É unânime a ideia de que a época em que vivemos mudou, por completo, o paradigma das nossas relações afetivas.

Da Ásia até à Europa e da América até à África, certamente, corroboramos todos com a nova visão que compreende o mundo como uma “grande aldeia global”, um espaço que, fazendo uso do poder da era digital e das anuências da globalização, cria plataformas de debate dinâmicas e de difícil controle.

Instantaneamente, a informação está em todo lado e, de certo modo, aberta ao questionamento, num debate aparentemente livre e que desafia as formas convencionais da comunicação.

Os homocíclicos, evidentemente, sofrem influências destas mudanças e, num processo que atravessa fronteiras, é questionada a sua capacidade de responder às exigências dos novos ventos.

Mais do que o direito à opinião, às pessoas são hoje incumbidas o dever de assumir uma posição ativa nas suas próprias vidas, debatendo os seus problemas e questionando as suas formas de organização social.

O amor, tema controverso e que atravessa épocas na história da humanidade, também é obrigado a reinventar-se diante de uma mundo dinâmico e que, à luz dos novos ventos, questiona a fundamentação de qualquer conceito que o homem pressupôs entender.

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As nossas relações afetivas são espicaçadas e, sob espetro de um profundo questionamento, desfazem-se aos pés do homem desesperado dos nossos tempos, revelando a debilidade de um protótipo que fracassou perante o mais enigmático mistério de sempre, o tempo.

É o que Geanni Vattimo chamou de Época do Pensamento Débil. É um período caracterizado pela superação contínua. Em outros termos, é o movimento desenfreado que questiona continuamente os fundamentos de tudo, procurando ultrapassar o que foi comumente assumido como verdade.

Como diria Nietzsche, é a Radicalização – uma imposição que tem por consequência o Niilismo.
Ora, se o amor romântico fracassou, como afirmara, a crise é iminente. Mais do que uma crise de valores, como normalmente é declarado, trata-se de uma crise de referências, na medida em que descobrimos que a verdade que pensamos conhecer é uma fantasia.

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Os alicerces que, por séculos, fundaram as nossas relações afetivas mostram-se débeis perante o novo mundo, justificando, em muitos casos, as cíclicas desilusões nas nossas relações afetivas.

Confrontados com o novo paradigma, a aflição toma conta de nós e, sem qualquer recensão, abraçamos primeira ideia que nos parece minimamente plausível. Amamos o primeiro que nos parece próximo das nossas idealizações, sem um posicionamento crítico e sem, pelo menos, questionar o que realmente é o amor.

É uma crise à escala mundial, resultante do medo que hoje temos de encarrar a realidade cruel do absurdo existencial. Mesmo no meio de tantas pessoas, enquanto os fundamentos das relações afetivas continuarem débeis, o homem sentir-se-á solitário e, como ontem, a invenção de subterfúgios será incapaz de eliminar o nosso mais temido inimigo, a solidão.

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O Facebook, o Twitter e o whatsapp, na verdade, é tudo um grito de um homem desesperado, um clamor de quem, a todo custo, quer fugir da solidão e, para tal, não vê limites, tanto que até fantasia intimidade do modo mais desprezível possível.

É tudo uma tentativa deprimente de estabelecer uma lógica à existência e fugir da miserável solidão que nos acompanha no cotidiano, mesmo no meio da multidão.

Trata-se, na realidade, de mais um débil subterfugio, criado por nós mesmos (usando uma linguagem bíblica) à imagem e à semelhança de tudo o que nós queríamos ser, mas não somos.

Somos covardes de mais para aceitar a verdade e, como no Mito da Carverna, de Platão, as sombras parecem-nos mais familiares do que as imagens verdadeiras, na medida em que, por muito tempo, a escuridão foi o nosso mundo.

Assim sendo, reinventar o amor não será tarefa fácil. Pelo contrário, exigirá, antes de tudo, a coragem para aceitar a nossa medíocre condição, rompendo com toda uma tradição idealista que fundou a nossa educação.

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É preciso desdramatizar uma ideia que, durante séculos, orientou as nossas vidas. Em outros termos, somos chamados a desconstruir o castelo de areia que decorou os sonhos da nossa humilde infância.

O amor fracassou e, à luz dos novos tempos, reitero, somos intimados a reinventar os fundamentos das nossas relações afetivas.

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Estêvão Azarias Chavisso
Jornalista, da Agência Lusa ( Agência de Notícias de Portugal), delegação de Maputo (Moçambique). “É um menino, igual a tantos, apaixonado pela escrita e cheio de sonhos. Sem grandes pretensões, escrevo o que sinto emotiva e apaixonadamente. A tinta é a dor e a fonte é o coração”. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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