Temos vivido muitas perdas. Sofremos mais pelo desaparecimento de quem amamos, do que pela nossa própria morte. É estranho o amor humano. Somos conscientes de que aquela pessoa que amamos pode deixar de existir a qualquer momento e, no entanto, amamos!, salvo raras e desonrosas exceções. Jacques Lacan dizia que era necessário ser um pouco bobo na vida. Que “os não tolos erram” – é mesmo o nome de um de seus seminários – pois se quisermos ser de tudo precavidos, vamos vagar perdidos em desamor.

No decorrer dos séculos viemos estabelecendo formas de nos conformarmos – sempre imperfeitamente – ao desaparecimento de quem gostamos. Luc Ferry, o filósofo que frequentou recentemente essas páginas comigo, discorreu sobre grandes períodos da história filosófica, a esse respeito. Primeiro, tivemos uma concepção cósmica (natural) da existência. Seríamos seres naturais, da mesma natureza das frutas, por exemplo, e como elas cumpriríamos um ciclo de vida. Se laranjas, maçãs e melancias têm o seu ciclo, nós também. Para os gregos, os homens seriam pré-catalogados em categorias como as dos senhores, guerreiros, artesãos, escravos, mulheres e crianças. Categorias estanques, como as frutas também o são. A morte, como se dizia – e ainda se diz – seria simplesmente “natural”, cumprindo a etapa final de nosso destino.

Essa visão cósmica da nossa morte foi substituída pela ideia religiosa, com duas vantagens: a de passarmos a sermos todos iguais, não estanques, perante um deus, e, mais importante, não morrermos para virar semente, como na primeira concepção, mas para irmos para uma segunda e mais plena vida, a vida eterna. Tenho ouvido com frequência, em meu consultório, a fantasia de pessoas que não querem ser cremadas, para não aparecerem no Juízo Final, em um cinzeiro… É claro que essa visão religiosa é muito mais sedutora que a visão cósmica, razão pela qual ter vigorado por bem mais tempo que a primeira.

A visão religiosa foi substituída pela ideia racional de finitude, datada a partir do fim do Século XVII, começo do XVIII. O Homem, decepcionado com os deuses, saiu do aconchego celestial e começou a preconizar que as nossas vidas seriam prolongadas nas histórias que depois contariam a nosso respeito. Como escreveu um ditador brasileiro: sair da vida deveria ser entrar na história. Ou seja, virar herói.

Todas essas visões foram postas radicalmente em questão no início do século passado, a partir de uma influência maior, a de  Nietzsche com a sua desconstrução de todos os ideais. O amor não teria um além. Só se pode amar o que é agora, pois o ontem não é mais, e o amanhã não é ainda.

Como estamos hoje com as nossas perdas, que infelizmente têm se sucedido com frequência aumentada? As três concepções: cósmica, religiosa e racional não desapareceram, mas persistem,  mesmo que não sejam mais os ideários dominantes. Com frequência buscamos ainda nos consolar nelas, ao mesmo tempo em que, como dizia ao iniciar, no fundo, no fundo, sabemos que amar alguém é se expor a uma perda importante que nem a natureza, nem os céus, nem as estátuas heroicas vão nos salvar. Vai ver que por isso é que Steve Jobs, na esteira de Lacan, deu o conselho que ficou famoso, aos seus jovens afilhados formados em Stanford: Stay Hungry, Stay Foolish!

(Autor: Jorge Forbes)

(Fonte: jorgeforbes.com.br)

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