Há uma dinâmica muito frequente que marca o fim de algumas relações; um sai ofendido, chocado com a separação repentina, e a partir daí, começa a armar desculpas para se convencer de que sua cegueira era por conta do amor exacerbado, que não o permitia enxergar um palmo à frente do beijo.

O outro, solicitante do rompimento, sai convencido de que fez o melhor, mesmo sabendo que foi ausente e desinteressado. Esse último, se despede vazio de sentimentos, consciente dos atos, e age como se estivesse resolvendo pendências burocráticas numa repartição pública. Sabe que vai dar dor de cabeça, mas executa cada passo com desenvoltura.

A frieza com que se desprende é de causar espanto e raiva. Junta um punhado de camisas numa mochila, recolhe os livros favoritos na estante, enquanto o outro observa paralisado e incrédulo. A cena repete a mesma impotência que sente as vítimas de um assalto. Sendo que neste caso, viola-se o bem maior, a confiança, que foi conquistada com a convivência.

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Esse é o pior tipo de separação. Quando se convive sob um teto aparentemente sólido, com as certezas todas no lugar, os sentimentos bem ordenados e os defeitos compreendidos como a atração da diferença. Tudo devidamente equilibrado, como se não houvesse motivo para um ruído maior. Como se o silêncio apaziguasse as dúvidas.

A relação acaba com a retirada brusca dos pertences. Não há uma conversa anterior para discutir os detalhes do rompimento. Acontece uma fuga premeditada, onde um resolve demonstrar que se cansou do outro e não o quer mais em sua vida. Não estabelece uma conversa para não ter de engolir as promessas que fez. Não quer a pecha de mentiroso, mesmo sabendo que é a vestimenta que lhe cai bem. Foge para não ter que explicar as próprias imperfeições, que o outro ajudava a ocultar por entender que o amor torna as falhas invisíveis.

O golpe mais duro é aquele que não se espera. A retirada dos objetos é a prova de que não haverá mais solução. A paralisia neste momento é uma forma de compreender o que não estava claro antes. O que não foi verbalizado. A busca por sinais que expliquem o trágico desfecho é quase uma reconstituição de crime.

O silêncio faz o papel de mediador. Enquanto o outro se afasta e fecha a porta sem olhar para trás, o que ficou desaba no choro. Recita o “foda-se” sem moderação, mas demonstra que a atitude mais sensata é não pronunciar mais o nome, não ver, não gritar que vai esquecer, não insinuar que está esquecendo.

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Divulgar as ações, demonstra que a superação será mais difícil porque ainda faz tudo sob o domínio da raiva. Porque ainda não acredita que acabou. No fundo, torce para ter uma chance de reconciliação.

Esquecer é uma atitude gradual, não é simplesmente ato que se consuma pela fala. Parar de falar que vai esquecer é o começo da superação.

Esquecer é olhar para o passado com a certeza de que foi como era pra ser. Cumpriu-se ali um destino, que não incluía sua felicidade.

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Acabou e não merece propaganda nem atenção nas redes. Não merece uma linha sequer do seu pensamento. Só o esquecimento. Certeiro. Sem meias palavras. Sem arrependimento. O ponto final sem queixas.

Não expor como a dor da frustração transformou algo dentro de você, tornando – o mais forte e cauteloso, é um sinal de que você compreendeu que aquela relação tinha prazo de validade, mas a sua vida continua

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Ester Chaves
Ester Chaves é escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-Graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. É colunista nos sites “CONTI outra, artes e afins”, “A Soma de Todos os Afetos”, “Escritos Meus” e “Fãs da Psicanálise”.



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