As relações entre literatura e psicanálise foram alvo de constantes inquietações ao longo das pesquisas do pai da psicanálise pelo despertar do inconsciente.Em 1908 Freud escreve“Escritores criativos e de devaneios”, artigo célebre sobre os mistérios por trás da expressão em palavras. A busca pela satisfação dos desejos inconscientes, mediado pelo mundo da fantasia, parece ser uma busca constante do artista, característica semelhante com alguém que devaneia.

Se há uma aproximaçãodo artista com o devaneio, também há um distanciamento na realização da obra de arte, por justamente ser uma ação na realidade. Daí porque Freud admira os escritores criativos: conseguem suavizar o caráter egoísta dos seus devaneios, através de alterações e disfarces, provocando prazer pela estética formal de suas fantasias representadas. O escritor criativo, para Freud, realiza a sua obra a partir de uma compreensão interna acerca de suas fantasias mais arcaicas.

O despertar (insight) se torna possível quando uma experiência no presente relembra o escritor de alguma lembrança anterior. Esse movimento muito se assemelhacom o brincar na infância, nas palavras de Freud: “O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio de desejo que os une”.

Em seu artigo notável sobre “Moisés de Michelangelo” escrito em 1914, Freud indica que o artista busca recuperar aquilo que nele produz o impulso criativo.Conflitos com a peculiaridade de possuírem em seu cerne o conflito edípico não escapam de participar do ato criativo, sendo a realidade psíquica mais uma característica a ser expressa no processo criativo.

Segundo essa perspectiva, as artes surgem como possibilidade de criar objetos renunciados. Ao concretizar o objeto ausente no fazer artístico, não somente o artista recupera o objeto perdido, como também, por meio da experiência estética, possibilita a identificação dos demais sujeito. Ao se permitirem afetar pelas emoções despertadas em uma profunda experiência estética, algo da ordem do sagrado ronda a cena.

As inquietações são mais do que ingredientes imprescindíveis para os escritores e artistas, que buscando dar forma e se aproximar do inconsciente, buscam contornos muito próprios no seu processo criativo particular. No mistério que continua, a pergunta que fica é: qual é o rumo da inquietação de cada um?

(Autora: Fernanda Fazzio é psicóloga, psicanalista e escritora.)

 




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