O amor em tempos de crise tem se mostrado cada dia mais importante. Como médica geriatra e paliativista* (já vou explicar o que é isso) tenho o privilegio de conhecer as pessoas em sua melhor capacidade de dar e receber amor: no sofrimento.

Infelizmente percebo que somos capazes de viver uma vida quase inteira sem expressar afeto, mas ainda assim, reservamos para nossos tempos finais o melhor de nós mesmos. Já acompanhei incontáveis histórias de amor, mas as eternas foram aquelas onde o amor viveu cada dia de convívio, cada momento de alegria ou dor, presente e incansável. E me emociona sempre ouvir as histórias de amor que duram para além da morte.

Eu sempre acreditei que o amor não morre e um dia ouvi de uma paciente: “Sabe Ana, eu não sou viúva, não me sinto viúva. Eu sou apenas uma mulher que ama um homem que não existe mais”. E sorria. E dentro do seu olhar também havia um sorriso. Olhares que conheceram o amor jamais deixam de sorrir.

Outra história que me tocou profundamente foi a de um casal que me procurou do alto dos seus oitenta e muitos anos. Ela tinha câncer de pulmão, eu que fiz o diagnóstico. Quando avaliei todos os exames, vi que a doença era muito avançada e pouco poderia ser feito. E contei para ela e para o esposo. Eles se olharam, as lágrimas tombaram pelas rugas profundas daquelas faces. Ele disse: “Foi tão pouco tempo junto com você, mas vale cada minuto, para sempre”. Eu achei que ele se referia a uma forma metafórica de dizer sobre como o tempo passa rápido.

E me surpreendi quando perguntei sobre quanto tempo tinham de casados e ele num sorriso respondeu: “Quase dois anos”. E me contou nos detalhes: “Eu a conheci quando tínhamos pouco mais de vinte anos, morávamos na mesma rua. Eu era casado e ela também. Tivemos nossos filhos, nossos netos. Eu me apaixonei assim que a vi pela primeira vez, mas guardei esse amor no meu coração, pois não haveria como ficarmos juntos, não era certo. Sofri demais por não conseguir impedir que meu coração respeitasse as regras do mundo… E aos 78 anos fiquei viúvo. Ela perdeu o marido aos 80 anos. Aí eu esperei um ano, o tempo de respeito do luto dela pelo marido, achei certo. E me aproximei. Conversávamos todos os dias, e já não havia nada mais que poderia me impedir de me declarar. E descobri que ela também me amava desde sempre e sofreu exatamente o mesmo que eu. Nunca me lembro de ter tido um dia tão feliz como naquele em que ela me amou sem medo, sem culpa nenhuma. Então eu fiz o pedido de casamento para os filhos dela e eles me aceitaram. No nosso casamento tínhamos 83 anos. E posso dizer com toda a certeza do mundo, doutora Ana: eu a esperaria por quantos anos ou quantas vidas fossem necessárias, nem que fosse para ter um dia de amor com ela. E eu tive… quase dois anos! E agora eu vou cuidar dela, em cada dia mais que Deus permitir que eu me veja nos olhos dela. Esse amor vai ficar comigo para sempre, doutora… para sempre”.

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Jamais vou me esquecer do olhar dela sobre ele. Uma mistura perfeita de paixão e tristeza, de amor e compaixão. Por causa desta história de amor eu consegui tocar o coração duro da chefe da oncologia que aceitou a paciente para fazer a radioterapia. Naqueles tempos, como agora, muitos pacientes saem da fila de tratamento de doenças graves por causa de sua idade avançada, mas aquela história de amor rompeu esta barreira também e conseguimos prolongar a vida dela por mais seis meses ainda com o tratamento da doença junto do controle do sofrimento através dos cuidados paliativos*.

Cada consulta, mesmo mais fragilizada, eu via como essa mulher era lindamente amada por aquele homem. Não havia idade, rugas, deformidades, cabelos brancos, fraldas, cansaço, câncer avançado. Nunca houve medo. Havia sempre ali, na minha frente, um homem e uma mulher, respirando a felicidade por terem se encontrado nessa vida, felizes por viverem o amor. O amor que nutre, cria, transforma, engrandece, fortalece, possibilita a vida. Desde então eu aprendi a olhar e reconhecer onde existe o amor verdadeiro. E onde o amor está, não entra o medo, não entra a culpa, não entra o abandono.

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Então me resta aqui, no fim dessas linhas, ser sincera e te avisar: se você deseja amar de verdade, lembre-se que vai acabar. Comece a relação sabendo que vai terminar e saberá como viver esse amor da forma mais plena e inteira possível. E será assim exatamente porque você sabe que vai acabar. Não será preciso ter medo do fim, pois o fim é certo.

Não haverá tempo para desperdiçar em bobagens, porque vai acabar. Sempre haverá tempo para viver a alegria de estar juntos, porque vai acabar. Toda relação acaba um dia, nem que seja pela morte. Mas nessa morte, a do corpo, o amor verdadeiro não morre junto. No amor, apenas nele, mora a verdade da vida, mora a tão sonhada eternidade.

Minha paciente faleceu numa noite de lua linda, na sua cama, sem dor, sem desconforto físico algum, de mãos dadas com seu homem que se despediu sussurrando em seu ouvido: “Vai minha amada, vai tranquila. Lembra que você fez a minha vida ser tão linda e eu ficarei bem… sentindo muita saudade, mas sempre feliz por ter te encontrado… por amar você…”

Eu fui no funeral e ela estava absurdamente linda. O filho me abraçou, e entre as lágrimas disse: “Minha mãe morreu curada, doutora… eu sinto isso…”

“Eu sei”, respondi… “Eu sei que o amor é a única cura possível”.

*Cuidados Paliativos: Segundo a Organização Mundial de Saúde é a assistência integral oferecida para pacientes e familiares quando diante de uma doença grave que ameace a continuidade da vida.

(Autora: Dra. Ana Claudia Quintana Arantes)

(Fonte: humanavida)

*Texto publicado com a autorização da autora.

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