Algo da subjetividade que estava adormecida se desperta a partir da experiência de morar fora. Alguns pontos internos familiares re-aparecem. E esses pontos estão estritamente ligados às características identificadas no novo país.

No início, o novo país é estranho. Estranho no sentido de diferente. Quase tudo causa surpresa, como a língua, a comida, a temperatura, a maneira de se relacionar, os comportamentos das pessoas, a organização das cidades e até mesmo as semelhanças – por incrível que pareça!

Chegamos cheios de ilusões, que vão sendo, aos poucos, desconstruídas. Pensar que o novo país também tem corrupção ou desemprego, nos surpreende porque acreditamos que estamos mudando para um mundo totalmente diferente.

Com o passar do tempo, nos estranhamos novamente. Porém, é de outra forma. Isso ocorre quando percebemos que estamos incorporando o que é diferente, de alguma maneira. Talvez, não tudo. Mas sobretudo aquilo que nos identificamos e que faz sentido em relação à nossa subjetividade, como certos costumes e atitudes.

Por exemplo, quando um comportamento relacionado ao novo país se torna algo familiar: comer pão durante a refeição, queijo antes da sobremesa, parar o carro imediatamente para um pedestre passar, colocar você mesmo gasolina, chamar as pessoas pelo sobrenome (quando não se tem muita intimidade), tirar os sapatos ao entrar numa casa, entre outros.

Além disso, algo muito frequente é quando as palavras se confundem e se misturam de uma língua a outra.

É nesse momento que se pertence a dois mundos. Não é somente o país de origem que define e faz falta, tem outro mundo que começa a ocupar um lugar…

O termo “estranho familiar”, foi utilizado por Freud. Para ele se refere a algo ou situação que consideramos aparentemente incompreensível e estranha, mas que na verdade esconde algo familiar. Quando uma circunstância é inquietante, não é porque ela é diferente do habitual, mas porque traz algo de familiar que estava escondido, algo que estava oculto (reprimido) se revela.

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O que se pode pensar sobre o “estranho familiar” na experiência de ser estrangeiro?

A experiência de ser estrangeiro, normalmente, desencadeia questionamentos subjetivos. Ao se deparar com as diferenças de vida no novo país, muitas dúvidas aparecem em relação às próprias maneiras de se relacionar e de se comportar. A partir disso, movimentos internos e mudanças subjetivas podem ocorrer.

O que no início causava estranhamento pode, com o passar do tempo, fazer parte do modo de vida do estrangeiro.

No entanto, cada sujeito vive isso de uma forma e se identifica com aspectos que dizem respeito à sua subjetividade.

Nesse sentido, viver como estrangeiro pode ser também uma oportunidade para trabalhar e aprofundar questões emocionais, pois muitos sentimentos surgem, alguns re-aparecem, e todos estão à flor da pele!

“Cada viagem me aumenta
Cada rua nova é uma nova chance de me encontrar.”
Zack Magiezi

Referências:

FREUD. (1919) O estranho. In: Obras Completas ESB vol. XVII. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1980.

Citação de Zack Magiezi – https://www.youtube.com/watch?v=Q1AMGjHQ4Os

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Cinthia Vernus Duran
Psicóloga clínica pela PUC-SP há mais de dez anos, com formação em Psicanálise e especialização em Psicologia da Infância pela UNIFESP. Realiza atendimentos psicológicos online. Tem vivência cultural na França, e discute sobre a experiência de ser estrangeiro na sua fanpage. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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