Em uma tarde de sexta-feira, uma mulher encontra seu marido com outra na cama.

Magoada e enfurecida, sua primeira reação é agredir a amante, cortar os cabelos dela e exibi-la nua pelas ruas. História de filme? Antes fosse. O caso é real e aconteceu na última semana em Cubatão (SP), reverberando nas mídias sociais e no noticiário nacional.

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A história tem diversos lados: do marido, da esposa traída, da amante e do resto do mundo que resolveu opinar sobre ela. E, nesse bafafá todo, ficamos com a pergunta: por que culpabilizamos tanto a amante sendo que o homem não foi obrigado a trair?

O Damo e a Vagabunda

“Pivô da separação”, “mulher sem moral”, “destruidora de lares”, “vagabunda” e tantas outras expressões são usadas para descrever uma mulher que se relaciona com um homem comprometido.

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Esses termos são oriundos de um imaginário coletivo enraizado no patriarcado – e, nesse imaginário, a amante, maligna e sem moral, com todo o seu poder seduziu o pobre homem comprometido, que diante de tamanha tentação, foi incapaz de recusar a oferta de amor.

Parece até caso de feitiçaria, né? O homem é o coitado e a amante a pecaminosa. Mas, será que é mesmo assim? Será que nós mulheres temos esse poder de sedução irresistível capaz de corromper qualquer um?

A Vagabunda

A amante é sempre a grande bandida e vilã da história que merece queimar nos mármores do inferno. Mas, pensando bem, será que ela sabia que o cara era comprometido? Será que ele não tirou a aliança e contou um conto da carochinha? Pensem nisso.

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Ao mesmo tempo, temos amigas que saem com homens casados/namorando e não se importam. Segundo elas, quem namora é eles e quem está se arriscando são eles e não elas. Egoísta? Pode até ser, mas elas dizem estar de consciência limpa.

Já outras amigas vão pela “Lei de Ouro” – não faça com os outros o que não quer que façam com você. Nesse caso, a sororidade e a empatia reinam: “não vou sair com um cara que namora/é casado, pois não quero que outras saiam com o meu quando eu tiver um”, ou “já fui traída, sei a dor que é e não quero que ninguém sinta igual”.

O Damo

Coitadinho do moço, estava lá indefeso e foi atacado! Será mesmo? Até onde sabemos ainda não foi inventada a Amortentia, poção do amor mais poderosa que existe na série Harry Potter, e o canto da sereia está no fundo do mar.

O homem é maior de idade e vacinado, ou seja, ele sabe o que está fazendo. Em rápida pesquisa com mais de 20 caras que namoram/são casados/em relacionamento fechado e já traíram suas cônjuges, muitos deles foram atrás de uma outra mulher por motivos tão diversos quanto insatisfação no relacionamento, aposta com os amigos e até para sentirem que não tinham perdido o “molejo”. Nenhum deles atestou que “foi enfeitiçado” pela amante, mas sim que deu mole para a mina que chegou neles.

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Essa história de homem que não pode resistir à uma mulher remete a sociedade patriarcal em que vivemos: se o homem nega uma mulher, ele é frouxo e sua masculinidade é comprometida, de modo que seria melhor manter a honra do que a fidelidade.

O homem, na verdade, tem mais responsabilidade em uma situação de traição. Uma vez que foi ele que se comprometeu em um relacionamento e jurou fidelidade para sua namorada ou esposa. Já dizia o ditado popular: quando um não quer, dois não fazem.

A Mulher Traída

Já a mulher traída tem raiva e com razão, pois acreditou em alguém e foi magoada. O problema é que, quando estamos apaixonadas, é muito mais fácil colocar a culpa no terceiro elemento: perceber o erro do amado é reconhecer que ele não é o que sempre pensamos e usamos a amante para, muitas vezes, justificar inconscientemente a atitude do marido/namorado. Além disso, crescemos em uma sociedade que nos ensinou a sempre culpar a “vagabunda” (estranho que o Ricardão é sempre o garanhão da história, mas isso é papo para outro dia).

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A mulher traída, normalmente, acredita que, se aquela outra mulher, específica, não tivesse aparecido na vida do seu marido/namorado, ele não a teria traído e eles viveriam felizes para sempre. Aí nos esquecemos de que a traição tem diversas raízes, como a insatisfação do traidor com o relacionamento e a amante em questão foi a válvula de escape encontrada. Novamente, a culpa é do homem: se o relacionamento está ruim, por que não terminar antes de trair?
Por fim, agredir física ou verbalmente a amante não retira o fato de que quem traiu foi o companheiro e muitas vezes a moça nem sabia do estado civil do dito cujo – e se sabia, foi errado.

Mas… a culpa é realmente toda dela?

*Texto publicado originalmente por Nathalia Marques e Cris Chaim no Site Lado M e reeditado com autorização do administrador

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3 COMENTÁRIOS

  1. É óbvio que a culpa não é só dela, uma prostituta pq sai com homem casado. O cara é galinha e foi assim a vida toda, Pq? Pq é ruim, péssimo de cama e precisa dar uma testada de vez em quando. Outras vezes traem pq estão ficando velhos e as coisas não funcionam sem o azulzinho. Sabe que uma reviravolta dessas, pode ser bom p esposa? Abre os olhos e começa ver tanta gente interessante e arruma um namorado maravilhoso, dando-se conta que estava acomodada com aquele fracassado kkkkkk

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