Livro que ajuda tecnicamente crianças a dormir ocupa o topo da lista dos mais vendidos na loja virtual Amazon no Reino Unido. “The rabbit who wants to fall asleep: a new way of getting children to sleep”, de Carl-Johan Forssén Ehrlin, também se tornou outro fenômeno: é a primeira obra autopublicada a liderar as compras no site de comércio online. Psicólogo comportamental e linguista, o sueco Ehrlin desbancou obras como “Go set a watchman”, de Harper Lee, recente sucesso norte-americano que vendeu mais de um milhão de cópias na semana do lançamento. As informações são do “The Telegraph” em seu site de Ciências.

O livro já é acessível no Brasil, sob o título “O coelho que queria muito adormecer: uma nova forma de ensinar as crianças adormecerem”. Leitores brasileiros reclamam no site da loja virtual da falta de cuidado na tradução para o português. Porém, de modo geral, os relatos na rede mundial são de que a história surte o efeito desejado. Quando tomei conhecimento do sucesso do coelho, pensei que “o drama da hora de dormir” é que deve estar se tornando verdadeiro fenômeno planetário. 

A hora do recolhimento pode significar momento difícil para as famílias. A companhia de um livro ou o escutar uma narrativa oral costuma colaborar para desacelerar o ritmo das crianças e ajudá-las a entrar em um estágio mais tranquilo, propício ao sono. Parece, no entanto, que a leitura de narrativas imaginativas não tem dado o efeito desejado pelos cuidadores, daí a necessidade de se utilizar obra baseada em pressupostos científicos, com o uso de técnicas que agem de maneira mais rápida na provocação do sono. Há internautas garantindo que o livro faz efeito na segunda página.

Segundo entrevista do autor ao “The Thelegraph”, no texto foram usadas técnicas de reforço psicológico positivas para ajudar as crianças a relaxar, se concentrar e cair no sono. Para conseguir esses efeitos, aqueles que leem são instruídos a bocejar constantemente e levados a enfatizar palavras e a mudar o ritmo da leitura, recorrendo a uma voz lenta e calma quando aparecem palavras em itálico.

Localiza-se na audição o outro truque para induzir o sono, pois, embora o livro contenha imagens, há uma orientação para que as crianças apenas escutem a voz de quem lê. Ajuda também o fato de que a obra permite que a narrativa seja personalizada, pois é possível usar o nome da criança no lugar do personagem, o que aumenta o envolvimento dos pequenos. 

Na mesma entrevista, Ehrlin disse que o livro funciona como um equipamento verbal que se assemelha ao gesto de balançar o bebê para dormir. Ele, que já havia escrito livros sobre liderança e desenvolvimento pessoal usando estratégias similares, explicou que escreveu a história do coelho em um único momento, mas levou mais de três anos para concluir o livro. Precisou estudar maneiras de fazer com que as técnicas utilizadas estivessem corretamente encadeadas.

Publicada pelo sistema CreateSpace, da própria Amazon, que é destinado à autopublicação, a obra tem 26 páginas e já foi traduzida para sete idiomas desde o lançamento em abril do ano passado. Como não fiz o teste para verificar se a leitura é realmente provocadora do desejo de dormir, as vendas me levam a crer que seja uma obra eficiente tecnicamente – refiro-me aos processos indutores da sonolência. Porém sei que existem muitos outros textos disponíveis no mercado que podem ajudar na hora de dormir, mesmo não sendo tão elaborados.

No Brasil – Poucas semanas atrás, o blog recebeu divertido livro induz ao sono, mas sem apelar para tantas ferramentas técnicas. Testei a leitura com duas crianças menores de três anos e funcionou. Trata-se de “Todo mundo boceja” (Brinque-Book), de Anita Bijsterbosch, com tradução de Camila Werner. 

Com narrativa verbal curta e centrada no jogo da reiteração, o livro apresenta diversos animais que estão cansados. Cobra, gato, coelho, porco, crocodilo, hipopótamo, tartaruga, guaxinim, entre outros, todos bocejam. A diferença é que alguns são discretos. Outros abrem a boca de maneira bem espalhafatosa. Diferenças que as crianças demonstraram gostar de comparar ao manipular abas que permitem ver de que maneira cada bicho faz o gostoso gesto de abrir a boca.

Mais indicado como leitura acompanhada, o livro de 32 páginas também pode ser usufruído por leitores iniciantes. O texto visual apresenta desenhos que apelam para o humor, com contrastes cromáticos marcantes. A edição em capa dura apresenta boa engenharia de papel, capaz de resistir ao manuseio feito pelas crianças. 

Monstros – Outro lançamento recente que pode ser útil na hora de dormir é “Tá tudo bem, neném!” (SM), de Emmanuelle Houdart, com excelente tradução do poeta Fabio Weintraub. Monstros simpaticíssimos, como a sereia de mãos ligeiras e o colorido dragão de casaco, se escondem no ambiente em que vive um garoto bem pequeno. Podemos lê-los como sendo os medos que costumam ser vivenciados pelos muito jovens.

Quando o garoto pergunta sobre uma situação pouco familiar, aparece o refrão “Tá tudo bem, neném”, seguido de explicações sobre quem que é o responsável pelo estranhamento. Por exemplo, quando ele indaga: “E no sofá, quem estou vendo?”, aparece a imagem de um sofá colorido visto apenas de costas, do qual se percebe uma forma estranha saindo dele. Vem, então, a resposta: “Tá tudo bem, neném: é a dona unicórnia lendo”.

A narrativa transforma todas as situações esquisitas, situadas entre o universo dos sonhos e o da realidade, em um momento de aconchego para o neném. Logicamente, por apresentar texto verbal arraigado na repetição de uma frase de pacificação, o livro tem o poder de acalmar, relaxar e acolher a criança que escuta a história. O tratamento visual também colabora para esse efeito. Embora os desenhos apresentem tons cromáticos fortes e bem contrastados em uma mesma imagem, o fato de a página que os apoia sempre ser branca ambienta a narrativa em espaço de tranquilidade.

Excitação – Conheço uma menina de cinco anos que manuseia com muita habilidade tablets, acessando jogos. O hábito tem provocado dificuldade para pegar no sono, pois teima em ficar conectada. Sugeri à mãe que lesse para ela “Brinca, menino” (Nova Fronteira), de Letícia Wierzchowski, com ilustrações de Cado Bottega. Minha intenção não foi de que a narrativa provocasse sono, mas pensei que ela poderia, mesmo com tão pouca idade, refletir sobre o próprio comportamento, que deve se repetir em muitas outras crianças. Soube que escutou a narrativa antes de dormir e, a princípio, ficou excitada, talvez por se identificar com o personagem, mas ao final se recolheu para “esperar a imaginação”. 

A narrativa lida concentra-se em uma provocação do narrador ao menino-protagonista, viciado em internet e games. Ele é intimado a brincar, a inventar e a usar a imaginação. “Sai daí, menino, vai brincar, / Desencalha dessa sala. / Vira pirata, rei, maquinista, / sultão ou malabarista, / Vai correr feito um trem-bala”. A expressão “vai brincar” torna-se o mote que ajuda o leitor a perceber que existem outras maneiras de viver. 

Talvez as crianças de hoje tenham mais dificuldade em pegar no sono por brincarem pouco. Quando chega a hora de dormir, armazenam ainda excessiva energia. Acrescente-se a isso a circunstância de que em muitas famílias a disponibilidade dos adultos é pequena no momento de oferecer um tempo à leitura. Está explicada a grande demanda de narrativas que, no lugar de se basearem na força do poético, acionam reforços comportamentais indutores do sono, como no caso do coelho que não é o da Alice. 

(Autor: Graça Ramos)

(Fonte: O Globo)

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