A felicidade é um estado de espírito?

É uma licença poética da realização?

E ser feliz dura quanto tempo?

Somos ou estamos felizes?

Estas são algumas das muitas perguntas que permeiam o sentido da palavra “felicidade”. Entretanto, ela é de fato a soma das pequenas alegrias, não um volume consistente de um grande feito prazeroso. Ou seja, ser feliz é do seu tamanho, expansivo como seu braço aberto, de um dedo médio a outro, como quem se sente abraçando o mundo e sorrindo para as nuvens após absorver a experiência de contentamento de que houve a ultrapassagem do limite ou a quebra de um obstáculo.

Ainda assim, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo; mas percebendo o que está além da euforia, podem-se enxergar as coisas como um vasto horizonte de acontecimentos que por si só já transforma cada momento, porque a tal felicidade não é o que acontece na vida, mas como esses acontecimentos são elaborados.

O budista Roberto Shinyashiki disse que “a diferença entre o sábio e o ignorante é que o primeiro sabe aproveitar suas dificuldades para evoluir, enquanto o segundo se sente vítima de seus problemas”. De fato pode levar algum tempo, mas com algum esforço já se percebe que a vida é muito mais interativa do que simples atos de escolhas. Daí fica mais fácil compreender que não há um momento definitivo de felicidade, mas momentos felizes, e que temos de aproveitá-los para poder desfrutar a vida o melhor possível, sem especular o que já é expectativa e já cumpre seu papel de entusiasmo e excitação.

Enquanto nas novelas e filmes a imaginação vibra com a conquista da personagem, espelha-se ali a vontade de alcançar igual sucesso, quando se aguarda o desfecho como o “grande momento”, onde as coisas especiais vão ocorrer numa espécie de recompensa. Mas lembre-se: a felicidade não é um prêmio. E você pode até estar se perguntar o que fazer com os incensos e brilhos do que sente quando está feliz, mas antes mesmo de um banho de água fria, reaqueça os humores com a certeza de que se pode estar continuamente feliz, aprendendo a fazer disso um movimento constante – e por que não crescente? – lidando com a fluidez de cada circunstância.

No dia a dia, na vida real, o que existe é uma felicidade “homeopática”, distribuída em conta-gotas. Um pôr do sol aqui, um beijo ali, uma boa xícara de café numa mesa de bate-papo, um livro que prende a atenção, um amor que faz sonhar, um amigo que faz rir, etc. São situações e momentos agregados com o cuidado e a delicadeza que merecem alegrias de pequeno e médio porte e até grandes (ainda que fugazes) alegrias. Não que seja preciso contabilizar o tamanho das emoções, mas saber distinguir a intensidade de cada momento é essencial para não se manter alienado no prazer efêmero.

O outro lado da moeda é a espera do “presente” felicidade, aquele que algum dia há de chegar quando o acontecimento esperado tomar forma. E junto com a expectativa do que está por vir, a esperança toma forma de modo a estimular a confiança na realização, ao passo que a frustração já aguarda sentada com certa proximidade, porque a projeção e a expectativa sopram para perto o medo de “nada acontecer” ou de “morrer na praia”.

Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte para alguns que receiam o risco; e faz parte de uma ação positiva o uso moderado da palavra “quando”. Aquela história de “quando eu ganhar na Mega Sena”, “quando eu me casar”, “quando meus filhos crescerem”, “quando eu tiver um emprego fabuloso” ou “quando encontrar uma pessoa que me mereça”, tudo isso serve apenas para distrair e fazer esquecer a felicidade de hoje, que está bem na frente esperando ser abraçada e vivida com plenitude.

E quem for ruim de contas recorra a um caderninho e liste as pequenas felicidades. Podem até dizer que falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os novos tempos, mas tenha fé de que é melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente num compasso de espera.

A felicidade não é, afinal, uma posse permanente porque não dá para estar bem o tempo todo. Mas também não precisa ser uma eterna projeção. Vale a pena passar os olhos no que se tem ao alcance das mãos. Parece simples? E quem disse que não pode ser?

Indicação de Leitura Complementar: “O Sucesso é Ser feliz”, de Roberto Shinyashiki, Editora Gente.

(Autor: Ricardo Branco, Administrador de Empresas e Artista, pós-graduado em Criatividade no Ensino Superior (BR) e Especialista em Estados Cognitivo)
*Artigo publicado com a autorização do autor.

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