Forças malignas sempre te impedem de cumprir prazos? Entrar no mestrado está sendo mais difícil do que você pensava? O revisor bobo falou mal do seu manuscrito maravilhoso? Seus problemas não acabaram! Mas para começar a solucioná-los é preciso escapar do “vórtice do mimimi”.

Mas, Marco, que diabos de vórtice é esse?!

Estou falando da “postura do derrotado”, normalmente observada em pessoas que se consideram injustiçadas pelo mundo, preteridas pela sorte, assombradas pela incompreensão, oprimidas por Murphy.

São pessoas que se colocam eternamente no papel de vítima e que acabam caindo num terrível vórtice de auto-piedade que as leva para o abismo da irrelevância profissional e dos sonhos não-realizados.

Essas pessoas entram em uma batalha já derrotadas pela própria mentalidade. Como dizia Bruce Lee: “a posse de qualquer coisa começa na mente”.

É claro que todos sofremos injustiças de vez em quando. Ninguém passa pela Academia ileso (quem disse que fazer ciência era fácil?). Mas, em alguns casos, um determinado revés ser uma injustiça ou não depende apenas do ponto de vista.

Às vezes fica difícil julgar com sabedoria o que nos levou a uma derrota específica, se não conseguimos ter uma boa medida de nós mesmos. Sonhar é importante; ter objetivos, mais ainda. Mas sonhos só são realizados, se amparados por um bom planejamento, levando em conta a diferença entre potencial e expectativa.

O mais triste é ver que alguns sonhos não se realizam apenas por culpa da postura do próprio sonhador.

Já vi pessoas com bom potencial para a vida acadêmica sabotarem a si mesmas por não serem capazes de admitir os próprios erros e limitações. Como já disse em outro post, a falta de humildade é um terrível veneno para o cientista, especialmente os ainda em formação. E a falta de humildade vem em vários formatos, tamanhos, cores e sabores, algumas vezes disfarçada de “mimimi”. Não, o mimimi não é uma tolice inócua. Ele mata carreiras.

Pense naquele seu colega incapaz de simplesmente pedir desculpas: ele sempre tem que adicionar um “mas é que” na história. Ele não cumpriu um prazo que vocês combinaram para terminar um artigo? “Foi mal, mas é que o meu cachorro comeu meu notebook…”

Mais sério ainda é quando cumprir um determinado prazo significa a diferença entre aproveitar ou desperdiçar uma ótima oportunidade profissional: sinto muito, mas o mimimi não vai trazer a oportunidade de volta.

Vamos pensar numa outra situação hipotética, que você provavelmente já viu na vida real. Uma pessoa está na segunda ou terceira tentativa de passar na seleção de um determinado programa de pós-graduação acadêmico. Ela já acumula uma pesada carga de frustração com as tentativas passadas, o que dificulta ainda mais o preparo psicológico. O que ela deveria fazer?

Simples: tentar, a cada derrota, identificar claramente o que a derrubou.

Será que foi o currículo, que ainda não tem realizações tão importantes quanto as dos colegas no mesmo nível acadêmico? Será que foi a prova de proficiência em inglês? Ou será que foi a prova de conhecimentos específicos da área em questão? Se a pessoa tem motivos para insistir no programa em questão ao invés de tentar passar em outro lugar, ela deve traçar uma nova estratégia.

Não adianta fazer tudo igual e esperar resultados diferentes. Não adianta esperar uma melhoria mágica no currículo, se você tem o péssimo hábito de engavetar trabalhos ou procrastinar tudo patologicamente, botando a culpa nos outros. Não adianta bombar no inglês e não procurar um curso particular para melhorar os conhecimentos.

Não adianta bombar na prova específica e, novamente, deixar para estudar apenas na véspera. Cruzar os braços e se desviar da culpa, por exemplo chamando o tal programa de “discriminatório” e os seus colegas bem-sucedidos de “puxa-sacos carreiristas”, apenas atesta a falta de noção da pessoa e não ajuda a colocá-la mais perto do seu sonho.

Para dar um outro exemplo, vamos imaginar uma pessoa que está tentando publicar um determinado manuscrito e tomou negativas de duas ou três revistas.

Todos sabem que publicar bem está cada vez mais difícil, devido à superlotação da Academia e ao Culto Apocalíptico do Fator de Impacto, e que a maioria dos trabalhos apanha bastante antes de ser publicada numa boa revista. Essa pessoa tem duas alternativas: (1) refletir sobre as críticas recebidas até então e reavaliar a qualidade e escopo do próprio trabalho, repensar em quais revistas ele teria mais chances de ser aceito e, então, decidir qual deve ser o próximo alvo de submissão; ou (2) engavetar o manuscrito e lamentar como o mundo é injusto, como ninguém lhe dá uma chance, como as grandes revistas discriminam pesquisadores de países pobres etc.

Qual dessas alternativas você acha que é mais sensata e produtiva? Qual das duas deve, a longo prazo, levar a um maior desenvolvimento profissional? Acho que é fácil responder isso, mesmo que a resposta às vezes fique obscurecida pela frustração momentânea.

De um modo geral, evitar o “vórtice do mimimi” requer uma séria mudança de postura. Tente fazer o seguinte exercício de pro-atividade. Toda vez que algo der errado na sua carreira, presuma: a culpa é minha. Repita para si mesmo: a culpa é minha.

Tudo bem, nem sempre a culpa é sua. Mas tomar a responsabilidade para si é uma postura altamente saudável, que faz você retomar as rédeas da própria vida e te coloca em posição de agir, não de esperar. Ninguém te deve nada. A vida não te deve nada. Para ter direitos, é preciso cumprir deveres. O que você quer ter, precisa conquistar. E coisas boas geralmente são conseguidas apenas através de trabalho duro.

Pense nisso.

(Autor: Prof. Marco Mello)
(Fonte: marcoarmello.wordpress.com )

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