Em quase todo lado, os debates sobre os conceitos ética e moral já são um hábito. Em muitos casos, acompanhados de redundantes discursos, teorias sobre a questão ética e moral são, de forma especulativa, atreladas a suposta crise de valores que assombra a contemporaneidade. É um debate, em meu ver, paradoxal, na medida em que os seus autores limitam-se a uma mera construção de argumentos teóricos desprovidos da prática.

Nas academias, os centros de debate de ideias e produção de soluções, o cenário é mais incoerente ainda. A ética é entendida meramente como uma cadeira didática, abstida da prática e sem função pragmática. Esta perceção, pressuponho, está na ordem do gradual desinteresse pelos reais fundamentos da ética.

Na verdade, este desinteresse generalizado está na ordem do fracasso da ética no que respeita aos seus objetivos enquanto ciência, referentes à reflexãosobreo conjunto de valores que orientem a nossa vida enquanto sociedade.


As questões “o que é a ética?” e“O que é a moral?” serão sempreatuais, na medida em que arrastam-nos a uma reflexão sobre a nossa condição existencial enquanto membros de uma comunidade. Como quaisquer outros, estes dois conceitos (ética e moral) estão sujeitos a mudanças, resultantes da sua evolução durante os vários períodos da humanidade.

Henrique Cláudio de Lima Vaz, em sua obra denominada “Introdução a Ética Filosófica”[i], demonstra a deterioração semântica do termo ética na sua migração incessante por tantas formas diferentes de linguagem, isto no contexto contemporâneo.

Para o autor, tentativa de definir os conceitos ética e moral de forma concisaobriga-nos a voltar aos clássicos para buscar a figura de Aristóteles, considerado o primeiro pensador ocidental definir com precisão os termos.

Para Aristóteles, citado por Vaz, o termo “ethos” pode ser traduzido como “exercício constante das virtudes morais”, ou seja, como uma prática investigativa sobre os costumes. A moral, por sua vez, é de origem latina e tem como base etimológica o termo “mores”, oriunda da palavra grega “ethos”. Assim, podemos concluir que ambos termos tiveram sempre algo em comum no que concerne a sua etimologia, de tal modo que por muito tempo foram indissociáveis.

A tendência de separar a ética da moral, prossegue Lima Vaz, surge na época contemporânea. A ética passa a designar o estudo do agir humano social e a moral, por seu turno, é conotada como estudo do agir humano individual. Assistimos, com isto, a morte do cidadão para o nascimento do indivíduo.

O protótipo de homem clássico é intrinsecamente ligado à sociedade. Este homem deseja, antes de mais nada, o bem coletivo em detrimento do bem individual, é por excelência cidadão.

Em contra partida, o protótipo do homem contemporâneo não mais apresenta estas características, pelo contrário, este move-se pelo interesse individual, buscando a satisfação do seu “Ego” e não da sua comunidade, é por excelência indivíduo.

Neste contexto, a ética contemporânea, como um campo de reflexão das ciências sociais, posiciona-se contra variedade de tendências morais derivadas do pluralismo cultural. No seio de uma mesma sociedade, encontramos correntes morais diferentes que se formam a partir de juízos de valores recebidos por cada sujeito em seu ciclo de convivência. A imparcialidade exigida na ética faz com que nenhuma dessas vertentes morais seja assumida como sendo a melhor.

Luta, outrora, travada por Sócrates, Platão e Aristóteles contra a sofística, num projeto que visava postular um Bem Universal (a Eudaimonia)emdetrimento do relativismo sofista.


Nos nossos dias, este debate volta a ser ponto fulcral de toda reflexão ética, num momento em que o mundo começa a notar as consequências que podem advir da adoção de uma moral relativista.

Hans Kung – filósofo, teólogo e escritor suíço – propõem-nos o projeto “ethos mundial”, um espaço para o encontro de pessoas de diferentes culturas, religiões e origem étnica num mundo globalizado. Kung acredita que os valores fundamentais devem ajudar a resolver problemas globais, para além das diferenças culturais, nacionais e religiosas.

Na sua obra, intitulada “Projeto de Ética Mundial.Uma Moral Ecumênica em Vista da Sobrevivência”[ii], o autor estrutura a sua linha de pensamento em três temáticas; nomeadamente a) não se pode pensar numa sobrevivência condigna sem “ethos mundial”, b)não haverá paz no mundo sem diálogo entre as religiões, e c) sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as mesmas.

A proposta de Kung parece, até certo ponto, mera utopia, mas quando analisada profundamente observa-se quão importante a mesma pode ser no paradigma atual.

Estabelecer um diálogo entre as diferentes culturas, religiões e etnias pode constituir a pedra filosofal na luta contra a suposta crise de valores que apoquenta a época contemporânea.

Para a realização do tão aclamado diálogo é necessário que haja, acima de tudo, um respeito pela diferença, uma capacidade de aceitação da diversidade cultural, religiosa e étnica. É primordial que se abandone qualquer manifestação de um etnocentrismo, a caduca e deteriorada ideia da superioridade de algumas culturas sobre as outras.

Não existem culturas, religiões e nem etnias mais importantes que as outras. Pelo contrário, se por um instante respeitássemos a única dádiva que nos diferencia dos outros animais – que é a capacidade de raciocínio – perceberíamos que no fundo todas as diferentes culturas, religiões, e etnias tendem ao mesmo fim, estabelecer valores, princípios e uma identidade no homem contemporâneo. A aceitar a diferença é a condição sine qua non para no quadro da basca por solução no paradigma ético contemporâneo.

Bibliografias consultadas:

[i]LIMA VAZ, Henrique Cláudio, Introdução a Ética Filosófica, 4 ed. Belo Horizonte, 1999 VAZQUZ, Adolfo Sanchez, Ética, Civilização Brasileira, 2000

[ii]KUNG, Hans, Projeto de Ética Mundial. Uma Moral Ecumênica em Vista da Sobrevivência Humana. São Paulo, Paulinas, 1993.  ISBN 85.05. ( Título original: ProjektWeltethos, 1990.)

 

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Estêvão Azarias Chavisso
Jornalista, da Agência Lusa ( Agência de Notícias de Portugal), delegação de Maputo (Moçambique). “É um menino, igual a tantos, apaixonado pela escrita e cheio de sonhos. Sem grandes pretensões, escrevo o que sinto emotiva e apaixonadamente. A tinta é a dor e a fonte é o coração”. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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