Estou em plena fase de adaptação de um bebê de 1 ano e 6 meses no nosso espaço educativo.

Estamos fazendo o processo lentamente, primeiro com a presença dos pais no mesmo espaço e gradualmente com a estadia cada vez mais longa dele por aqui.

Esse tipo de adaptação não é novidade e nem é estranha para a maioria das pessoas. Mas eu aprendi algo novo (ainda bem!) dessa vez.

Ele chegou em casa para ficar sozinho pela primeira vez. Como já havia passado algum tempo sozinho comigo, ele sabia que a experiência de saída dos pais se repetiria. Então chorou, claro, que é a maneira mais conhecida dos bebês expressarem tudo que sentem.

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O choro da criança tem uma reação engraçada (e pertubadora) em nós: entramos em desespero. Queremos que aquele choro cesse, que o sofrimento se interrompa. Ainda mais se estamos cansados, se temos mais de uma criança que exige nossa atenção ou se o choro é estridente e em local público.

Tive o privilégio de estar descansada e integralmente envolvida com ele hoje, tenho que assumir. Então quando o choro começou eu logo o coloquei em meus braços, abracei-o e comecei a dizer coisas como: “está tudo bem, fique tranquilo, estou aqui com você”.

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Depois de certa dose de repetição eu percebi algo interessantíssimo, que mudará completamente minha postura de agora em diante.

Antes de tudo é preciso lembrar que eu não trato as crianças como cobaias. É claro que tudo que faço está pautado em muitos estudos sérios, em muitas pesquisas e numa prática conectada com nossa humanidade.

O que aconteceu nessa experiência que relatarei foi pura e simplesmente a conexão de saberes com a necessidade da crianças, em um olhar. Pois bem, começarei o relato.

Enquanto eu o abraçava, percebi que ele “lutava”. Mexia os braços, se jogava pra trás, chorava cada vez mais alto e apontava para a porta. Descabelou-se de pensar no sofrimento não é? Apesar de “treinada”, não é fácil. Eu também tenho que controlar meu envolvimento com o sofrimento deles, senão nós dois sofremos e nada se resolve.

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Eu sabia o que ele estava manifestando: frustração, medo e insegurança. Ele nunca havia frequentado uma creche, tudo aquilo de ficar longe da mamãe e papai (fontes da sobrevivência) é novo.

Depois de repetir algumas vezes “está tudo bem” e notar o comportamento dele foi que aconteceu o clique. Parei, coloquei-o no chão. Sentei no chão, em sua frente com “pernas cruzadas”. Disse a ele de forma calma, olhando em seus olhos

“Eu entendo que esteja com medo e frustrado, também está bravo comigo porque fui eu quem o tirou do colo do papai, mas tudo ficará bem. Nós brincaremos o dia todo, comeremos coisas deliciosas, vamos ler livros legais e estarei junto com você sempre que precisar”.

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O choro foi interrompido. Não era o que eu esperava, pra ser sincera. Ele me olhou no fundo dos olhos (e da alma) e estava curioso. Eu falei com ele com todo o respeito que ele merecia, entendi que ele precisava viver aquele sofrimento naquele momento. Contanto que a criança se sinta amparada e saiba que aquele momento de dor passará, o choro se acalma.

Temos o hábito de distrair a criança (e nós mesmos mais ainda) do sofrimento. Não é a toa que estamos cada vez mais propensos a depressão, cada vez menos preparados para lidar com as frustrações e as dificuldades que todo movimento de vida gera.

Não significa expor a criança a sofrimentos para os quais ela não está preparada. Significa deixar que ela sinta o que precisa sentir, sabendo que estará acompanhada e amparada, e entender como se manifesta cada sentimento e como agir diante dele.

Esse exercício é feito no cotidiano. É na hora do tombo, no momento em que levou um tapa do amigo, na hora em que não pode comer determinada coisa e nos momentos de disciplina.

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Todos esses momentos são férteis para o aparecimento de sentimentos intensos. É por isso que precisamos, nós adultos, estarmos amparados para que a exaustão não coloque em risco a educação que queremos dar.

E viva o realinhamento constante no caminho de quem se entrega a aprender.

Via nossa página parceira: Pais Que Educam
Autor: Pamela Greco
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