença mental passa pelo ser. É possível ver o espelho partido refletindo a imagem distorcida delas.

“No começo achei que a doença mental era algo insípido”, Spitz diz sobre a mãe bipolar, que passou por vários diagnósticos na vida. “Agora, acho que ela é muito, muito doente e penso na saúde mental de maneira completamente diferente. Acho que era preciso ter muito mais apoio e financiamento para familiares e filhos, a célula que a doença envolve.”

Se você está procurando um conto sentimental de redenção e vitimização, o trabalho de Spitz está longe disso. “Às vezes acho que o trabalho fica muito açucarado, porque ela não é uma vítima. Ela gosta de ser fotografada e gosta dessa coisa ‘sou eu ali’. Acho que é por isso que ela gosta tanto de fazer o projeto, porque ela pode estar nesse palco. Tem muito poder nisso.”

“O xanax da minha mãe, 2012.” (Todas as fotos por Melissa Spitz)

“Alguém comentou em uma das fotos: ‘Ela criou uma boa filha’, e eu queria responder ‘ela não criou ninguém'”, diz Spitz. “Como eu disse, acho que o trabalho acaba meio açucarado.”

Uma pergunta comum levantada pelo projeto é sobre consentimento e condescendência — a fotografia ajuda a mãe de Spitz? O dever de cuidar é violado de alguma maneira? Spitz refuta essas alegações. “O projeto faz minha mãe se sentir importante e validada como ser humano. Algumas vezes fico muito feliz em estar fazendo isso, e outras vezes ela tira vantagem de mim… É uma via de mão dupla, mas fico feliz em me incluir [nele] e agora estou tentando injetar mais da minha história no projeto.”

“Minha mãe se maquiando, 2016.”
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“Algumas pessoas acham o trabalho explorador, que estou jogando minha mãe no mundo sob uma luz ruim. Se tem algum aspecto em que acho que estou tirando vantagem, é no clássico: se a vida te dá limões, faça uma limonada.”

Spitz faz uma pausa.

“Na verdade, retiro o que disse. Nunca realmente senti que estava tirando vantagem dela, nunca. Por exemplo, tem uma imagem dela levantando o avental no hospital. Ela disse ‘tire uma foto minha e da minha ferida!’ e eu disse ‘não, mãe, não quero tirar uma foto da sua vagina!’ e ela disse ‘você precisa!’ Ela dita muita coisa. Às vezes me sinto como uma mosca na parede.”

Há uma falta de resolução nessa narrativa, o que não é necessariamente ruim. Pessoas com doenças mentais muitas vezes são retratadas como adoráveis excêntricos ou o veículo de salvação de outra pessoa. A realidade envolve clínicas, remédios, comportamento autodestrutivo.

Muitas doenças mentais não têm um final natural. Para Spitz, o projeto ainda vai continuar por anos. “Por um tempo, o projeto se chamou Até Ela Morrer. Mas era um pouco mórbido demais”, ela diz. Spitz fotografa sua mãe desde 2009 e planeja continuar pelo tempo que for possível, com o resultado, talvez de décadas, gerando uma exposição ou livro.

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O Instagram se tornou um veículo natural para seu trabalho por mais razões do que o compartilhamento fácil. É preciso ver a conta dela fora do feed para entender as imagens fragmentadas juntas. Spitz explica: “[O Instagram] foi uma metáfora instantânea para procura uma compreensão da doença mental, porque olhando [meu perfil] da maneira certa, ele faz sentido. Mas então as coisas se perdem no meio de outras informações. Você vê cantos estranhos e coisas borradas. Como na doença mental, você precisa se afastar para ver a imagem maior. Você precisa ver isso de fora para tirar algum sentido.”

“Quando eu conseguir uma exposição, não sei se as imagens serão completas ou cortadas numa grade. Aquelas linhas brancas nas imagens [do Instagram] estão começando a fazer algo para mim quando olho para elas.”

Na grade ou fora dela, o trabalho de Melissa Spitz se destaca.

A seguir, veja mais imagens.

“‘Preciso disso para minha proteção’, a arma de ar comprimido da minha mãe, 2014.”
“A última vez que meu pai lembra da minha mãe sendo ‘normal’, Bumbershoot, Seattle, Washington, 1994.”
“Todos os remédios da minha mãe, 2014, 1994.”
“Papel de parede, 2013.”
“Dente-de-leão, 2016.”
Dia na piscina, 2015.
Minha mãe na exposição da minha tese no MFA, 2014
“Minha mãe na Flórida, 2016.”

(Imagens: Melissa Spitz)
(Autora: Sarah Waldron)
(Tradução: Marina Schnoor)
(Fonte: vice.com – matéria foi originalmente publicada no Broadly )

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