“Não são palavras e sons arco-íris e falsas pontes entre coisas eternamente separadas?” – NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra

Qual o valor daquele instante em que os olhos se encontram e o silêncio preenche o espaço ao redor fazendo desse mundo atormentado o melhor dos mundos possíveis?

Quero não me arriscar à primeira palavra, e se depender de mim poderíamos ficar só assim, se olhando e sentindo redemoinhos de sensações no estômago até os astros se colidirem e a gente virar estrelas.

Sei que tudo em nós fala, somos verborrágicos, mas, mal-dita sejam as palavras iniciais que quebram essa fina película de intensa beleza – Há quanto tempo, tudo bem? – Se eu pudesse eu congelaria aquele instante e não diríamos nem palavra de poeta – Deixa-me aquecer um pouco mais sob os segredos dos teus olhos sem precisar dizer nada, apenas olhar. – Às vezes basta um olhar para dissolver tanta bobeira e feiura do mundo.

Iríamos nos constranger se olhássemos e olhássemos e olhássemos sem dizer nada? Então vamo-nos constranger juntos, que mania a nossa de evitar a relação (afetar-se!).

Deixa rolar o constrangimento, a timidez, os titubeios, toda essa efervescência de sentires que acontece no corpo quando a gente se deixa ir sem palavras, deixa rolar para ver o que acontece.

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A gente não depende do verbo para entender, há um entendimento outro, um entendimento translúcido que se dá como um espreguiçamento das coisas em nós.

Quantas novas línguas não poderíamos aprender se não fôssemos logo nos atirando ao verbo para se comunicar?

Se a gente não fosse logo querendo tapar os acontecimentos da vida com comunicação, quem sabe não falaríamos mais com bicho, com árvore, com planta, com abelha, com nuvem, com lua, com o Fernando, aquele, o Pessoa.

O que dizem as folhas secas que saem cantarolando rua abaixo carregadas pelos ventos de outono? E a chuva forte que bate à nossa janela pela madrugada?

Rasgar o verbo é tornar o corpo permeável para que sensações possam nos ventilar, saibamos sentir sem a responsabilidade de nomeá-las.

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A delícia que é ser transtornado em êxtase ouvindo a nona sinfonia de Beethoven… nesse espaço inaudito a palavra não ousa aparecer, os momentos mais intensos de nossas vidas, acredite, estamos perdidos ou à beira de perder os nomes.

O êxtase se dá antes do verbo, o orgasmo nos deixa completamente nus dos nomes, explode com o pequeno reinado do Eu e somos tomados por forças a-significantes que nos dá a entender que somos parte do universo cuja carne somos carne.

Por vezes o que importa é só escutar a melodia da tua voz e assistir ao jeito como falas sem me importar com o que dizes.

O verbo deveria vir depois de nossos olhos se tatearem tentando encontrar uma conexão para sentir um pouco da vida que há em cada um de nós, e de regra – de regra – só poderíamos dizer a primeira palavra pelo menos depois que nossos rostos se olhassem em silêncio até ao primeiro riso, e acredite, vai ter primeiro riso, e depois do primeiro… toda palavra é mais agradável.

Não vamos negar a palavra, ela é boa, ela pode nos ajudar, pode invocar belezas, alegrias e tristezas perdidas quando recontamos, o que se pede é um pouco de abertura às sensações que atingem a carne antes do significado.

Há tanta vida pulsando caoticamente ao nosso redor mas sentimos muito pouco de tanta variação quando habituados a nossa tagarelice diária.

Quem se apressa em dizer que aquilo que não tem nome incomoda é o psicanalista, deixemos incomodar, façamos mais, cultivemos espantos e estranhamentos, como Clarice quando via galinha.

Tanta coisa se passa e já se passou quando nossos olhos dão o primeiro esbarrão… E a gente não flutua nem um pouquinho nas ondas do acontecimento.

Ah se eu pudesse, se eu pudesse estaríamos ainda naquele instante em que nossos olhos se encontraram quando já estávamos quase no movimento de nos cumprimentar, não teríamos nos cumprimentado ainda, eu estaria percorrendo os labirintos dos teus olhos tentando encontrar uma maneira de sentir um pouco do calor da tua alma, estaria só um pouquinho depois de quando ainda luz, tempo e moléculas dançavam na fragilidade do acontecimento prestes a ser gestado, ainda restaria muito a sentir antes de nascer a primeira palavra.

Se a gente soubesse ficar em suspenso dos nomes e deixar a vida sem nome por instantes a gente experimentaria o nascimento do mundo tantas e tantas vezes.

Quanto mais conseguimos não ceder à tentação do nome mais experimentamos as variações de vida e mais leve nos sentimos, eis um mundo mais poético. Neurose também é a exaustão de querer nomear o caos das sensações.

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Com determinadas drogas a gente pode conseguir poderosas suspensões entre o mundo e a linguagem, e ainda assim é preciso ter uma alma acostumada mais à poesia que geometria.

Entretanto, podemos experimentar essa potência suspensiva quando nossos olhos se encontram e de alguma maneira parecem se encaixar uns nos outros – tocarem-se, por assim dizer -, estabelecemos aqui uma conexão – adiemos ao máximo a palavra.

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Adriel Dutra
Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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