O preço da independência de uma mulher varia conforme o local e o ano de nascimento. Mas uma coisa eu garanto: nunca é pequeno o valor que uma mulher paga para ser dona da própria vida.

A maioria dos homens nunca vai entender isso. Algumas mulheres distraídas também não. Mas quem sente isso na pele, vai. Ah, se vai.

Homens não entendem porque simplesmente não convivem com essa ameaça.

Eles sabem que, a partir do momento em que saírem da casa dos pais, são donos da própria vida. Eles não sentem que devam algo a alguém a partir disso.

Já as mulheres não. E não estou falando apenas do velho clichê de sentir-se dependente de um eventual marido. Estou falando de muitas outras coisas.

Do poder que toda a família segue exercendo sobre a vida de uma mulher adulta; dos olhares e frases atravessadas que seguimos recebendo de fiscais não autorizados a policiar nossas vidas, mas que mesmo assim o fazem: colegas, conhecidos, parentes distantes, pessoas que nunca vimos antes. É como se a vida do homem fosse vida privada e a vida da mulher fosse vida pública.

Tudo começou com as mulheres que decidiram não se casar. O preço? Um eterno rótulo de falhada, independentemente do fato de ser uma opção. Olhares de frustração vindos de todos os familiares.

A sensação de ser diariamente questionada se ela não era boa o bastante. Era assim em 1940 e segue sendo muito semelhante. Homem que não casa é bon vivant, mulher que não casa é perdedora.

Depois vieram as que não tiveram filhos. Estas pagam seu preço diariamente respondendo perguntas indiscretas, questionando se foi uma estranha decisão ou uma lamentável limitação física. E se disserem que foi por opção, o cheque dobra de valor.

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Você vai ficar sozinha, seu marido vai se arrepender, você não sabe o que está fazendo, filhos são o verdadeiro sentido da vida. Homem que não tem filho é porque a vida não quis, mulher que não tem filho é porque é egoísta.

Na sequência, estão as que dedicam-se com afinco à própria carreira. Este preço disparou ultimamente. Centenas de dedos são apontados para o seu rosto: ambiciosa, workaholic, gananciosa.

Quem cuida dos filhos dela? Quem cuida do casamento dela? Onde ela pensa que vai chegar com tudo isso? Homem bem sucedido é homem de sucesso, mulher bem sucedida é mulher que sacrifica a família.

Já as mulheres que ganham muito dinheiro, são cobradas muito além dos seus tributos. Ouvem com frequência: você vai afastar os homens desse jeito; é melhor disfarçar para não parecer arrogante; por que você não se contenta com uma vida normal? Homem que ganha muito é porque merece, mulher que ganha muito é porque deu sorte.

As divorciadas, embora muito frequentes, seguem pagando um preço salgado que não muda desde a década de 60. O sentimento de decepção por parte dos parentes mais velhos. A descrença dos pais de que tudo possa acabar bem.

Os “amigos” dizendo que ela vai se arrepender, que ela nunca mais vai encontrar alguém tão legal quanto ele. Homem divorciado é homem corajoso, mulher divorciada é mulher sem juízo.

As mulheres que viajam sozinhas se arriscam. As que fazem qualquer projeto que não envolva os filhos são péssimas mães. As que têm um relacionamento sério mas optam por não casar estão sendo enroladas. As que nunca param de estudar estão atrasando a vida da família. As que ganham o mundo, perdem a própria vida pessoal. As acusações nunca terminam.

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O preço de ser uma mulher independente é o de ter que viver parcialmente anestesiada, para aguentar o bombardeio diário acerca de cada uma das decisões que tomou na sua vida.

É ter que habituar-se aos olhares, às sobrancelhas arqueadas, às frases feitas e aos conselhos inúteis, ainda que muito bem intencionados. É preciso estar disposta todo santo dia. É preciso querer muito e conformar-se com o fato de ter que pagar valores altos para ter o simples direito de seguir com a própria vida.

Autor: Ruth Manus

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4 COMENTÁRIOS

  1. Tenho 26 anos, sou formada, moro sozinha, trabalho e posso dizer que não sei dizer a que peso o texto se refere. Não vou negar que nós mulheres trazemos um contexto histórico de opressão e discriminação, seria negligencia de minha parte. Mas não sou distraída, apenas foco em meus objetivos sem dar tanta importância para o que as pessoas pensam ou deixam de pensar. Aprendi a acreditar em mim e percebi que posso ser dona de minha própria vida sem me preocupar com quem nem sequer me acrescenta algo. Falta acreditar em sí mesmas e olhar pra frente. Temos o poder, basta reconhecê-lo.

  2. Tenho 39,solteira,sem filhos,moro só e sou independente financeiramente..Me identifiquei com muitos aspectos do texto.Realmente isso acontece,independentemente da intensidade do grau,mas acontece.
    Pessoas se sentem ‘ameaçadas’,inclusive outras mulheres(inveja talvez?)com esse estilo de vida.Eu gosto de ser como sou e sempre quis ser assim desde criança.O preço talvez possa ser alto,mas vale muito a pena ser quem realmente somos.Essa coisa de ser algo pra agradar a sociedade é muito demodê…

  3. Tenho quase 50 anos, sou divorciada, independente. Não percebi na minha vida essas cobranças não. Se alguém me pergunta algo que acho que devo responder, respondo, mas sem ficar incucada comqual proposito veio a pergunta. Me preocupo com meus sentimentos e com o que eu quero e como vou fazer para conseguir. Acredito muito que é questão de foco. O que os outros pensam pertecem a eles. Só tenho algum controle sobre mim.

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