Em algum momento fica claro que sexo não vai resolver o problema.

São duas da manhã, você está com uma pessoa estranha na cama, e seu único pensamento é para alguém que não está ali. Desde que o prazer acabou, há poucos minutos, algumas coisas tornaram-se evidentes: a sensação de solidão continua, a tristeza é enorme, e a saudades (que você tentava espantar) só aumentou. A alegria que aquele momento oferecia evaporou com o último gemido, deixando você com dois problemas: encarar de novo a sua angústia e conviver, nas próximas horas, com um ser humano que acaba de virar um fardo.

Sexo, definitivamente, não é solução para quem está perdido. Na minha contabilidade pessoal, há dois tipos de seres humanos com quem se pode transar (com alegria) quando o nosso mundo está em pedaços. O ser humano que provocou a ruína e o que parece capaz de reunir os destroços. Se a pessoa à sua frente – ou às suas costas – não é ou não parece ser nenhuma dessas duas, talvez seja melhor vestir a roupa e ficar sozinho. Sexo sem esperança, quando a gente precisa dela, é uma droga com benefícios limitados e muitos efeitos colaterais.

Cheguei a esta conclusão tardiamente, e de forma envergonhada, depois de anos tentando convencer os outros e a mim mesmo de que o sexo era sempre uma terapia adequada. Bobagem. Quando o coração está partido e a cabeça está um lixo, enrolar-se no corpo dos outros aumenta a dor e a confusão. É melhor esperar que a tempestade acalme ou que apareça alguém capaz de abrandá-la. Não há erro maior do que imaginar que qualquer pessoa serve para preencher nosso vazio. Não serve.

Na prática, isso significa que às vezes teremos de enfrentar períodos longos de abstinência sexual. Num mundo ultra-erotizado, isso parece uma tragédia, mas não é. Não há nada de errado em ficar meses sem transar se estamos tomados pela dor. Se não há à nossa volta quem ofereça ao mesmo tempo o conforto do afeto e o estímulo do erotismo, talvez seja melhor abster-se. Para que meter-se em situações que já começam mancas, nas quais já falta alguma coisa na largada?

A cultura feminina entendeu isso há mais tempo. Cansei de ver mulheres recolhidas enquanto homens internamente demolidos se ofereciam para mitigar o sofrimento delas. Quanta pretensão. Quanto autoengano. Nós e nossa varinha mágica, capaz de espantar todas as tristezas, menos a nossa própria. Bem fazem as mulheres que, na dúvida, sorriem, declinam e esperam pelo sinal do arrebatamento. Uma hora ele aparece.

Sexo é celebração, não é remédio.

Sexo é exploração dos sentidos, não anestesia emocional.

Sexo é uma forma de conexão humana, não um mergulho desesperado e solitário no corpo dos outros.

Sexo é o que você quer que ele seja. Pode ser uma experiência boa ou apenas uma ilusão desesperada.

(Autor: Ivan Martins)

(Fonte: epoca.globo.com)

 

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