Recebi no consultório um jovem que se dizia confuso. Ele deveria se apresentar para uma nova posição na empresa em que trabalhava em duas semanas, então eu sabia que não voltaria a vê-lo. Ele havia recebido uma promoção e deveria se mudar para outra cidade. Era uma grande oportunidade, um sonho se realizando. A confusão se devia a não saber se deveria ou não terminar com o namorado antes de partir.

Ele estava muito ansioso. Começou a sessão falando sobre quão incrível era o namorado, mas que não o amava realmente e que sabia que o relacionamento não duraria na outra cidade. Não havia interesse em manter um relacionamento a distância e, tampouco, pretensão a convidar o namorado a mudar-se com ele.

Eu ouvi durante alguns minutos. Em uma das pausas, disse “você não está confuso, você não quer mais esse relacionamento, só não admitiu isso ainda”.

O problema não era confusão, mas sim admitir seu desejo de terminar a relação. De acordo com o relato dele, não havia nada de “errado”. Seu namorado era atencioso, bonito e loucamente apaixonado por ele. Mas ele não estava inteiro. Ele desejava ir embora, seguir seu sonho e não queria companhia nesse processo. Porém aceitar isso era difícil demais.

O primeiro passo para resolver um prolema é admitir que ele existe. Nas relações românticas, isso não é diferente. Considero que essa é talvez a parte mais dura do processo. Seja no caso de uma relação saudável, seja numa desgastada isso se repete. Nesse texto, vou me ater àquelas relações as quais não costumamos dar muita atenção, as aceitáveis, nas quais há infelicidade ou apenas conforto.

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Várias são as razões que impedem as pessoas de admitir que desejam terminar uma relação. Uma delas é o impacto social. Quando se está há muito tempo com alguém, existe uma comunidade envolvida. Pais, irmãos, avós, amigos. Existem fotos de família, feriados planejados e outros já vividos. Existe uma concepção, seja individual ou compartilhada, de que aquela relação é uma unidade inseparável e quebrá-la envolve sofrimento, o que nem todos estão dispostos a enfrentar. Permanecer naquela relação é mais confortável do que sair. Perceba que a palavra utilizada aqui é conforto, não felicidade.

Outro motivo é o medo/preguiça de encontrar alguém novo. Por mais que seja emocionante se apaixonar, isso não acontece com facilidade e muitos não estão dispostos a se aventurar. Mesmo com a ajuda da tecnologia, encontrar uma pessoa com quem haja similaridades, interesses comuns e paixão não é cotidiano. É uma mistura de oportunidade com sorte. Aceitar o desconhecido e, consequentemente, o tempo incerto é considerado pouco atraente e prefere-se ficar onde está, mesmo que infeliz.

Outro motivo, e talvez o mais difícil de todos, é não desejar saber o que sentem. Perceber e examinar os próprios sentimentos pode ser aversivo e alguns evitam isso a todo custo. Quando alguém reserva um tempo para conhecer a si, pode descobrir muito mais do que insatisfação num relacionamento. Pode se dar conta de sonhos não realizados, de amizades destrutivas, de comportamentos não saudáveis. A ignorância serve como proteção.

Não cabia a mim definir se aquele rapaz deveria ou não terminar seu relacionamento, assim como também opinar sobre relações alheias. Acredito, porém, que pode haver muito mais do que insatisfação nas relações. Pode haver felicidades, compartilhamento, familiaridade, amor.

Não que exista felicidade plena e constante, afinal isso não é um filme da Disney. Existe mais do que apenas conforto. Isso não deveria ser suficiente. Algumas relações já terminaram, assim como a desse rapaz, apenas ninguém descobriu ainda e talvez seja a hora de alguém contar.

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