Eu não me dou bem com rótulos, marcas, opiniões formadas, fundamentalismos, conversa de boteco, papo furado, conversa truncada e bofe que se acha, porque eu gosto de ser livre e preciso mais do que coisas baratas, na verdade preciso de essência.

Sou tão livre que me arrisco a expor meus pensamentos, mesmo que esses soam vazios ou vagos pelas pessoas.

Entre a opinião do outro e a minha, eu vou arriscar em mim, porque eu sei o que carrego dentro dos meus sentimentos e do meu coração.

Eu sou uma mona gay! Isto mesmo, sou mulher gay! Não sou bi, não sou homo, não sou hétero, sou gente. Não me importa o que as pessoas à minha volta são, pois para mim elas são gente como eu. Não presto muita atenção se são gays, doutores ou nada, pois prefiro vê-los como gente.

Sou tão gay, tão bi e tão hétero, que esqueci qual é o meu sexo. Sou mulher, porque desde a existência do mundo convencionaram a me chamar “mulher”, eu poderia chamar homem, coisa, tiquinho, mas me deram o nome “mulher”. Está tudo bem eu aceito, mas a minha essência é livre.

Ontem a noite eu li o artigo “Melhor bicha do que bicho – sobre a estupidez homófoba masculina” do meu amigo escritor Gustl Rosenkranz, e naquele momento eu pensei: é isso aí, melhor ser gente do que bicho.

O preconceito acerca da homossexualidade, da raça, da etnia, da religião e do diferente ainda é gritante no mundo. Quantas pessoas morrem massacradas todos os dias devido a tantas resistências e a tantos fundamentalismos.

Mas se somos gente, por que o mundo ainda cisma em tantas desigualdades para nada? Por que o mundo ainda é cruel e maldoso com relação as pessoas que gostam do mesmo sexo ou transitam entre hétero e homo? Se o amor fosse dever de casa, meta para dias melhores, prioridade para a vida, não existiriam tantas repulsas sacanas matando o próximo.

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Muitas pessoas podem não entender meus sentimentos, meus pontos de vistas, meu jeito de ver a vida, mas eu vejo amor, vejo tanto amor (sem pieguice), que não vejo o sexo das pessoas, porque para mim o mais importante é a essência, o que elas carregam dentro delas.

A maioria dos meus amigos são gays, entendidos, bichas, botas, mas não são bichos. São pessoas melhores do que muita gente esparramada pelo mundo que prega bondade da boca para fora.

Eles sabem doar amizade verdadeira, amor a qualquer hora e ainda me dão colo. Eles são meu porto-seguro, e se alguém ameaçá-los com piadinhas de mau gosto, rótulos baratos ou vier com preconceitos absurdos, eu não escuto, porque sei dos conflitos que eles vivem numa sociedade ainda retrógrada, machista e cheia de achismos.

Não ser hétero, não ser branco, não ser pink, não ser religioso, não ser isso ou aquilo, não ser alguém dentro dos padrões convencionais ainda é motivo de muita especulação pelo desconhecido.

Realmente não é fácil ser gente diferente, mas é melhor do que ser alguém que não sabe amar incondicionalmente, que julga, que exclui, ou que sacrifica o outro.

Ser gente com nuances diferenciadas, enfrentar uma sociedade cheia de máscaras e falsos pudores, ter coragem de ser ele ou ela de corpo e alma, não é para qualquer um, é para quem tem a capacidade de dizer sim, que se assume sem qualquer preconceito ou vergonha, e sabe amar loucamente sua essência, sua essência.

Melhor ser gente na essência do que gente que não dá conta de si mesmo. Melhor ser gente do que ser imitação de homem ou mulher. Melhor ser bicha, bota, hétero, negro, bi, trans, etc do que alguém que não sabe amar, que não entende o significado de “respeito pelo outro”, e não entende nada sobre viver de fato.

É muito retrógrado em plena modernidade ver um mundo que atira pedras, que discute o sexo dos anjos, e que ainda insiste em preconceitos.

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É muito triste deparar com os maus tratos e sarcasmos entre as pessoas, porque no fundo todo mundo é gente e igual. A alma não tem sexo, não tem cor, não tem cheiro e nem faz questão de se mostrar, então pare com esse lance de rotular as pessoas, por favor!

Temos o mesmo sangue que corre nas veias, apenas somos gente com diferentes tonalidades; com jeitos de ver, sentir e viver a vida e ninguém deve tratar o outro como bicho ou estranho, porque existem gostos diferentes e de todos os tipos.

Que ninguém trate o outro como bicho, porque não se enquadra nos padrões criados pela sociedade desde que o mundo é mundo. Todo mundo merece respeito e ser amado como é, e ninguém merece qualquer desrespeito ou indiferença.

Gente com orgulho de ser gente na essência incomoda muito. Já que é para intitular… eu sou mona gay e gente, aliás sou mais gente do que rótulos, marcas e apelidinhos de mau gosto. Só não carrego a bandeira gay, porque já está cravada no meu coração, e meus amigos gays (gente) sabem disso muito bem.

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Simone Guerra
Professora e colunista do site Fãs da Psicanálise.

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