“Nem mesmo o encontro com a morte real pode ser pensado isento da obtenção de prazer”.

Ficamos abismados quando lemos no noticiário casos de suicídio. Podemos até chegar a conclusões precipitadas e selvagens quanto aos motivos que levaram a pessoa a tirar a própria vida. Muitas são as especulações, mas, na realidade, o ato suicida é uma das formas particulares do sujeito lidar com o seu sofrimento.

Algumas vezes, buscamos o prazer para evitar sofrer. Como a maioria imagina, o prazer pode-se originar de inúmeras maneiras: com exercícios físicos, degustação, sexo, música, leitura, conversa, abusos de substâncias psicoativas (drogas: álcool, medicamentos…) e até trabalho. E para obter estes momentos de alívio da angústia (que é viver) liberamos energia e morremos aos poucos. São pequenos sacrifícios pela busca da satisfação.

Contudo, a palavra que acostumamos a dizer para nos referirmos há um desconforto ou falta de prazer seria a “dor”. Mas, sabemos, porém não admitimos que a dor também pode ser uma fonte de prazer.

A Psicanálise foi o método que estudou a fundo este fenômeno, conhecido como masoquismo. Já o prazer obtido pela causa da dor em outras pessoas seria o sadismo.

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Freud, no texto “O problema econômico do masoquismo”, diz que, primeiro, a pulsão de morte precisará ser endereçada a algum objeto exterior à pessoa e que resquícios desta “força” ficam no sujeito produzindo efeitos de sofrimento e de prazer, ou de satisfação libidinal. Esse resto de pulsão de morte que permanece no sujeito como objeto nomeou-se masoquismo.

De algumas possíveis formatações para o masoquismo, nos atentemos ao masoquismo moral. Este, de acordo com a Psicanálise, seria aquele que funcionaria como um empuxo a praticar atos considerados criminosos e que colocam o sujeito na condição de ser punido por uma consciência sádica.

“O masoquista moral não conhece limites e buscará toda situação em que possa encontrar o sofrimento, porque é no encontro com este que ele também encontrará prazer”, diz os pesquisadores Liliane M. A. SilvaI e Luis Flavio CoutoII no artigo “A questão do suicídio: algumas possibilidades de discussão em Durkheim e na Psicanálise”.

Mas, voltemos a Freud. Nesse mesmo texto, “O problema econômico do masoquismo”, ele revela que nem mesmo o encontro com a morte real pode ser pensado isento da obtenção de prazer. Sua hipótese é que a meta da vida é a morte e, sendo assim, há um movimento do orgânico em direção ao inorgânico.

Lacan reconhece no suicídio uma singularidade:

“é precisamente a partir do momento em que o sujeito morre que ele se torna, para os outros, um signo eterno, e os suicidas mais que os outros.” (Lacan, 1957-58, p.254).

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A morte faz do sujeito um signo para os demais. Há uma beleza horrenda e contagiosa ao mesmo tempo, no cair, no tornar-se um signo.

Se a busca pelo prazer seria o esforço para aliviar o desprazer (que, para alguns, também é um prazer), o suicídio, não somente nos casos extremos, se dá por meio da passagem ao ato ou “acting out”. É uma posição, radical, perante a angústia. O fim do sofrimento.

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Roney Moraes
Psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Ex-presidente e membro da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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