A onipotência está tão presente nos nossos dias, na nossa vida no trabalho, escola, faculdade, nos relacionamentos, na vida de modo geral que infelizmente pode acabar caindo em lugar comum, passando despercebida muitas vezes. Mas ela está muito presente!

Pode se engendrar de tal maneira que se torna “normal”, “aceitável” e se duvidar até mesmo “aplaudível” em alguns casos. Mas não, ela não é normal, muito menos saudável tanto para os que possuem esse tipo de personalidade, como para os que convivem com pessoas onipotentes.

Comum de se identificar em sujeitos altivos, muito certos de suas opiniões, decisões (que inclusive afetam grande número de pessoas), nos cargos políticos, nos chefes de trabalho, mas também pode ser encontrada dentro de casa, na mamãe e no papai, no namorado(a), tio ou tia e assim vai. Ou seja, ela atinge qualquer população, classe social e gênero, sem restrições.

Mas, se ela pode ser “aplaudível” por quê seria ruim? A onipotência sorrateiramente pode destruir, aniquilar, anular alguém e dependendo do nível em que ela se manifesta, causa constrangimento porque não se compromete com a tolerância ou maturidade, mas sim com a infantilidade e consequentemente, falta de respeito. Por isso, não se iluda ao ver seu colega de trabalho ouvindo sermão em público do chefe, acreditando que isso é natural ou aceitável, esse tipo de atitude passa longe do respeito e da maturidade. Tudo tem sua hora e lugar e em muitos casos como esse exemplo, favorecem geralmente apenas uma pessoa, o onipotente e seu ego inflado.

A onipotência tem suas raízes na infância, na formação dos conceitos de moral e ética, ou seja, na formação do caráter. Ouvir um não, necessariamente implica em ter que ouvir o porquê desse não e consecutivamente buscar compreender as razões dele. Isso significa parar para ouvir, dar atenção, considerar etc.; estes são conceitos importantes e que perduram ao longo da vida de um ser humano sendo fundamentais, pois facilitam as trocas afetivas e sociais, formam a sensibilidade ao outro, a escuta, tolerância, respeito, simpatia e assim vai.

Mas a falta do não na infância pode gerar uma personalidade onipotente e com isso, incapaz de tolerar uma frustração, de ouvir o outro, respeitar, compreender e suportar as diferenças. Essa falta do não tira o freio necessário para o homem, não dá a ele a noção de que o mundo não gira ao seu redor e tira a consciência de suas próprias limitações, formando no futuro um sujeito narcisista e imaturo emocionalmente.

As primeiras reações aos “nãos” na vida adulta se tornam intragáveis para a pessoa onipotente, mas eles são necessários! O não precisa ser respeitado tanto para quem o diz como para quem o ouve, por isso precisa cumprir com seu objetivo final. Falar “não” e deixar de cumprir aquilo a que ele se propõe é tirar sua função, alimentar o erro e favorecer o crescimento da onipotência no sujeito, portanto, precisamos aprender a falar e respeitar o não.

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Muitos relacionamentos são abusivos, mas isso não significa necessariamente que haja agressão física neles; são abusivos pela falta de consideração ao gosto alheio, de ouvir o outro falar e realmente considerar essa fala, pela falta de respeito com os limites do outro, de perceber que são duas vidas se relacionando com suas individualidades e, portanto, necessariamente precisa-se respeitar as diferenças.

O sujeito onipotente só consegue ver a si mesmo ao ponto de não enxergar problema algum (ou nem se dar conta) na desconsideração dessas questões importantes numa relação a dois, mas isso deve ser quebrado, não pode ser alimentado.

O “não” se torna uma verdadeira aprendizagem na vida das pessoas, e deve começar a ser ouvido na mais tenra idade através dos pais ou cuidadores responsáveis pela formação do caráter da criança. Mas vale ressaltar que ele precisa ser dito debaixo de sabedoria e discernimento, pois não queremos formar futuros adultos com complexo de inferioridade, se sentindo indignos de qualquer coisa na vida, longe disso! Negar algo a alguém ou proibir tem sua hora e lugar; não implica em humilhar ou menosprezar, por isso deve vir acompanhado com bons argumentos, um diálogo saudável e sábio afim de que a criança compreenda verdadeiramente o porquê de ter sido negado um pedido ou quando uma ação inadequada for freada. Portanto, a onipotência se quebra na infância, não se alimenta.

Enfim, o “não” é um bem necessário, pois pode gerar maturidade, tolerância, respeito, solidariedade, cordialidade, simpatia, empatia, defesa, dentre infinitas outras habilidades sociais que atualmente encontram-se em falta no nosso mundo.

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Naara Alho
Psicóloga e atua em clínica utilizando a linha psicanalítica. Colunista do site Fãs da Psicanálise.


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