Freud em seu tempo já falava das resistências por parte dos pacientes em procurar a psicoterapia. Resistência é o conjunto de reações e comportamentos que criam obstáculos a iniciar ou dar continuidade ao tratamento analítico.

São defesas que o paciente produz para não entrar em contato com conteúdos inconscientes (desejos/ideias que o sujeito conscientemente considera inaceitáveis). Por isso, algumas das hesitações apresentadas são consideradas resistências.

São impossibilidades criadas para não se olhar para as questões internas que desencadeiam sofrimentos. Porém, não olhá-los pode provocar ainda mais sofrimentos. Assim, o tratamento psicoterapêutico envolve lidar com sentimentos que se encontram
escondidos e pensar em formas de lidar com eles.

Seguem as hesitações frequentes em não fazer terapia. O objetivo é desmistificar!

1. Eu já sei a causa do meu problema
Muitos falam que já sabem a causa do sofrimento e acreditam que sozinhos irão resolver. A questão é complicada, pois o psiquismo é algo extremamente complexo.
Nessa explicação, o sujeito pode estar se defendendo. Acreditar dar conta sozinho é se proteger do medo de se deparar com uma parte escondida, não aceita de si mesmo.

2. Eu não estou tão mal
Por que precisa chegar no limite em relação ao sofrimento? O que está envolvido nessa questão? Precisa estar no fundo do poço para se autorizar?

Há algumas frases frequentes utilizadas, tais como “tem tantas pessoas com problemas mais graves, passando por fome e guerras”, “tenho tudo para ser feliz”. São falas que demonstram defesa e não legitimidade no que se sente. Viver implica ter momentos de felicidade, mas as tristezas também fazem parte da nossa existência, por isso precisamos escutá-las e não negá-las.

3. Medo de rememorar o passado
O passado está presente, mesmo quando não falamos dele. Na verdade, é preciso falar sobre o passado para mudá-lo de lugar e enxergá-lo de outras formas. Nesse sentido, a terapia é uma reavaliação dos fatos do passado que nos atormentam, dando a eles outro significado.

Se não enfrentamos os momentos de nossa história, ficamos aprisionados, ou seja, repetimos alguns comportamentos ligados a esse passado mal digerido.

4. Não quero falar de sexo
Outro grande mito que envolve a psicanálise. A sexualidade não está exclusivamente na questão genital, ao ato sexual em si.

Para Freud, a sexualidade está ligada aos nossos prazeres. O prazer oral, de apreciar ou recusar uma boa comida, o prazer escópico de olhar e ser visto, entre outros.

Contudo, a terapia também pode ser um lugar para se falar sobre as fantasias sexuais que não temos coragem de falar para ninguém. É um espaço de escuta, protegido e neutro. Não há julgamentos, pode-se falar sobre tudo.

Isso é o que Freud designou de associação livre, método que consiste no paciente falar livremente tudo que vier à sua mente, tentando não deixar de lado conteúdos que considera irrelevantes ou pensamentos ligados a autocríticas.

5. É muito caro
É uma das principais hesitações em não fazer terapia. Pode ser uma realidade, mas o que é possível fazer? como encontrar alternativas? E se for uma resistência, que função tem na vida do sujeito?

Acredito que muita gente conhece pessoas que não fazem terapia porque acha caro, mas, em contrapartida, fazem cirurgia plástica, viajam todo ano, trocam de carro, etc. Ou seja, é uma questão de escolha e prioridades.

Se pensarmos de outra maneira: não é caro se sentir mal, não é custoso emocionalmente?

Paga-se caro para ter uma vida sem prazer, com sintomas e comportamentos repetitivos. Sem contar nas compras altas de objetos que, muitas vezes, ocorrem para que as faltas emocionais sejam supridas.

6. Será que realmente funciona?
Há muitas pesquisas que comprovam que a cura pela palavra modifica padrões de comportamentos e até mesmo conexões neurais.

No entanto, muitas pessoas preferem se refugiar na insatisfação e conservar os sintomas (velhos conhecidos) do que enfrentar o desconhecido e reconstruir o modo de enfrentar as vicissitudes da vida.

Para funcionar é preciso acreditar e desejar.

7. Como encontrar um psicólogo?
Há muitas maneiras, e uma delas é pela indicação de amigos e conhecidos. Mas, se não souber onde encontrar, a internet é uma boa ferramenta hoje em dia. Ela fornece muitas informações sobre o profissional.

O importante é respeitar o “feeling” dos primeiros encontros. Como se sentiu? O que
pensou durante a sessão?

Foi levantado alguns pontos recorrentes em não buscar psicoterapia. É importante questionarmos o que está por trás disso. Será que é uma fantasia, uma justificativa, uma defesa, um limite, um medo, uma resistência,…? Para cada um há um significado escondido
nas hesitações.

Ainda encontramos muitas fantasias e preconceitos em relação ao psicólogo. O discurso frequente na sociedade em que vivemos do “seja forte”, “você consegue dar conta de tudo” reforçam a fantasia de que o sujeito precisa lidar sozinho. Ele não pode falhar, e, nesse sentido, buscar uma ajuda seria uma sentença de fracasso.

No entanto, olhar para o sofrimento e fazer algo a respeito implica uma certa dose de coragem, e também revela um desejo em se aventurar, pois o processo psicoterapêutico é navegar por águas desconhecidas que podem ser calmas e, por vezes turbulentas, mas necessárias para se chegar num outro lugar.

Referências
revista francesa: Psychologie, janeiro 2017.
Ruth Manus “Jura que você precisa de um psicólogo?”, Jornal Estado de São Paulo dia 11/01/2017,

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Cinthia Vernus Duran

Psicóloga clínica pela PUC-SP há mais de dez anos, com formação em Psicanálise e especialização em Psicologia da Infância pela UNIFESP.
Realiza atendimentos psicológicos online.
Tem vivência cultural na França, e discute sobre a experiência de ser estrangeiro na sua fanpage. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



1 COMENTÁRIO

  1. Adorei o artigo,e fico feliz comigo mesma por não estar dentro desses padrões de resistências ,sempre que preciso de ajuda,
    Pulo qualquer obstáculo é procuro.
    Estar leve e feliz é preciso!
    E é assim que me encontro na terapia.
    Meu muito obrigada pelo artigo.
    🙏🙏🙏🙏

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