Capacitismo é a discriminação e o preconceito social contra pessoas com qualquer tipo de deficiência.

Em sociedades capacitistas, a ausência de qualquer deficiência é visto como o normal, e pessoas com alguma deficiência são entendidas como exceções; a deficiência é vista como algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica; um exemplo de postura capacitista é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física em vez de dirigir-se diretamente à própria pessoa.

Para explicar melhor a vocês, entrevistei a Cleiciane que tem uma deficiência e é contra o capacitismo!

1) Cleciane, a deficiência na verdade é uma questão política pra você, não é? Como foi esse processo pra você?

Historicamente, de acordo com o contexto sociocultural, foram elaborados diversos modelos de explicação para o fenômeno da deficiência. Essas conceituações apresentam-se como fontes norteadoras para o modo como as diferentes sociedades se organizaram e estabeleceram suas práticas em torno das diversas condições de vida físicas, sensoriais e/ou intelectuais.

Destro dessa perspectiva, dois modelos de compreensão exerceram papéis centrais na forma em que as pessoas com deficiência foram percebidas em diferentes contextos: o modelo caritativo e o modelo biomédico. O primeiro, que emergiu ainda na era pré-cristã, compreende a deficiência como uma tragédia e a pessoa com deficiência como vítima da sua condição e incapaz de ter uma vida autônoma, necessitando sempre de auxílio de pessoas e instituições especializadas. Já o segundo, surgiu a partir do pensamento científico dando origem a explicações naturalistas sobre as causas das deficiências. Segundo este modelo biomédico, a deficiência é entendida como uma consequência de um fator biológico (lesão ou patologia) que leva aos sujeitos a uma desvantagem natural, cabendo a este sujeitar-se aos saberes médicos para que a partir do processo de reabilitação possam resgatar os padrões funcionamento corporais “típicos à espécie humana” e assim serem (re)inseridos na sociedade.

Esses dois modelos de compreensão, ainda hegemônico em nossa sociedade, ao compreender a deficiência como uma questão individual, produz estigmas, estereótipos e barreiras que impedem nossa participação social, como também produz um processo de negação da nossa identidade e do nosso reconhecimento enquanto sujeitos que possuem pensamentos, sentimentos, emoções, sexualidade, desejos e voz.

Nesse sentido, a mídia exerce um forte papel, visto que esta funciona como um agente que opera, constrói e reconstrói representações, atuando em nossa sociedade como um instrumento da naturalização do sistema de opressão e manutenção da estrutura hierárquica. Esses discursos encontram-se tão enraizados em nossa sociedade que, algumas vezes, as pessoas reproduzem sem se dar conta ou acreditando que estão fazendo um “bem” para nós, e muitas a pessoas com deficiência acabam internalizando isso para si.

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Comigo não foi muito diferente, durante muito tempo internalizei muitos desses discursos, neguei minha identidade, meus sentimentos, pensamentos, emoções, sexualidade e até mesmo, abri mão das minhas vontades, dos meus desejos, dos meus direitos, da minha vida social por acreditar que a minha presença em alguns espaços estaria atrapalhando.

Somente depois que passei conhecer a compreensão da deficiência a partir do modelo social de explicação e ter contato com outras pessoas que também possuem algum tipo de deficiência e militam em prol do combate ao capacitismo e da garantia dos nossos direitos, foi que comecei a despertar essa consciência da deficiência enquanto uma questão política e de direitos, uma vez que passei a perceber que a deficiência somente se expressa diante dos contextos sociais, políticos e econômicos que oprimem, segregam e excluem os corpos que não se enquadram dentro das normas e padrões pré-estabelecido pelo sistema capitalista idealizador de um sujeito produtivo.

2) Você é uma ativista e diz “não” ao capacitismo! Pode explicar pra gente o que é isso?

O capacitismo é exatamente essa ideologia presente no social que defende a existência de um tipo de corpo particular à espécie humana e compreende a deficiência como um estado diminuído do ser. Dentro dessa perspectiva, nós, pessoas com deficiência, somos vistas como não iguais, incapazes de gerir nossas próprias vidas e inaptas à vida social, sexual, laboral, educacional e familiar. Essa ideologia, muitas vezes, se traduz em práticas discriminatórias e paternalistas, e estruturas sociais, arquitetônicas, sensoriais e comunicacionais que oprimem, segregam excluem todos corpos com condições físicas, sensoriais e/ou intelectuais diferentes dos padrões estabelecidos socialmente.

Portanto, assim como o racismo e o machismo, o capacitismo se caracteriza como uma rede de crenças, processos e práticas que sustentam uma estrutura de dominação baseadas em diferenças biológicas, que devem ser combatidas. Entretanto, a invisibilidade, a naturalização e a negação do capacitismo são um dos fatores que dificulta o enfrentamento e combate, visto que muitas práticas capacitistas são mascaradas de elogios e boas intenções, como por exemplo:

1) Quando alguém esboça espanto ou surpresa ao ver uma pessoa com deficiência andando sozinha nas ruas.

2) Quando alguém parabeniza uma pessoa com deficiência por ir a uma balada ou simplesmente por sair de casa.

3) Quando alguém diz que uma pessoa com deficiência é guerreira, um exemplo de vida ou superação por estudar, trabalhar, andar nas ruas, namorar, em suma, levar uma vida como outra pessoa qualquer.

4) Quando alguém defende que pessoas com deficiência não devem estudar na rede regular de ensino, mas sim em escolas especiais ou classes especiais.

5) Quando professores se negam a lidar com alunos com deficiência, por “não estarem preparados para isso”

6) Quando alguém se depara com um casal formado por uma pessoa com deficiência e outra sem e parabeniza aquela que não tem deficiência por estarem juntos.

7) Quando alguém tenta inibir o direito a maternidade a uma mãe com deficiência por considera-la incapaz de cuidar de seus filhos.

8) Quando um direito previsto em lei ganha o rótulo de ”necessidade especial”.

9) Quando alguém tenta minimizar o fato da pessoa ter deficiência dizendo “mas todo mundo tem uma deficiência, né?”.

10) Quando alguém elogia uma pessoa com deficiência enfatizando que, embora ela tenha uma deficiência, ela é linda e inteligente.

Embora muitas vezes essas práticas sejam exercidas com boas intenções, elas reforçam diversos estigmas, estereótipos, barreiras e geram sérias implicações no que diz respeito as discriminações, as opressões as quais sofremos. Em dezembro do ano passado surgiu campanha “#ÉCapacistismoQuando” com o objetivo de dar visibilidade ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência e essa opressão a qual vivenciamos diariamente. A campanha fez sucesso e acredito que proporcionou uma visibilidade maior. Mas, é de suma importância dar visibilidade e continuar dizendo não ao capacitismo diariamente!

3) “Bacharel interdisciplinar em Humanidades” você se forma em abril, certo? De onde surgiu a ideia desse curso?

Então, desde pequena eu tinha um sonho de ser médica, acredito que pelo fato de ter tido muitos internamentos durante minha infância e, consequente, muita aproximação com profissionais da área, o que me fez talvez não pensar em outras possibilidades. Até, mais ou menos, meus 20 anos eu tinha convicção do que queria para meu futuro profissional, mas minha família achava que eu deveria repensar em função da minha condição, não pelo fato de ser cadeirante, mas por ter uma patologia que gera fraqueza e cansaço rápido dos músculos voluntários e pelo fato desses sintomas, na época, ainda estarem muito instáveis por causa da falta de opções de tratamentos.

Esses fatores me fizeram pesar e repensar em outras possibilidades, onde eu pudesse unir o que eu “gostava” com as minhas reais condições. Pensei em vários cursos: Biomedicina, Biotecnologia, Nutrição e Psicologia, mas ainda não me enxergava de fato em nenhumas dessas “caixinhas”. Foi quando conheci o Bacharelado Interdisciplinar, me interessei pelo projeto pedagógico, me apaixonei pela possibilidade de ter contato com várias áreas do conhecimento e, sobretudo, pela proposta de uma graduação que me possibilitasse uma formação ampla, crítica, humanística e transformadora socialmente, muito diferente da maioria dos CPL que apenas nos oferece uma formação técnica.

4) Quais são seus planos para depois desse curso?

O Bacharelado Interdisciplinar é um curso que possibilita seguir diversos caminhos desde ingressar em um CPL (Curso de Progressão Linear) até seguir para o Mestrado, fazer um concurso ou atuar no mercado de trabalho conforme as habilidades adquiridas no decorrer do curso. Diante dessa vasta gama de possibilidades, minha pretensão após o término do B.I é ingressar em Psicologia e fazer um concurso que me possibilite ter uma certa autonomia e estabilidade financeira. Também penso em fazer mestrado, tenho interesse em diversas linhas de pesquisas, sobretudo, no campo de estudo sobre as questões que envolvem a deficiência, mas ainda estou amadurecendo está ideia.

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5) O sonho da Cleciane? Qual é?

Bom, é difícil falar em “O Sonho”. Essa é uma das perguntas que, às vezes, as pessoas fazem e me gera certa inquietação. Primeiro porque para mim a vida é um constate devir, então o que para mim hoje pode ser um sonho, amanhã pode não mais ser e, sim, outro que talvez eu jamais houvesse pensado. E segundo porque falar em “O Sonho” soa como atingir metas, abrir mão de coisas que são valorosas no dia a dia para conquistar algo que na maioria das vezes está atrelado ao ter e ao ser conforme aquilo que é pregado socialmente para apenas atingir uma “felicidade” momentânea e que possivelmente nem é sua de fato. Então eu prefiro viver o aqui e o agora, experienciando as diversas possibilidades. Mas se há algo que norteiam os meus passos e minhas relações é a possibilidade de contribuir para a construção de uma sociedade justa e igualitária.

6) Eu queria que você deixasse um incentivo a quem está totalmente perdido com relação aos estudos!

Esse é um ponto em que eu não tenho menor domino e que me abstenho. Primeiro porque existe um velho estigma social onde as pessoas com deficiência são vistas como menos capazes e qualquer coisa que nós façamos é tido como fonte de inspiração, motivação e exemplo a ser seguindo. Segundo porque, independente de ser uma pessoa com deficiência e lutar para desconstruir esse estereótipo, acredito que não existe uma fórmula para ser bem sucedido quer seja na vida, nos estudos, no trabalho, no campo familiar ou nos relacionamentos afetivos e interpessoais como um todo. Cada indivíduo possui uma história de vida única e um modo singular de perceber e se relacionar com o ambiente a sua volta. Então, acredito que é delicado definir um parâmetro a ser seguido ou tentar incentivar alguém cuja história de vida eu não conheço, pois fazendo isso estaria desconsiderando as particularidades e singularidades dos sujeitos.

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Daniel Velloso
É escritor, estudante de Psicologia e é colunista exclusivo do site Fãs da Psicanálise.


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