Young man in kitchen drinking milk from carton, side view

O prazer é por natureza egoísta; é uma satisfação ontologicamente individual e, portanto, jamais poderá ser absolutamente altruísta ou desprendido.

Ninguém poderia sentir por nós o prazer de um café quente, de uma refeição farta, de uma fragrância agradável, de um sexo bem feito, nem nós poderíamos nos alienar totalmente das sensações físicas e psíquicas que envolvem o prazer.

No entanto, o egoísmo do prazer assumiu contornos extremos nos últimos dois séculos e meio. As teorias política e econômica do liberalismo do século XVIII, que forneceram as bases ideológicas do ocidente contemporâneo, enfatizavam a promoção do bem-estar e das liberdades individuais como forças-motrizes da sociedade.

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Quanto maior a felicidade individual, maior o bem-comum social. O consumismo exacerbou esse processo, ao colocar na prateleira, e de forma customizada, para todos os gostos, a satisfação de nossas necessidades e vontades.

A sexualidade, campo por excelência do prazer, não ficaria imune a essa tendência. Aprendemos desde cedo que o orgasmo é o objetivo, e quanto mais intenso, melhor. Fomos aos poucos nos afastando do fazer e nos aproximando do obter – fazer amor ou sexo passou a ser sinônimo de obter orgasmo.

É como aquela máxima segundo a qual a felicidade não está no fim do caminho, ela é a própria caminhada. No sexo, inverteu-se a lógica. Pior: segregamos o prazer por gênero. Não é apenas cada vez mais egoísta, mas é também masculino. Um teste: quantas cenas de filmes eróticos acabam com uma mulher tendo orgasmo?

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Livros, revistas, artigos – e até o consultório ou o divã – viraram meios para a discussão sobre como fazer a mulher alcançar o orgasmo.

Mais do que fatores biológicos, o que explica essa suposta dificuldade é uma construção social que relega o prazer feminino a segundo plano. A transa acaba quando o homem ejacula. E ponto. E isso se reforça com o egoísmo do prazer: seu prazer importa menos que o meu.

É por isso que para muitos é tão difícil entender qualquer fantasia ou prática sexual que não privilegie o orgasmo. Estão aí para prová-lo o sexo tântrico e a menos conhecida karezza (do italiano carezza, carinho), que se concentram na
troca de estímulos entre os(as) parceiros(as) e entendem o prazer como experiência emocional e sensorial muito além do clímax.

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Mais enigmáticas ainda são, também para muitos, as fantasias como o voyeurismo. Afinal, qual seria o sentido de assistir o ato sexual entre outras pessoas, conhecidas ou estranhas? A resposta é simples, mas, para muitos, insatisfatória ou incompreensível: meu prazer pode, sim, estar no prazer alheio.

Não se trata de um mundo sem satisfações pessoais ou de total abnegação do deleite; trata-se, isso sim, de ampliar a definição de prazer e entender que o prazer do outro não é distinto do nosso, mas, antes, seu complemento.

Felizmente, parecemos caminhar para um compreensão mais abrangente do sexo, que inclua uma definição holística e altruísta do prazer.

É uma revolução e tanto: estamos demolindo os pilares rígidos de conceitos sociais que balizam a
sexualidade há décadas – senão séculos.

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É, também, uma descoberta fascinante: afinal, explorar o prazer alheio é ter diante de si um universo infindável de possibilidades, anseios, desejos, fantasias.

No amor como no sexo, somar é muito melhor do que dividir.

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Diplomata e colunista do site Fãs da Psicanálise


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