Você conhece alguém que se submete aos maus tratos nos relacionamentos amorosos? Neste momento, lendo este artigo, vem em sua lembrança alguém que comporta-se com total submissão dentro de um relacionamento, aceitando humilhações, traições, desrespeito e até mesmo agressões físicas?

Certamente, toda pessoa conhece alguém que vive ou já viveu essa realidade tão deprimente, como também é possível que este artigo esteja nas mãos de alguém que esteja vivendo esse drama.

É fato que, perceber uma pessoa querida vivendo um relacionamento abusivo, nos causa uma série de sentimentos conflituosos. Causa muita indignação ver uma pessoa cheia de atributos intelectuais, físicos e morais sendo tratada como se fosse um entulho, pior ainda é perceber a passividade dessa vítima, aceitando tudo sem nada questionar e ainda demonstrando muito temor em perder o seu algoz a quem ela refere-se como “amor”.

Diante disso, uma pessoa será sempre vista como alguém que “não tem vergonha na cara”, “que só dá valor em quem não presta” dentre outros julgamentos. O que a maioria das pessoas talvez não compreenda é o motivo que leva alguém a se posicionar dessa forma nos relacionamentos amorosos e, também, em outros contextos.

Ocorre que costumamos avaliar as pessoas pelo o que elas apresentam externamente, então, diante de uma pessoa bonita e culta, tendemos a acreditar que ela é dona de si e que faz sempre as escolhas mais sensatas para ela.

Entretanto, não é bem assim que a coisa funciona. Nem sempre uma pessoa com um elevado nível intelectual possui independência emocional. Esses dois atributos, não são, necessariamente, vinculados. Inteligência emocional e autoestima não são adquiridos nas cadeiras das universidades. Obviamente, uma pessoa esclarecida intelectualmente e com independência financeira terá menor vulnerabilidade no que se refere às relações abusivas, uma vez que ela não terá a dependência econômica como um fator agravante que venha a dificultar a ruptura de uma união tóxica.

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A forma como uma pessoa se comporta num relacionamento afetivo é o reflexo da forma como ela se percebe. Normalmente, as vítimas de relacionamentos abusivos aprenderam, em alguma fase da vida ou ao longo da vida, que isso é normal e aceitável. Provavelmente, essa pessoa tenha vindo de um contexto familiar desajustado, onde, dentre outras disfunções, presenciava o pai bater na mãe, por exemplo. Ela aprendeu a associar o amor à dor e ao desrespeito, então, ainda que ela adquira esclarecimentos teóricos sobre a forma saudável de se relacionar, aquilo que ela viveu na prática ainda terá um peso gigante na sua percepção.

Entretanto, vale lembrar que esse quadro não é irreversível, contudo, é fundamental que a vítima se disponha a buscar essa desconstrução. O processo pode ser lento, mas vale a pena investir todos os esforços nessa busca, que tem na psicoterapia individual, uma poderosa aliada.

As vítimas de relacionamentos tóxicos não se percebem como pessoas dignas e merecedoras de afeto e respeito. No geral, elas não exigem nada do parceiro, no fundo, elas se percebem como inferiores demais para pedir algo ou manifestar alguma vontade. Tudo o que vier será aceito, e, como elas temem muito a rejeição, elas evitam, ao máximo, contrariar o parceiro.

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Na realidade, quando você olha aquela mulher super bonita e interessante ou aquele homem super bacana vivendo essa realidade tão triste, é preciso entender que eles não se enxergam assim. Eles não tem a menor consciência da beleza física, ou de qualquer outra virtude que eles possam ter. Essas pessoas já entraram no relacionamento com a autoestima adoecida e, se ainda tinha algum resquício de amor próprio, ele foi extinto na convivência com o parceiro.

Reforçando que a construção da autoestima e a percepção de si próprio como um sujeito digno de amar, de ser amado, de ser respeitado e de ser tratado com dignidade poderá ser reforçado nos bancos das escolas e universidades, porém, essa compreensão será adquirida pelo sujeito no seu contexto familiar, o seu núcleo de referência. Contudo, vale lembrar que, no geral, o histórico de relações abusivas tendem a se perpetuar se não sofrer uma interrupção, dessa forma, as vítimas farão novas vítimas, repassando o modelo doentio de se envolver afetivamente aos seus descendentes.

Contudo, faz-se necessário compreender que ninguém deverá encarar o histórico de vida sofrido dos antepassados como uma sentença irrevogável que será estendida aos descendentes, basta buscar ajuda e se posicionar como um agente de transformação desse ciclo, beneficiando a si próprio bem como as gerações futuras da própria família.

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Ivonete Rosa
Sou uma mulher apaixonada por tudo que seja relacionado ao universo da literatura, poesia e Psicologia. Escrevo por qualquer motivação: amor, tristeza, entusiasmo, tédio etc. A escrita é minha porta voz mais fiel. Sou colunista do site Fãs da Psicanálise.


2 COMENTÁRIOS

  1. Tenho um filho que é a vítima no relacionamento. A mulher que ele escolheu pra casar e lhe deu um casal de filhos, o trata com desprezo, humilhações, maus tratos a ele e as crianças, dominação, insatisfações eternas e agora traições. Como mãe meu limite findou. Não tenho mais condições de saúde mental e física p/ aceitar meu filho nesse charco de lodo. Resolvi me mudar de cidade e deixar que o tempo e a razão o esclareçam.

    • Muito provavelmente seu filho parou de ter relação sexual com ela, especialmente dps de filhos. Ser rejeitada tbm é uma forma de abuso. Não é tão simples falar: separem! Pq sabemos que se separar fosse tão fácil assim, quase todo mundo já teria feito. Aparentemente ambos estão infelizes e presos por algum motivo. Uma pena, lamento por eles, pelas crianças e pela senhora que acabou sendo envolvida nisso. É mto angustiante ver um filho nosso num relacionamento tóxico e abusivo.

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