Ninguém é feito para ninguém. O mundo não é uma enorme caixa com milhões de pares de sapatos com somente dois de cada número, nos levando a uma busca incessante e insana por encontrar o par certo. O mundo está mais para uma enorme caixa com milhões de meias – não sapatos – e mesmo que você pegue o par do número errado, é só esticar um pouquinho ou usá-la um pouco que ela se molda ao seu pé. Mas no fim das contas, você pode escolher qualquer meia, porque, com boa vontade, ela vai te servir. Apertada ou larga, mas vai servir.

Essa falácia de almas gêmeas e de “nascidos um para o outro” pode ser ótima para se escrever textos românticos ou para convencer a sua namorada de que a Marilene não significou nada, que foi só sexo, e que mesmo o sexo nem foi lá essas coisas, ela não aguentou o peso dos seus ombros para fazer o Maquinista Marroquino e achou o Escanteio no Segundo Pau algo muito arrojado. Mas na vida real, no plano adulto de tentar fazer um relacionamento dar certo sem ajuda divina ou de falas de comédias românticas, esse papo de almas gêmeas fica lá fora da porta, junto com a fada do dente e o deputado ficha limpa.

De nada adianta você achar que encontrou a sua alma gêmea e não se esforçar para fazer dar certo. É como levar jeito com animais e achar que isso faz de você imune a veneno de cobra. É preciso muita paciência, uma boa dose de boa vontade e entender que ceder faz parte, que ceder não é perder, que ceder é ganhar, é poupar o casal de uma talvez infrutífera discussão ou uma inevitável briga. Ninguém precisa namorar um clone seu, alguém que concorde com tudo o que você faz o tempo todo. Pelo contrário. É perfeitamente possível se relacionar com alguém que discorde de você o tempo todo, que odeie tudo o que você gosta, que goste de tudo o que você mais abomina. É só ter respeito e não tentar impor sua opinião ou pensar que a outra pessoa está errada – só por não concordar com você.

Aliás, tentar entender que estar certo é menos importante do que evitar uma briga que vem dobrando a esquina, se esgueirando por trás do “você sabe que to estou certo”. Nenhuma alma gêmea sobrevive a um relacionamento onde alguém quer estar certo o tempo todo. E falo isso por experiência própria, porque eu só não sou o tipo de pessoa que “acha” que está sempre certo, porque eu sou o tipo de pessoa que sabe que está sempre certo. Mas em um relacionamento, eu tento deixar essa minha sapiência sobre-humana de lado, em prol de uma convivência saudável e pacífica. É fácil? Não, na maioria das vezes eu não consigo. Mas é mais fácil se esforçar, tentar, do que se esconder atrás da baboseira de achar que vocês são almas gêmeas e que por isso vocês vão ficar juntos para sempre, não importa o que aconteça. Duas pessoas que querem, que tem vontade e se esforçam, vão ficar juntos de qualquer maneira, por mais diferentes que elas sejam. Esforço principalmente para realizar o Maquinista Marroquino sem um banquinho para apoiar as costas. Esforço é a chave para tudo.

 

(Autor: Leonardo Luz é escritor e roteirista)

(Fonte: http://www.entendaoshomens.com.br)

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