Ninguém admite que sente inveja. Sem sombra de dúvidas, dos sete “pecados capitais” é ela a mais constrangedora. Talvez porque admitir que sente inveja é reconhecer-se inferior ao outro. E sentir-se inferior é admitir a própria incapacidade de superação. Sentir-se inferior é reconhecer a derrota. É como dizer: “não consigo chegar lá”, “não tenho condições de fazer igual” ou “não tenho capacidade”.

Sentir inveja, em resumo, é diminuir-se. E reconhecer-se pequeno é algo que pouca gente quer. Na verdade, ninguém quer. Como diria Francesco Alberoni: “podemos descrever o nosso ódio, os nossos crimes, os nossos medos, as nossas vergonhas, mas não a nossa inveja.” A inveja é constrangedora demais. Então, ao invés de descrever, quem inveja, prefere atacar.

O invejoso agride com palavras. Talvez porque maldizendo, encontre pares que sentem o mesmo e com eles una forças em seu intento de tentar superar sua própria fraqueza. O invejoso é fraco, tão fraco que é incapaz de elogiar, de parabenizar. Ele não “bate-palmas”, não agradece. Seria uma derrota para ele enaltecer as qualidades alheias. Não, isto ele nunca fará. Então, deprecia, ou fica em silêncio, isto quando tem forças para controlar seu ímpeto de destruição.

Sabe, falando nisto agora, lembrei que tenho um livro ótimo, do Zuenir Ventura, que trata com brilhantismo a respeito do tema: “Mal secreto”. Li em 2009 e peguei agora na prateleira para folhear. Lembro o ano, porque quando compro um livro, o anoto na primeira folha junto com meu nome (deve ser “TOC,” mas o bom é que serve para eu saber há quanto tempo tenho a obra). Não sei se ainda há em livrarias, mas pela internet com certeza deve ser possível adquirir um exemplar. Recomento muitíssimo. Esmiúça bem a matéria. É rico em exemplos, a linguagem é simples. Enfim, é um “prato cheio” para quem gosta de estudar a mente humana. Li em uma tarde.

No livro há vários exemplos práticos do que o invejoso e capaz de fazer para destruir o invejado. Sim, o intento do invejoso é destruir. Ele não quer para si, apenas deseja que o outro não tenha. Seja o que for, a beleza, o sucesso, a inteligência, ou qualquer outra coisa que ele acredita que o “vizinho” possui e ele não.

Não é demais lembrar que a inveja é diferente da cobiça (quem cobiça quer para si). A inveja também não pode ser comparada à admiração, embora alguns usem a expressão “inveja branca” quando querem dizer que admiram e que, portanto, estão felizes com o sucesso alheio. Admiração é muito diferente de inveja. Admiração é um sentimento nobre, a inveja é vil. Portanto, o uso da expressão “inveja branca” não é lá muito feliz. Prefira substituir por admiração, que fica mais claro e significa exatamente a mesma coisa.

Leia Mais: Como usar a inveja a seu favor

E a inveja nunca esteve tão evidente. Em tempos de redes sociais ela salta aos olhos. Não são raras as demonstrações públicas deste “pecado embaraçoso”, seja deixando de curtir uma foto que um amigo postou (demonstrando uma conquista, como o nascimento de um filho, um casamento, uma viagem para um país distante, uma promoção) seja fazendo um comentário depreciativo, ou uma piada inoportuna.

Isto tudo porque o invejoso não suporta conviver com as conquistas das outras pessoas, mesmo aquelas mais próximas. Sim, não se assuste, a inveja existe até dentro de sua família. Então, não estranhe quando aquele parente fingiu que não viu ou tentou depreciar algum momento feliz que você postou em alguma rede social. Ele viu sim, mas não vai te parabenizar porque está com inveja.

Outro dia li uma matéria em uma revista sobre o assunto. Era um estudo sobre o que mais irrita os internautas. E para minha perplexidade, não eram notícias sobre calamidades públicas ou correntes do tipo “repasse ou algo terrível irá acontecer”. Eram “fotos de viagens”. Dá para acreditar? As pessoas entrevistadas, provavelmente a maioria, do contrário, não teria sido apontada na matéria como “pior coisa que postam em redes”, não suportam ver os amigos se divertindo nas férias.

Impressionante não é mesmo? Só que é real. A pessoa está ali vendo as fotos, sem dinheiro para viajar, sem saber quanto o outro trabalhou e economizou para aquele momento e sentindo inveja. E o pior é que as pessoas sentem-se tão “ofendidas” com a alegria dos outros, que lembram de citar isto em uma enquete de revista. Que tristeza…

Realmente isto me fez parar e pensar. Para finalizar, fico com a frase de Vera Loyola: “o verdadeiro amigo não é o solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso.”

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Saíle Bárbara Barreto

Advogada. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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