Há alguns dias assisti ao vídeo de Holley R. Kitchen, uma americana que aos 39 anos teve diagnóstico de câncer de mama, e algum tempo depois recebeu a desapontadora notícia de que a doença tinha retornado, comprometendo sua coluna.

No vídeo ela conta, através de frases escritas em pequenos cartões, sobre seu objetivo de ensinar as pessoas a se comportarem diante de alguém que tem um diagnóstico de câncer, em especial metastático (e portanto incurável).

A história de Holley não é nada diferente das histórias de milhares de mulheres, em todas as partes do mundo. As mensagens em seus cartões também não são nenhuma grande novidade. E mesmo assim seu vídeo já foi visualizado por mais de trinta milhões de pessoas, em todo o mundo.

Enquanto eu assistia ao vídeo, eu me lembrava das centenas de mulheres que conheci e que, como Holley, foram obrigadas a passar pela experiência nada desejável de ter uma doença incurável. Cada uma delas vive a experiência de uma forma muito pessoal e íntima.

Os sentimentos que uma situação como essa provoca são infinitos: do medo extremo à força inexplicável, da angústia ao conformismo, do desespero à confiança e à fé. Mas não me lembro de nenhuma que tenha se mostrado indiferente à reação dos outros diante de sua doença.

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Foi esse o sentimento que Holley trouxe à tona em seus cartões rabiscados. Ela descreve, de forma simples e objetiva, as reações que podem realmente machucar alguém com um diagnóstico tão sério. Revela, do seu jeito bem-humorado e otimista, o impacto nefasto de frases como “Nossa, mas você é tão jovem…”, ou “Minha mãe morreu disso… foi horrível.”, ou ainda “Os médicos já descobriram a cura do câncer, mas mantêm em segredo para continuar ganhando dinheiro”. Ela ensina o que não deveria precisar ser ensinado: como respeitar a fragilidade dos outros.

Fiquei pensando no que leva uma pessoa a fazer um comentário como “Mas o que você fez para ter uma doença como essa?”, ou outros tantos comentários infelizes que as pacientes contam, magoadas e decepcionadas. Mas o que parece crueldade provavelmente não passa de uma forma de se defender do sofrimento alheio, não mais que um sinal da fragilidade da própria pessoa.

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O alívio secreto que sentimos quando ouvimos as tragédias pessoais de alguém é humanamente “normal”. Algo como “Puxa, ainda bem que não é comigo”. Normal. O problema aqui é que nem sempre o que é normal pode ser considerado aceitável.

O fato de nos sentirmos mais seguros e afortunados com o sofrimento dos outros deveria ser motivo mais que suficiente para lutarmos contra esse sentimento mesquinho e nos reeducarmos do ponto de vista emocional. Não por ser politicamente incorreto, ou espiritualmente recriminável, mas porque esse tipo de atitude machuca outros seres humanos.

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Nada que possa magoar, ferir ou humilhar outras pessoas pode ser encarado como “normal”, mesmo que 99% das pessoas sintam o mesmo. Não é normal, é um desvio emocional. E, como todo desvio humano, pode ser corrigido.

Uma das formas mais simples é a auto-vigilância constante, através da qual aprendemos a identificar um sentimento egoísta ou uma atitude mesquinha imediatamente, bloqueando sua execução. E, claro, o bom e velho exercício da empatia é sempre bem-vindo. Nenhuma capacidade humana é mais admirável que a de se colocar no lugar do outro.

Assim, da próxima vez em que você se deparar com uma pessoa com diagnóstico de câncer, ou com uma limitação física, ou que esteja em qualquer situação de “desvantagem” em relação a você, lembre-se das lições da Holley, e pense primeiro no que você gostaria de ouvir se estivesse na situação dela.

E, se as palavras lhe faltarem, não se desespere: um silêncio sincero e empático pode ser mais valioso do que um milhão de palavras ditas sem pensar.

(Autora: Ana Lucia Coradazzi)

(Fonte: nofinaldocorredor)

* Texto publicado com a autorização da autora.

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