“O mal-estar na sexualidade” pode parecer uma afirmação contraditória se levarmos em conta que, aparentemente, em nenhum outro momento histórico, a sexualidade esteve tão explícita no discurso e no comportamento popular.

Entretanto, é preciso analisar melhor a relação estabelecida entre excesso e falta, e dessa maneira, não parece ser verdadeira a compreensão de que a sociedade contemporânea está em um oásis de plena vivência sexual. De modo geral, carecem práticas qualitativas no âmbito afetivo-erótico-sexual em que a procura da obtenção do prazer se faz de profundas e íntimas relações humanas.

São muitos os fatores que ajudam ao alcance de uma satisfatória vivência afetiva-sexual, dentre eles aspectos psicológicos, sociais e biológicos, em uma rede complexa de relações. Entretanto, para iniciar o debate, vamos destacar alguns pontos:

Conhecer e legitimar os próprios desejos

Assim como qualquer relação humana, seja sexual ou não, a presença de um sincero envolvimento de todas as partes sempre é produtiva.

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Principalmente em âmbito afetivo-sexual, questão de tamanha intimidade, ser sincero com os próprios desejos, vontades, limites, e comunicar ao parceiro, parece ser um caminho para uma boa experiência.

Entretanto, para comunicar o desejo é necessário primeiramente saber do próprio desejo, é preciso minimamente se conhecer para depois poder desfrutar com o outro e aprimorar a relação conjuntamente.

Hipocrisia Puritana em pleno século XXI

Muito da dificuldade de uma vivência adequada da sexualidade se deve ao sentimento de culpa interna, interpretando o desejo sexual como algo perverso que não deve ser sentido. Nesse aspecto, o cristianismo arcaico contribuiu para a sexualidade ser colocada como algo pecaminoso, já que no contexto medieval ela era compreendida como uma força que poderia distanciar o homem de Deus.

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Entretanto, sabemos hoje, que a sexualidade é algo divino, assim como o amor dito por Rita Lee (1), e corresponde à própria existência humana, um elemento psicossocial essencial para a saúde mental, como bem apresentou Freud (1856-1939).

Ir contra elementos constitutivos é ir contra a própria humanidade, desembocando na impossibilidade de uma vivência saudável e, além disso, abrindo caminho para doenças psicossomáticas, transtornos ansiosos, comportamentos agressivos e antissociais em um movimento inconsciente projetivo de atacar no outro o que não suporta em si mesmo.

Vivência sexual saudável

Um bom caminho para o início de uma sexualidade saudável, prazerosa e humana é encará-la sem culpa, sabendo onde está o desejo, refletindo a partir de elementos afetivos, sexuais e eróticos.

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Parece tão simples, não é mesmo? Talvez pareça simples por ser algo simples, afinal é elemento constitutivo do ser humano que precisa simplesmente ser vivenciado de modo sensível e existencialmente acolhido como parte de todo desenvolvimento.

Educação Sexual

Conhecimento sexual e afetivo não é algo individual, apenas. As ciências humanas e da saúde podem contribuir com o conhecimento adquiridos durante tantos séculos.

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É extremamente adequado se pensar no esclarecimento, também em âmbito educacional, das questões humanas, nas quais a sexualidade se insere. O resultado é a formação de uma sociedade mais atenta ao seu próprio desejo, potente à decisão e ao acolhimento de suas vivências subjetivas, afetivas, sexuais e humanas; algo essencial para o desenvolvimento físico e emocional e forte ferramenta para promoção e prevenção da saúde, e isso é muito sério.

Talvez a mudança tendo a qualidade afetiva-sexual como paradigma esteja, em forte sentido, vinculada ao seu fortalecimento enquanto questão humana por excelência.

(1) Uma bela sugestão de produção artística para complementar esta discussão é a música “Amor e Sexo”, Rita Lee (2003).

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo Clínico de Orientação Psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP. Graduado pela PUC-Campinas. Mestrando pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara. Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



2 COMENTÁRIOS

  1. Gostei do seu artigo, e acho que o grande problema das pessoas com relação a esse tema é querer unir sexo e amor num relacionamento e a longo prazo. Ambos são distintos, podemos amar pessoas que não nos relacionamos no dia a dia, podemos continuar amando pessoas que não vemos mais, o amor romântico normalmente vai pela vai pela via do condicional, da retribuição, da reciprocidade mas existe o amor incondicional aquele de mãe ou pai para filho, o amor ao próximo…. E podemos nos relacionar sexualmente sem amar pois sexo é instinto animal e somos animais, porém, sentimos o tal do prazer, que é um conjunto se sensações desde a primeira mamada. É algo muito maior que apenas a satisfação de uma necessidade básica de sobrevivência e passamos a vida toda em busca dessa sensação…aí entra “principio do prazer”, e também a teoria “além do princípio do prazer”. Sexo e prazer são distintos, sexo nem sempre é prazeroso e o prazer não existe apenas com o sexo (e colocar o afeto no meio complica mais ainda). Portanto essa equação ainda não tem uma solução adequada. Muito liberalismo gera o caos, por isso existe a ética, o respeito ao espaço do outro, etc… Muito conservadorismo gera caos interior,rs. O equilíbrio é sempre um bom caminho para tentar atender todas as demandas. O ser humano ainda carece de saber de si, e saber de perceber melhor o outro. Concordo que o autoconhecimento é a chave para muitos dos problemas e a informação na formação do sujeito é imprescindível, já que somos constituídos a partir do outro, até sabermos quem realmente somos, o que realmente gostamos de verdade demora….rs

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