“Como bem se diz popularmente: “Eu desde que me entendo como gente” tive um grande interesse por música, cinema, enfim sobre quase tudo que se contém no mundo.

Viajar então nem se fala, quando pequeno até uma ida a Teresópolis era para mim um encantamento, sobretudo para parar na padaria Joyce e comprar os amanteigados que lá se fabricava. Isso na época, sem exageros, exercia uma magia semelhante ao que muitos têm de ir a Ladurée de Paris para comprar os famosos macarons de todos os sabores seja o de pistache, de amêndoas, ou morango…

Guardo essa essência de menino curioso, que antecipou grandes descobertas, sobretudo em relação às pessoas da minha geração. Bossa nova é de uma época na qual eu tinha uns quatro a cinco anos e me encantava em toda a minha infância o som do violão, com aquelas vozes mansas, roucas que cantavam corações, mares, céus, saudades, encontros e desencontros… O “Poetinha” como é carinhosamente chamado Vinícius de Moraes completaria 100 anos no dia 21 e a música Garota Ipanema continua viva em todos e em mim. As estreias dos filmes eram esperadas como eventos únicos…

Havia um tempo que se tinha tudo a ver, só que havia tempo para se ver este tudo.

Hoje em dia temos tantas coisas a ler, filmes, shows, e teatros a assistir, além dos 100 milhões de restaurantes, lugares e hotéis a conhecer antes de se partir deste planeta e isso ainda deve ser somado a cuidar de si, da casa, do outro e do trabalho. Ufa! Tudo numa vida só.

Quando passa uma semana ou um fim de semana que você deixou de comprar o ingresso para um musical, como aconteceu comigo com o Cazuza: Chega-se e se ouve: Está esgotado! Mas como? Perguntei-me… Tem pessoas de sentinela para estarem ali no imediato?

Hoje em dia se você adia sua ida, quando se dá conta “pluft” sumiu o filme. Cadê?

É tão pleno de ofertas que estamos sem recursos de tempo, de energia e mesmo financeiro de acompanhar.

Li outro dia uma matéria sobre procrastinação, que se caracteriza no perfil de uma pessoa quando se adia algo que deve ser feito, em função de outra coisa que seria menos importante e, portanto menos prioritário, ou simplesmente pela preguiça de fazer…

Algumas pessoas são de fato enquadradas nesse caso… Mas existe outra questão:

O excesso de ofertas pode ser paralisante tanto quanto o excesso de exigência do que fazer.

Há uma filosofia na atualidade que induz a pessoa a se sentir obrigada a saber de tudo e a tudo participar para se mostrar atualizada e também demonstrar que tem o “Vibe” do ritmo contemporâneo. Isso já está tão implícito em cada um que quando ocorre de não conseguir ver ou ler algo, ou ainda não pôde viajar para determinados lugares, carrega-se uma culpa, um constrangimento de se estar excluído de uma posição antenada. Fora o olhar de indignação que as pessoas lançam sobre aquela que diz não ter ido ainda nos 100 lugares que deve conhecer antes de morrer! Uma censura que ainda vem acompanhada de um sonoro “Nãããããoooo Nooossa! Mas isto está entre as 100 coisas que você tem que ver antes de morrer! Olha lá, pois o tempo passa!”

Pronto: a condenação de não ter feito ainda nada de essencial na vida é lançada neste momento.

Uma culpa salta com a pesada sensação de desperdício de oportunidade. “Ai que medo de não dar tempo… Ah, estou por fora…”

Será?

Antes o mundo tinha outro tempo… É lógico que vamos ser lúcidos e aptos a vivermos o atual de nossa existência, mas temos que antes de escolhermos as cem coisas a fazer, começarmos a colocar uma que deve ser realizada ao menos uma vez antes de morrer.  Qual é? Se conhecer.

Por que?

Na modernidade a pessoa tem a tarefa de se inventar. Na pré-modernidade o sujeito estava pré-inventado e, portanto se vivia o que se havia pré-determinado e as opções eram restritas… Hoje temos um espectro de personalidades, de campos de atuação e formas de viver a vida tão amplo que para saber escolher bem há que se conhecer. Para que você possa perceber em qual narrativa de vida, entre tantas, você se enquadra…

Entre as “100” infinitas opções atuais quais as combinam com a sua essência? Conforme afirmou o psicanalista Contardo Calligaris “Quando temos que nos inventar as narrativas passam a desempenhar um papel fundamental”.

Qual o seu gênero preferido?

O meu já está definido e entre alguns está escrever para o 40Forever o que penso e o que sei…

Comece a colocar você em suas decisões… Comece a colocar você em seus momentos…

O importante, como tão bem afirmou Freud, é que você saiba manter-se nas suas escolhas…

Toda decisão inclui aspectos de você e exclui outros tantos… A melhor escolha? É sempre aquela que vem de um coração refletido…

Como escreveu Vinicius de Moraes – “Porque a vida só se dá para quem se deu”

Já que o mundo contemporâneo é tão infinito, saiba se abastecer…

Afinal, depois desta crônica você vai fazer o que? Eu estou ouvindo bossa nova. Mas… não é porque está entre as 100 coisas a se escutar que você tenha que escutá-la também.”

(Autor: Manoel Thomaz Carneiro)

(Fonte: www.40forever.com.br)

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