Numa experiência clássica da psicologia, o pesquisador americano Harry Harlow separou filhotes de macacos em três grupos. Os do primeiro foram colocados em um ambiente seguro, com um boneco “frio”, feito com estrutura de metal, mas capaz de alimentá-los.

Com necessidades biológicas básicas atendidas, os animais sobreviviam – mas se mostravam tristes e amedrontados e passavam muito tempo encolhidos pelos cantos, sem motivação para explorar o ambiente. Outro grupo permaneceu na companhia de um boneco “quente”, revestido por uma pelagem macia, na qual os pequenos podiam se aconchegar enquanto se alimentavam. Segundo Harlow, eles eram mais ativos e se arriscavam a explorar o ambiente. Já os integrantes do terceiro grupo, criados por uma macaca de verdade – que, além de amamentar os bichinhos, os aconchegava e interagia com eles –, eram alegres, atentos e curiosos, aprendiam com facilidade e não demonstravam medo de estímulos desconhecidos.

O comportamento dos macaquinhos faz pensar que comer não é só um modo de nos mantermos vivos ou mesmo de aplacarmos a fome. O alimento carrega bem mais que nutrientes para a constante construção das células do corpo e doses de energia que garantem aporte de glicose para os neurônios – o que mantém ativa a capacidade de memorizar e aprender. A forma como nós, humanos, nos alimentamos (ou deixamos de fazê-lo) carrega representações psíquicas, projeções e memória afetiva, permeia a maneira como nos relacionamos e nos comunicamos. A equação alimento igual a afeto, aliás, está tão consolidada que, se os filhos comem pouco, muitos pais se sentem culpados. E, não raro, nos damos conta do papel simbólico do alimento, tantas vezes usado para aplacar carências que não têm a ver com o estômago.

Nesse sentido, podemos pensar na ideia de “primeira mamada teórica”, trazida pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott para ilustrar um dos estágios mais primitivos do amadurecimento humano. Ao sugar o leite, o bebê não apenas aplaca a fome: também saboreia o contato com a mãe, o aconchego e o calor de seu corpo (qualquer associação com “caloria” não será mera coincidência). Marcada dessa maneira, a alimentação jamais será apenas um ato biológico.

Autora: Gláucia Leal

Este artigo foi publicado originalmente na edição especial 52 de Mente e Cérebro

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