O americano Franklin Veaux se lembra muito bem de quando era criança e sua professora leu uma história sobre uma princesa com um dilema: dois pretendentes a cortejavam e ela tinha que escolher um deles.

Franklin se perguntou por que ela não poderia ficar com os dois.

Anos depois, temos Franklin vivendo sob o mesmo teto com sua namorada de longa data e mais um namorado dela.

Ele próprio está envolvido em outros quatro relacionamentos, com mulheres que ele vê com alguma frequência. “Nunca tive uma relação monogâmica na vida”, conta.

Franklin e suas parceiras são adeptos do que se chama de poliamor, ou “poli”, como a comunidade tende a se chamar.

Ser “poli” quer dizer que você pode estar em mais de um relacionamento com total apoio de todos os envolvidos.

O poliamor não aparece nos formulários do censo, mas há indícios de que a prática esteja ganhando mais seguidores.

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Em países como Estados Unidos e Reino Unido, alguns até reivindicam que seja algo reconhecido por lei, como as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Será, então, que o futuro do amor poderá ser totalmente diferente do que conhecemos atualmente?

Configuração ancestral

Bem, a imagem de que um homem e uma mulher se encontram e se apaixonam, casam-se, têm filhos e vivem pelo resto da vida em uma relação harmoniosa e monogâmica nunca passou de uma imagem.

A poligamia – o casamento com mais de uma pessoa – era comum entre muitos de nossos ancestrais nômades.

A monogamia começou a ganhar espaço à medida em que o homem foi se fixando em um só local.

É possível até que essa preferência tenha se dado por motivos financeiros, já que as partilhas entre familiares eram mais fáceis.

A monogamia acabou virando a norma vigente depois de ganhar popularidade entre os idealistas românticos do século 19. “A ideia da exclusividade sexual surgiu bem mais tarde em nossa história”, explica Hadar Aviram, professora da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em San Francisco.

Até mesmo hoje em dia, os relacionamentos monogâmicos são minoria no mundo.

Estimativas sugerem que até 83% das sociedades do planeta permitam a poligamia.

‘Mais desafiador’

Nas últimas décadas, sociólogos, especialistas em Direito e uma parte da opinião pública demonstraram grande interesse pelo poliamor e têm avaliado melhor a própria natureza do romance.

Se há uma regra entre adeptos da prática é que não há regras.

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Algumas pessoas, como Franklin, moram com parte dos parceiros e mantêm namoros fora de casa.

Outros adotam uma mistura de relacionamentos de curto e longo prazo.

Há ainda os que vivem em um grande grupo com seus companheiros e os companheiros de seus companheiros, o chamado “poliamor familiar”.

O que todos têm em comum é a franqueza, a compreensão, a confiança e a aceitação de todos os envolvidos.

“Nossos relacionamentos são muito mais desafiadores”, afirma Eve Rickert, uma das parceiras de Franklin e que, junto com ele, escreveu o livro More Than Two (“Mais de dois”, em tradução literal).

Mais comunicação e satisfação

No meio acadêmico, os primeiros estudos sobre esse modo de vida demoraram décadas para surgir.

Terri Conley, da Universidade de Michigan, tem uma pesquisa reveladora, concluindo que há vantagens claras na prática do poliamor.

Conley descobriu que os adeptos tendem a manter mais amizades e a ter um círculo social mais amplo. Eles também têm menos propensão a cortar totalmente o contato com o parceiro após o rompimento de uma relação.

Casais monogâmicos, por outro lado, normalmente se retiram dos círculos de amigos nos primeiros estágios de um relacionamento.

A pesquisa revelou ainda que poliamoristas se comunicam melhor e que o ciúme é bem menor do que nas relações a dois.

Em outro estudo, ainda não publicado, Conley descobriu que o grau de satisfação pessoal é maior em envolvimentos poli.

Leia mais: Todos somos poligâmicos?

Não se provou que essas pessoas tenham mais risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Na realidade, um estudo online anônimo revelou que os indivíduos abertamente não-monogâmicos tendem a praticar o sexo seguro mais do que aqueles que “pulam a cerca” no namoro ou no casamento convencional.

Para Conley, casais monogâmicos têm muito a aprender com o modo de vida poli, principalmente no que se refere à comunicação e à gestão de conflitos. “Colocamos muita ênfase no casamento, quando às vezes é preciso oxigenar a relação dando mais recursos às pessoas”, explica.

Estigma social

Mas as experiências positivas retratadas nas pesquisas nem sempre se traduzem em uma percepção positiva dos poliamoristas.

Na realidade, muitos enfrentam estigmas. E um dos maiores deles é a de que se trata de indivíduos interessados apenas em sexo.

Segundo Rickert, nos relacionamentos poliamorosos, as pessoas não querem apenas uma aventura, mas sim ter um compromisso emocional e amoroso com outros indivíduos – na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

O problema desses julgamentos é que eles atingem não só os adultos, mas também seus filhos.

Maria Pallotta-Chiarolli, da Universidade Deakin, na Austrália, fez uma série de estudos com crianças de famílias poli e concluiu que a maioria delas está feliz.

“Elas se beneficiam de ter mais apoio e dedicação dos adultos que exercem um papel parental dentro daquela unidade familiar. São crianças mais inteligentes e abertas para entender a diversidade e as várias formas de religião e cultura”, explica a cientista.

Mas nem tudo é sempre perfeito nas famílias poli. Elas enfrentam as mesmas dificuldades que qualquer outra família.

Como em qualquer relacionamento, as separações podem ser duras, ainda mais se houver filhos.

Leia mais: Como contar a separação do casal aos filhos

E qualquer problema que possa surgir acaba sendo atribuído ao modo de vida escolhido por aqueles indivíduos.

“Por exemplo, se uma criança vai mal na escola, o mundo lá fora tende a culpar o relacionamento não convencional dos pais. Para evitar isso, muitas crianças tentam compensar com um comportamento exemplar”, diz Pallotta-Chiarolli.

Via Legal?

Muitos estigmas podem ser difíceis de superar em parte porque essas famílias não são amparadas legalmente.

Mas, segundo Aviram, existe o desejo entre muitos adeptos de que o casamento poliamorista um dia se torne legal.

Uma pesquisa realizada com 4 mil pessoas envolvidas em relações de poliamor revelou que 76% gostariam de formalizar suas uniões, enquanto outros 92% concordam que “casamentos consensuais entre múltiplos adultos” deveriam ter o mesmo status legal que as uniões entre duas pessoas.

Para Aviram, o principal desafio para os poliamoristas hoje é a falta de proteção legal, como leis que evitam a discriminação, por exemplo.

Quando olhamos para a natureza, descobrimos que a monogamia é rara entre os animais. Até entre aqueles que são monogâmicos é possível observar “cópulas fora do casal”.

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Nossos parentes mais próximos, os chimpanzés e os bonobos, vivem em sociedades altamente promíscuas, o que sugere que nosso ancestral comum também o fazia.

Tudo isso aponta para o fato de que não há apenas uma única maneira para que o amor entre indivíduos se expresse.

O que funciona para uma pessoa ou para uma sociedade pode não funcionar para outras.

Relacionamentos são ecléticos e diversificados. E, enquanto o reconhecimento legal do poliamor ainda pode estar longe de acontecer, o amor, em todas as suas formas, tem tudo para mudar.

*Versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Future.

(Autora: Melissa Hogenboom)
(Fonte: bbc.com )

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