Ricardo Morales casa-se com Liliana Colotto e vive uma ardente paixão idolatrada e sufocante. Hipnótica paixão que vai carregar em memórias pelo resto da vida, com desdobramentos quase inesperados, porque um ex-colega da cidade do interior, Isidoro Gomes,  psicoavariado, obsessivo que  nas fotos de adolescência  não tirava os olhos de Liliana (o que o teria identificado) vai a Buenos Aires e estupra e assassina a bela jovem.

Benjamim  Espósito, um funcionário do Depto. de Justiça, entediado com a rotina burocrática do cargo público, fica impressionado com a cena do crime e procura o viúvo para informações. Ao ver um álbum de fotos, percebe em algumas, aquele denunciador olhar  (o olhar diz mais que palavras as vezes) de Isidoro Gomes para Liliana e passa,  junto com o colega/amigo alcoólatra Pablo Sandoval a procurar Gomes.

Após muitas trapalhadas e enganos, conseguem encontrá-lo num jogo de futebol, após um amigo de Sandoval decifrar as cartas que Gomes havia escrito para a mãe. Início de uma investigação, endógena, mais que necessária e auto elucidativa talvez (?)

Ao interrogá-lo sem sucesso, Espósito conta com a interferência da Dra. Irene que ao reduzir a auto estima de Gomes, repetir o que ele fez com a vítima, não o reconhecendo, desautorizando-o, faz com que ele acabe confessando o crime, num estado de excitação. Quem é Dra. Irene, o que sente quando pergunta?

Essa mesma necessidade de testemunhar essa existência patológica aparece novamente na última aparição de Gomes, quando ele implora  – Peça ao menos que ele fale comigo!  E poderia ter continuado … a palavra testemunha a minha existência, a mim mesmo e aos outros. A palavra comunica o ser, não o cria, mas o diz. E o dizer significa mostrar, manifestar iluminando-ocultando, no sentido de oferecer o mundo. Esse oferecer o mundo que é ao mesmo tempo iluminar e velar é a viva essência do dizer…o contrário do amor não é o ódio, é o desprezo, sabemos na clínica.

Na  agressão de Gomes a Irene, Espósito manifesta uma declaração inconsciente de amor   – Se a toca, te mato.  O que não dava conta de exprimir, falava subjetivamente. Quanto amor não manifestado carregamos, que se mostram por outros gestos, outros atos?

Cada vez que um personagem tenta desvendar o outro, surgem as obsessões do outro no “eu”.  Em comum, uma vida emocional medíocre, rotineira, burocratizada, incapaz de tomar conta de si mesmo, projetando no objeto a esperança de uma “passion”.

Quando penso em você, te crio e dou vida, na medida da minha necessidade.

Sandoval na bebida. Espósito no olhar do amor verdadeiro (?) de Morales.  Morales nas recordações da esposa e desejo de substituição da patologia obsessiva, na busca de Gomes. Gomes em qualquer coisa que manifeste sua violência. Irene no aguardo de Espósito. O que quer Irene?

Enquanto Irene diz mas não fala, (nem atende telefone na frente de Espósito) manifesta  através dos olhos o amor que guarda e aguarda para fugir da “vida emocional medíocre” confessada no reencontro, muitos anos depois.

Espósito não vê o olhar de Irene, mas traduz o olhar de Morales como o amor verdadeiro pela esposa morta, sem a interferência do cotidiano (que assustava Espósito, evitando o vínculo).

Sem saber (?), Espósito narra o amor que vê nos olhos de Morales, como a paixão que ele gostaria de sentir e não o reconhece nos olhos de Irene.  A impossibilidade de amar. O condicionamento na formação das experiências, do aparelho psíquico, do ambiente Winnicotiano.

Identificação projetada Kleiniana.

– No se cambia passion.  Se transfere.

A espera de Moralez na estação foi unútil porque Gomes vinha de trem para a cidade.

Mas a espera pode indicar uma espera de outra coisa. Da mulher que morava no interior. No quase consciente. Da substituição do amor patológico por outra forma de gratificação, que chega mais tarde. De várias formas…

A Doutora tem um casamento esperando há muito, com experimento de roupas que não se consolidam, com planos que não avançam…na espera de uma compreensão de Espósito..até  sugere uma conversa sobre a proposta de casamento recebida, a situação insustentável, o pedido de objeção aos seus planos, que não se realiza….uma espera que não anda, esperança travada.

Nesse meio tempo Gomes é libertado da prisão e como agente da Ditadura, coloca em risco a vida de Espósito que o prendeu.

Acaba matando Sandoval, por engano . Ou este teria salvo a vida de Espósito, virando as fotos para que não o reconhecessem?

Parece que Sandoval, Irene e Morales, cada um a sua maneira, precisavam da presença de Espósito, além dos dois acusados iniciais que foram soltos por sua interferência. Ele podia se deixar amar, se soubesse o que era isso, mas não conseguia fazer o mesmo.

A libertação de Gomes, faz com que Espósito tenha que fugir para Jujuy, indo Irene levá-lo na estação e na despedida, a cena final do livro. Ela correndo atrás do trem e ele a olhando ao longe. Impossível de criar o vínculo. O medo de amar, escrito na madrugada na palavra ato falho TEMO. Na oferta da despedida, o amor e a dor do impossível.

Na aposentadoria, a tentativa de declarar um amor reprimido através da novela escrita. Mesmo assim, a impossibilidade do encontro, ao se impedir o contato….o fim do livro é a partida. A dificuldade de transferir a realidade para a ficção, porque vinha de dentro.

A reflexão sobre a vida vazia, fazendo a mesma coisa há 25 anos, sublimando o amor, admirando a paixão de Gonzales pela mulher perdida. Não se pode mudar esta vida.

O silêncio da preparação? O amor no cuidado? Cada semente tem seu código, seu estatuto, seu cultivo e não dão frutos fora do seu tempo. Mas também não dão frutos depois do tempo. Uma pena que emoções não vividas devam ser substituídas. Já não serão as mesmas, talvez nem sejam…

No se puede cambiar uma vida llena de nada.  Disse Gonzales.

–  No piense más.   Enquanto mantia Gomes preso.  Prisão perpétua, já que não havia pena de morte.

Te devia uma. Estamos quites.

E Gomes implora um último pedido        – Pelo menos faça com que ele fale comigo.

Pior que a morte, é a perda do amor. Os gregos puniam seus delinqüentes enviando-os ao ostracismo. A invisibilidade é insuportável. Falta da relação, mesmo sem vínculo. O contrário de amor não é ódio, é desprezo.

O amor patológico virou prisão perpétua silenciosa para poder ver todo dia e realimentar a perda. Afinal um motivo! O “amor” de Gonzales estava substituído pelo ódio. Bastava uma emoção  patológica tão forte quanto a paixão anterior.O prazer  pela dor do outro que causou a dor.

No se cambia una passion!

Com a descoberta da solução por Morales, a abertura para outras referências. O destrancamento das emoções burocraticamente arquivadas. Caso resolvido.

A volta para a cidade e a descoberta que o TEMO era pelo condicionamento da falta da letra A na velha máquina. Descondicionar a escrita e o comportamento. 25 anos para encontrar a justiça interna, no assassino preso, Morales vingado, o amor solto.

Era para ter escrito TE AMO.

A possibilidade recuperada de se mudar o encontro. O amor que pode esperar,  que existe e  esteve ali o tempo todo.  Reprimido, insconsciente, dolorido, buscado e identificado projetivamente no pseudo amor de Morales, ao invés de ver o olhar ofertado  de Irene a sua frente.  Mais fácil o outro pelo descompromisso.

No dizer e na ação de Morales, na prisão perpétua de Gomes, a libertação para ver o que não podia.

Si, se puede cambiar esta vida, acrescento.

Vai ao cemitério levar flores para Sandoval. Termina o livro e não quer viver de recordações como havia recomendado Morales. Aliás, Morales já não é mais necessário. Retirada a projeção identificatória, está pronto para reassumir o “si mesmo”.

Tomar conta da sua existência. O que pode ser dolorido, confuso, mas é melhor que viver a vida dos e nos outros. O vir a ser todo pela frente.

Não temos tempo para ensaios. A vida é uma via de mão única. Em tudo que é fundamental quase sempre temos uma só oportunidade de tentar, porque exige ousadia e risco.

A busca só pode ser terapêutica quando se tem um objetivo e se ousa arriscar quando se acha que chegou a hora. Nunca teremos certeza  se o caminho era mesmo esse por não poder experimentar a alternativa.  A sublimação é uma fuga que não interessa a não ser para evitar o mal. Nunca a vida.

E justamente por ser  necessária a presença do outro porque “nós somos no outro”, e  termos essa dependencia de sobrevivência  “no outro”, que temos que tomar cuidado com o que projetamos, com os desejos e com o que queremos, porque eles podem se tornar realidade.

Antes só do que mal acompanhados. É no tempo que perdeste com a rosa, que fez a rosa tão importante (Saint Exupery).

Como disse Lévinas:” é no face-a-face humano que se irrompe todo o sentido. Diante do rosto do outro, o sujeito se descobre responsavel e lhe vem a idéia, o infinito”   

         

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Genaldo Vargas
Psicanalista, Palestrante, Professor Universitário, Viajante do mundo, curioso e eterno aprendiz..... É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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